A menina que vê
No centro de São Paulo tem mais morto do que vivo. Ester sabia disso desde os seis anos.
Aprendeu a não olhar. A não responder. A não atravessar a rua quando o homem de chapéu de palha, que morreu atropelado por um bonde em 1938, acenava para ela da esquina da Rua Direita. A não sentar no último banco do ônibus, porque ali sempre tinha uma moça de vestido de noiva chorando. A fingir que não via o menino jornaleiro no Viaduto do Chá, que gritava as manchetes do dia em que o Getúlio morreu para ninguém.
Tinha dezessete anos, morava com o pai num cortiço da Rua Treze de Maio, no Bixiga, e estudava numa escola estadual na Praça da República. Trabalhava à noite como atendente numa lanchonete na Avenida São João. E voltava para casa a pé, todo dia, depois da meia-noite, atravessando o Anhangabaú.
Os vivos tinham medo do Anhangabaú de madrugada. Ester tinha mais medo dos mortos.
Naquela noite de agosto, estava garoando. A garoa fina e gelada de São Paulo, que não molha mas entra no osso. O Vale do Anhangabaú estava vazio. As luzes dos postes refletiam no chão molhado, e o Viaduto do Chá passava por cima como um arco de sombra.
Ela reparou primeiro no silêncio. Os mortos do centro nunca ficavam quietos. Resmungavam, choravam, cantavam, contavam sempre a mesma história. Mas naquela noite, no Anhangabaú, não havia nenhum.
Nenhum.
Depois reparou no cheiro. Folha seca, poeira, uma coisa velha e doce que parecia flor de velório.
E depois ouviu os passos.
Atrás dela. Arrastados. Secos. Como galhos batendo no asfalto.
Ester não se virou. Regra número um de quem vê morto: nunca se vira quando alguém chama por trás. Andou mais rápido. Os passos andaram mais rápido. Ela começou a correr. Os passos correram.
Na metade do Vale, perto da escadaria que subia para o Viaduto, ela escorregou no chão molhado e caiu de joelhos. E, por reflexo, se virou.
A coisa estava a dez metros dela.
Era um homem. Ou tinha sido. Alto, magro, com a pele cinzenta colada nos ossos como papel queimado, sem olhos, sem lábios, os dentes todos à mostra num sorriso eterno. Vestia os restos de um terno antigo, podre, e andava curvado, com os braços compridos demais quase tocando o chão. Os dedos eram raízes secas.
Ester conhecia a história. Todo mundo que cresceu no interior conhecia. A avó dela contava. O homem que foi tão ruim em vida que a terra não quis o corpo dele, e ele secou em vez de apodrecer, e ficou vagando com fome para sempre.
O Corpo-Seco.
— Não — sussurrou ela. — Não, isso não existe. Isso é história de…
O Corpo-Seco inclinou a cabeça. Farejou o ar com o buraco onde deveria estar o nariz. E disse, com uma voz que parecia folha seca sendo pisada:
— Você me vê.
E pulou.
Ester fechou os olhos.
Ouviu um estalo. Uma luz amarela atravessou as pálpebras dela, tão forte que doeu. E um grito, um grito seco e rasgado, como madeira velha se partindo.
Quando abriu os olhos, havia um velho parado na frente dela.
Um homem negro, de uns setenta anos, cabelo branco curto, bigode fino. Vestia uma farda antiga, cáqui, com botas de couro até o joelho e um quepe torto na cabeça, como os soldados das fotos da Revolução de 32 que Ester tinha visto num livro de história. Na mão direita, segurava uma espada.
Não. Não era bem uma espada. Era feita de luz. Uma lâmina amarela e quente como chama de vela, saindo de um cabo que parecia uma lanterna antiga de ferro, dessas de querosene.
O Corpo-Seco estava caído no chão, a três metros, com um braço cortado fora. O braço, no asfalto, se desfazia em folha seca e poeira.
— Levanta, menina — disse o velho, sem se virar. A voz era grave, calma, com um sotaque do interior. — Levanta e fica atrás de mim. Esse aí é teimoso.
O Corpo-Seco se levantou. Uivou. Atacou de novo.
O velho girou a espada de luz uma única vez. Um arco amarelo cortou o ar molhado da madrugada. E o Corpo-Seco se partiu ao meio, do ombro até a cintura, e as duas metades caíram no chão e viraram folhas. Folhas secas, marrons, que o vento da madrugada levou pelo Vale do Anhangabaú até sumirem.
A espada de luz se apagou. Virou só uma lanterna de ferro antiga, com uma vela acesa lá dentro.
O velho se virou. Olhou para Ester, ainda ajoelhada no chão molhado.
— Você me vê — disse ele. Não era uma pergunta.
— Eu vejo todo mundo — disse Ester, com a voz tremendo. — Todo mundo morto. Desde pequena.
O velho ficou em silêncio por um tempo. Depois tirou o quepe e o segurou contra o peito.
— Não, minha filha — disse ele, com uma tristeza enorme na voz. — Ninguém vê a gente. Ninguém. Nem quem tem o dom. Eu faço isso faz noventa anos e nunca um vivo me enxergou.
Ele recolocou o quepe.
— Meu nome é Benedito. E você e eu precisamos conversar.
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