Os Brasa-Morta
A espada de Vulcano Aldar desceu. E bateu numa parede de fumaça.
Fumaça cinza, grossa, sólida como pedra, que tinha aparecido do nada entre Tito e o comandante. A espada de fogo dourado afundou nela como se afundasse em lama e parou.
— Aldar — disse Amara Cinza, entrando no Templo com o cachimbo apagado na boca e a fumaça saindo das mangas do casaco preto. — Esse menino é meu recruta. Ele acabou de passar no exame. Você não toca nele.
— Ele apagou a Chama Eterna, Amara.
— Por três segundos. — Ela soltou uma baforada. — E ela voltou. Ou você não reparou?
O Sumo-Sacerdote continuava gritando sobre profecia. Os guardas do Templo começaram a cercar os dois. Amara olhou para Tito.
— Menino. Você consegue correr?
— Consigo.
— Então corre.
A fumaça explodiu em todas as direções. O Templo inteiro ficou cinza. Tito sentiu uma mão agarrar a gola da camisa dele e puxar, e ele correu, cego, tossindo, por corredores, escadas, portas, até sentir o ar frio da rua no rosto.
Correram a noite inteira. Saíram de Fornalha por um túnel de esgoto. Atravessaram um campo de lava seca. Subiram uma encosta de pedra.
Ao amanhecer, chegaram ao quartel dos Brasa-Morta.
Era uma ruína. Um forte de pedra negra meio desabado no alto de um morro, com as torres rachadas, os portões pendurados e uma bandeira preta com um tição apagado tremulando torta no mastro. No pátio, havia uma horta de batata, um varal com roupas e uma panela enorme fervendo em cima de uma fogueira fraquinha.
E quatro pessoas olhando para Tito como se ele fosse um fantasma.
— Esse é o menino que apagou o reino? — perguntou uma moça de uns vinte anos. Tinha o cabelo curto, cor de cobre, e o cabelo pegava fogo. Só o cabelo. Chamas pequenas e alaranjadas dançando nas pontas, sem queimar nada.
— Duda — apresentou Amara. — A chama dela só acende no cabelo. Nunca conseguiu tirar de lá.
— É muito útil no inverno — disse Duda, sorrindo.
Do lado dela, um velho de barba branca comprida, sentado num banquinho, soltando fumaça colorida por um cachimbo, igual a Amara. Só que a dele saía em forma de bichos: passarinhos, gatos, peixes.
— Seu Bento. Faz cinquenta anos que está nos Brasa-Morta. Ninguém sabe exatamente para que a fumaça dele serve.
— Para distrair — disse o velho. — É subestimado.
E do outro lado da fogueira, mexendo a panela, o menino gordinho do exame. Kaíque. A dupla de Tito. Estava com um curativo na testa e um sorriso tímido.
— A capitã me chamou também — disse ele. — Depois que você saiu correndo. Disse que ninguém mais ia me querer depois de eu desmaiar na frente do Rei.
— E a sua chama? — perguntou Tito.
Kaíque abriu a mão. Uma faísca laranja minúscula apareceu na palma, do tamanho de um grão de arroz. E sumiu.
E Kaíque sumiu junto.
Reapareceu do outro lado do pátio, do lado do varal, uma fração de segundo depois. Tinha atravessado vinte metros no tempo de uma piscada.
— Ela é pequena — disse Kaíque, meio constrangido. — Mas é rápida.
Tito ficou olhando para os quatro. Uma moça com o cabelo em chamas. Um velho que soltava passarinhos de fumaça. Um menino que desaparecia. Uma capitã com um olho só e um cachimbo apagado.
Os rejeitados. Os quebrados. Os errados.
Ele começou a rir.
— O que foi? — perguntou Duda.
— Nada. — Tito limpou os olhos, que tinham começado a molhar sem ele mandar. — É que vocês são a coisa mais incrível que eu já vi.
Naquela noite, depois da sopa de batata, Amara sentou com ele na beira do muro do forte, olhando as luzes de Fornalha lá longe, na encosta do vulcão.
— A profecia — disse Tito. — O que o velho disse. É verdade?
Amara acendeu o cachimbo. Não acendeu, na verdade. Só soltou fumaça.
— Existe uma história. Muito antiga. Do tempo em que a Chama Eterna foi acesa. Diz que, a cada cem anos, nasce uma criança que o vulcão não escolhe. Uma criança com mãos frias. E que um dia, uma dessas crianças vai apagar a Chama para sempre, e o reino vai mergulhar no frio.
— Então eu sou o vilão.
— Os sacerdotes acham que sim. — Amara soltou uma baforada. — Eles caçaram todas as crianças de mãos frias que nasceram nos últimos mil anos. Todas. Mataram antes de elas fazerem quinze anos.
— E por que eu estou vivo?
Amara ficou em silêncio. Depois tirou o tapa-olho.
Por baixo dele, não havia cicatriz. Havia um olho. Normal. Só que a íris era branca, como gelo.
— Porque eu também nasci com mãos frias, menino — disse ela. — Faz cinquenta anos. E uma velha do Cinzal, que cuidava de um orfanato, me escondeu dos sacerdotes até eu crescer. O nome dela era Zefa.
Tito sentiu o chão sumir.
— E você… apagou alguma coisa?
Amara recolocou o tapa-olho.
— Eu perdi as mãos frias quando fiz trinta anos. Numa luta. Contra o homem que vai tentar te matar. — Ela olhou para as torres douradas do palácio, lá longe. — Hoje ele é o comandante da Labareda Real. E é ele quem está treinando o seu amigo.
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