O Último Verão do CarameloCapítulo 4

Primeiro de fevereiro

A conversa aconteceu no domingo, na mesa da cozinha, com três xícaras de chocolate quente que ninguém bebeu.

A mãe falou primeiro. Disse que eles se amavam muito, mas de um jeito diferente de antes. Disse que tinham tentado. Disse que nada daquilo era culpa de Bia, e repetiu essa parte duas vezes, olhando nos olhos dela, como se fosse a mais importante. O pai disse que ia morar pertinho, que ela ia ter um quarto lá também, que ia poder ir quando quisesse.

— A partir de primeiro de fevereiro — Bia disse.

Os dois se olharam.

— Eu vi o contrato no carro.

O pai fechou os olhos.

— Filha…

— E o Caramelo? — A voz dela saiu alta demais. — Vocês vão perguntar sobre o Caramelo? Vão dividir ele? Uma semana com cada um? Vocês sabem que ele não vai estar aqui em fevereiro, não sabem? Vocês sabem!

Silêncio. O relógio da cozinha fazia um barulho que ela nunca tinha notado.

— A gente sabe, meu amor — a mãe disse, bem baixinho.

— Então por que vocês não esperam? — Bia estava chorando agora, sem conseguir parar. — Por que vocês não esperam o verão acabar? Ele precisa de todo mundo junto! Tá na lista! Número seis! Uma foto com todo mundo junto! Como é que vai ter foto com todo mundo junto se o pai vai embora?

Ela levantou tão rápido que a cadeira caiu. Pegou a guia no gancho da porta, e o Caramelo, que estava deitado embaixo da mesa, levantou na mesma hora, como sempre fazia quando ouvia o barulho da guia.

— Bia, espera!

Ela não esperou.

Saiu pela porta da frente e desceu a rua correndo, chorando, com o Caramelo ao lado. Não sabia para onde estava indo. Só sabia que precisava ir para longe daquela cozinha, daquele relógio, daquela palavra que ninguém tinha dito mas que estava em cima da mesa o tempo todo.

Na esquina da padaria, o Caramelo parou.

Bia puxou a guia, sem olhar. Ele não veio. Ela virou para trás.

Ele estava deitado de lado na calçada, respirando rápido, a língua de um jeito estranho, pálida, quase branca. Olhou para ela e tentou abanar o rabo. O rabo mal se mexeu.

— Caramelo?

Ela se ajoelhou do lado dele. A barriga dele subia e descia depressa, depressa demais.

— Caramelo, levanta. Levanta, por favor. Desculpa, desculpa, eu não devia ter corrido, desculpa…

Ele lambeu a mão dela. Uma vez. Devagar.

Então fechou os olhos.

Bia gritou. Nunca tinha gritado daquele jeito na vida. Gritou tão alto que o padeiro saiu de trás do balcão com as mãos cheias de farinha, que uma mulher parou do outro lado da rua, que as janelas se abriram.

E, lá de cima da rua, ela ouviu os passos dos pais correndo.

Os dois juntos.

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