Os que vieram da lama

A sala da professora Sônia tinha a porta trancada e as persianas fechadas. Ela serviu dois copos de água com açúcar e colocou um na frente de Ícaro.
— Para a sua — disse. — Eles adoram.
Maré não saiu do bolso.
A professora abriu a mão direita em cima da mesa. O olho no meio dela olhou para Ícaro com uma curiosidade calma. A boca que se abriu embaixo dele era maior que a de Maré, com lábios grossos.
— Oi, pequena — disse Lodo, com a voz grave de um homem velho. — Você está com medo de mim. Não precisa.
Dentro do bolso, Maré não respondeu.
A professora contou tudo.
Tinha acontecido com ela também numa noite de chuva, dois meses antes, na primeira semana da dragagem. Estava coletando amostras de lama na área do porto para provar na justiça que a obra estava contaminando o rio. Enfiou a mão numa poça sem luva, uma coisa que nunca fazia. Alguma coisa entrou por um corte antigo, uma rachadura de pele seca entre os dedos.
— Lodo também parou na mão — disse ela. — Eu estava ouvindo rádio. A Rádio Jornal do Commercio, no carro, a noite inteira, porque não conseguia dormir. Ele ficou ouvindo e se esqueceu de subir.
— Então existem outros como a Maré. Presos em mãos.
— Poucos. Até onde eu sei, nós dois e mais três pessoas na cidade. — A professora tomou um gole de água. — O resto subiu até a cabeça. São, pelas minhas contas, uns quarenta. Talvez cinquenta. Estão se escondendo dentro de pessoas comuns, trabalhando, pegando ônibus, indo à missa. E comendo uma pessoa por semana, mais ou menos.
Ícaro sentiu o estômago revirar.
— A gente tem que contar para alguém. Para o exército, para o governo…
— Por quê?
Ele parou.
A professora Sônia se recostou na cadeira e cruzou as mãos em cima da barriga. O olho de Lodo, na palma da mão dela, fechou-se devagar, como quem sorri.
— Sabe quantas pessoas morreram no Capibaribe nos últimos cinquenta anos por causa de esgoto, lixo, enchente, contaminação? — perguntou ela. — Sabe quantos pescadores da Ilha de Deus perderam o sustento quando o mangue morreu? Sabe quantas espécies eu vi sumirem daquele rio em trinta anos de pesquisa? Eu fui a vinte audiências públicas, Ícaro. Vinte. Eu mostrei os dados. Eu levei os pescadores. Eu chorei na frente do juiz. E a obra continuou.
— Professora…
— Eles estavam dormindo no fundo do rio havia doze mil anos. Os homens foram lá e acordaram eles com máquinas. — Ela se inclinou para a frente. — Os que vieram da lama não são o problema. Eles são a resposta.
Ícaro se levantou tão depressa que a cadeira caiu.
— A senhora está protegendo eles.
— Eu estou organizando eles. — A voz dela não subiu nem um tom. — Eles não sabem pensar direito, os que subiram até a cabeça. Só comem e se escondem. Mas eles me ouvem. Lodo fala com eles. Lodo e eu temos um plano. Os engenheiros da obra. O dono da empresa de dragagem. O secretário que aprovou a licença. O juiz que negou a liminar. Um por um. E depois todo mundo que mora nas palafitas em cima do mangue vai embora, porque vai ter medo, e o mangue vai voltar a crescer, e o rio vai voltar a ser rio.
— E as pessoas que eles comem no caminho?
A professora deu de ombros.
— O rio sempre comeu gente, Ícaro. Agora ele escolhe quem.
Ela se levantou. Veio até ele. Colocou a mão direita, a de Lodo, no ombro dele. O toque era frio e úmido como lama.
— Eu quero você comigo — disse ela. — Você é meu melhor aluno. E a sua é rápida, eu vi o que ela fez no ônibus hoje. Lodo sentiu de longe. Vocês dois seriam muito úteis.
— E se eu disser não?
A professora sorriu.
— Aí eu vou precisar contar para os outros que tem uma pequena presa num braço que não quer ajudar. E eles vão querer comer ela. E como ela está no seu braço… — Ela apertou o ombro dele de leve. — Pensa com carinho. Você tem até sexta.
Ícaro saiu da sala sem responder. Desceu três andares de escada correndo. Só parou no estacionamento, ao lado da moto, com o coração saindo pela boca.
Tirou a mão esquerda do bolso. O olho de Maré estava aberto, e molhado.
Ícaro não sabia que aquilo era possível.
— Você está chorando?
— Eu não sei o que é isso — disse Maré, com a voz tremendo. — Está saindo água. Eu não mandei sair água.
— É chorar. Por que você está chorando?
O olho na palma da mão dele olhou para ele por muito tempo.
— Porque o Lodo me disse uma coisa quando você não estava ouvindo. Na língua de lá de baixo. — Maré fez uma pausa. — Ele disse que a próxima pessoa da lista é a sua avó. Porque ela mora no último prédio da Várzea que ainda está em cima do mangue. E porque ele quer que você entenda que ele fala sério.
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