Punho EstelarCapítulo 1

O velho da Chapada

No povoado do Capão, na Chapada Diamantina, todo mundo sabia que o velho Jairo tinha salvado o mundo. Ninguém ligava.

Fazia quarenta anos. Na escola, as crianças estudavam a Guerra do Céu no livro de história: a frota de naves negras que apareceu no céu de 1986, as cidades destruídas, os seis meses de fim do mundo. E o rapaz de Lençóis, filho de garimpeiro, que subiu sozinho numa nave inimiga e deu um soco no coração da frota com tanta força que dizem que partiu uma lua de Júpiter ao meio. Tinha até foto no livro. Um rapaz magro de camiseta regata, com os punhos brilhando como estrelas.

O Punho Estelar.

Agora ele tinha setenta e oito anos, barba branca, chapéu de couro, uma roça de mandioca atrás de casa e um mau humor lendário. Não dava entrevista. Não ia a cerimônia. Não atendia telefone. Quando os turistas subiam a trilha até a casa dele para tirar foto, soltava o cachorro.

O cachorro tinha catorze anos e era mais preguiçoso que ele. Mas os turistas não sabiam.

A única pessoa que o visitava era Nara, a neta. Quinze anos, cabelo crespo preso num lenço, macacão sujo de graxa, óculos de proteção na testa e uma caixa de ferramentas maior que ela. Morava em Lençóis com a mãe e subia a serra de bicicleta todo fim de semana, dizendo que era para ver se o avô estava vivo. Na verdade, era porque o terreno dele tinha um ferro-velho de naves da Guerra do Céu, que ninguém tinha recolhido em quarenta anos, e Nara era apaixonada por máquina.

— Vô, esse motor aqui é de uma nave de reconhecimento da frota — dizia ela, enfiada até a cintura num pedaço de metal preto coberto de mato. — Ainda tem energia. Dá para fazer voar.

— Deixa isso quieto, menina. Essas porcarias trazem desgraça.

— Tudo para o senhor traz desgraça.

— E eu estou errado?

Nara nunca tinha conhecido o pai. Davi Cometa, o único filho de Jairo, tinha sumido no espaço quinze anos antes, numa missão de exploração, quando ela ainda estava na barriga da mãe. A nave nunca voltou. Nunca mandou sinal. O avô nunca falava sobre isso. Nunca.

Naquela noite de setembro, Nara estava dormindo no sofá da casa do avô, depois de passar o dia inteiro no ferro-velho, quando o céu ficou verde.

Ela acordou com a luz entrando pela janela. Verde, forte, pulsando. E um barulho grave, profundo, como um sino tocando debaixo da terra.

Jairo já estava na varanda, de pijama e chapéu, olhando para cima.

Em cima da roça de mandioca, a uns cem metros de altura, havia uma nave. Não era como as da Guerra do Céu. Era pequena, redonda, dourada, com a superfície coberta de mostradores de relógio. Centenas. Milhares. Todos com os ponteiros girando para trás.

A nave desceu devagar e pousou no meio da roça, esmagando a mandioca.

— Minha mandioca — disse Jairo, baixinho.

Uma porta se abriu. E saiu uma criatura.

Alta, magra, envolta num manto cinza que arrastava no chão. Não tinha rosto. No lugar dele, havia um relógio de bolso enorme, dourado, com o vidro rachado e os ponteiros girando para trás. As mãos eram longas e brancas como porcelana, e cada dedo terminava numa agulha de relógio.

Andou pela roça esmagada até parar na frente da varanda.

— Jairo Cometa — disse a criatura. A voz vinha de dentro do relógio, com um tique-taque por baixo de cada palavra. — O Punho Estelar. O homem que partiu a lua de Júpiter.

— Era uma lua pequena — disse Jairo. — E o senhor está em cima da minha mandioca.

— Eu sou o Colecionador. — A criatura fez uma reverência. — Eu viajo pelo universo recolhendo o tempo dos maiores guerreiros. Os anos deles. As lembranças. A força. Guardo tudo na minha coleção. Faz quarenta anos que eu ouço falar de você. Vim buscar os seus anos.

Nara estava atrás do avô, com a chave inglesa na mão, tremendo.

— Vô, entra. Entra agora.

Jairo tirou o chapéu. Entregou para a neta.

— Segura isso para mim, minha filha.

E desceu os três degraus da varanda.

Nara nunca tinha visto o avô lutar. Ninguém da idade dela tinha. Só nos vídeos antigos, granulados, da Guerra do Céu. E naquela noite, na roça esmagada, debaixo da luz verde, ela viu.

Setenta e oito anos. Pijama listrado. Chinelo de dedo. E ele se moveu tão rápido que o ar estourou. O primeiro soco acertou o Colecionador no peito e o jogou trinta metros para trás, contra a própria nave. O segundo levantou uma onda de terra que derrubou as bananeiras do vizinho. E quando o velho fechou o punho direito e ele começou a brilhar, branco e dourado como uma estrela, Nara entendeu, pela primeira vez, por que o livro de história chamava o avô daquele jeito.

O Colecionador se levantou devagar.

— Impressionante — disse. — Para um velho.

E levantou a mão de agulhas.

O tempo parou.

Nara sentiu. Tudo ficou lento, pesado, como se o ar tivesse virado mel. O punho brilhante do avô parou no meio do caminho, a um palmo do relógio do Colecionador. E as agulhas dos dedos da criatura se esticaram, compridas, finas, e entraram no peito de Jairo como se fossem ponteiros entrando num mostrador.

E começaram a girar.

Para trás.

O velho gritou. A luz do punho se apagou. E, diante dos olhos de Nara, o avô começou a mudar. A barba branca encolheu. As rugas sumiram. O corpo diminuiu. O cabelo escureceu. O pijama ficou largo, depois enorme, depois caiu no chão.

Quando as agulhas saíram, havia um menino de dez anos no meio da roça. Magro, descalço, de cabelo preto espetado, enrolado num pijama listrado três vezes maior que ele.

O Colecionador guardou alguma coisa dentro do manto. Uma luz dourada, pequena, que brilhava entre os dedos dele como um vagalume.

— Sessenta e oito anos — disse. — Uma bela coleção. Obrigado, Punho Estelar.

E voltou para a nave. E a nave subiu. E o céu voltou a ser escuro.

Nara correu até o menino. Ele estava sentado na terra, olhando para as próprias mãos, pequenas, sem uma ruga.

— Vô?

O menino levantou a cabeça. Os olhos eram os mesmos. Castanhos, duros, rabugentos.

— Ele levou a minha mandioca — disse Jairo, com uma voz fininha de criança. — E eu nem consigo xingar direito com essa voz.

Comentar este capítulo

Comentários 0

O que achou deste capítulo?

Entre na sua conta para comentar. Entrar ou criar conta

Seja a primeira pessoa a comentar este capítulo.