A Ex-Mulher Que Ele DescartouCapítulo 1

A chuva de Curitiba

O teste tinha duas linhas. Clara olhou para ele sentada no chão do banheiro, com as costas na porta, e riu baixinho, sozinha, como quem ganha na loteria e não pode contar para ninguém ainda.

Ia contar naquela noite. Tinha planejado tudo: o jantar que Rodrigo gostava, a vela de baunilha, o sapatinho de tricô que ela tinha comprado escondida numa feira do Largo da Ordem meses antes, quando ainda nem sabia.

Guardou o teste no bolso do casaco e desceu a escada da mansão dos Albuquerque.

A sala estava cheia.

Dona Lúcia, a sogra, sentada no sofá de couro com o rosto duro de sempre. A cunhada, Bruna, de braços cruzados. Dois seguranças da família perto da porta. E, ao lado da lareira, de vestido branco, uma mulher que Clara só conhecia de fotos antigas escondidas numa gaveta: Vanessa Prado, a ex-namorada de Rodrigo.

Rodrigo estava de pé no meio da sala. Não olhou para ela.

— O que está acontecendo? — perguntou Clara.

— O colar de esmeraldas da minha mãe sumiu — disse Rodrigo, com uma voz que ela nunca tinha ouvido. — E foi encontrado na sua bolsa.

Em cima da mesa de centro, ao lado da bolsa de Clara aberta, o colar brilhava como uma prova de crime.

— Eu nunca toquei nisso — disse ela. — Rodrigo, olha para mim. Eu nunca…

— Tem mais. — Dona Lúcia estendeu o celular. Na tela, mensagens. Um número desconhecido, salvo como “Amor”. Frases que Clara nunca tinha escrito, marcando encontros num hotel no Batel. — Faz meses, querida. A gente só estava esperando você se entregar.

Clara sentiu o chão sumir.

— Isso é mentira. Isso é montagem. Rodrigo, você me conhece.

Ele finalmente olhou para ela. E o que Clara viu no rosto do marido foi pior que raiva. Foi nojo.

— Eu achava que conhecia.

Vanessa deu um passo à frente, com a voz doce.

— Ninguém aqui quer escândalo, Clara. Assina o divórcio e vai embora com dignidade. É o melhor para todo mundo.

Os papéis já estavam prontos. Tinham sido preparados antes. Clara entendeu, naquele segundo, que aquela noite tinha sido ensaiada por semanas.

— Rodrigo — ela tentou uma última vez, com a mão no bolso, apertando o teste. — Eu preciso te contar uma coisa. Só nós dois. Por favor.

— Não existe mais nós dois.

Ele pegou a caneta, assinou a primeira folha e empurrou os papéis na direção dela.

Clara ficou olhando para a assinatura dele por um tempo que pareceu uma vida inteira. Depois soltou o teste no fundo do bolso, tirou a mão vazia e assinou também. Se ele não queria saber, ela não ia implorar para ele saber.

Os seguranças a acompanharam até o portão. Não deixaram que ela subisse para pegar as malas. Dona Lúcia mandou dizer que as roupas eram compradas com dinheiro da família e, portanto, eram da família.

Lá fora, chovia daquele jeito que só chove em Curitiba: fino, gelado, sem pressa, como se o céu tivesse a noite inteira para machucar alguém.

Clara andou até o ponto de ônibus com o casaco encharcado e o celular com dois por cento de bateria. Sentou no banco de metal. Tirou o teste do bolso, molhado, as duas linhas ainda ali.

— Somos só nós dois agora — disse para a barriga ainda lisa. — Mas eu prometo. Ninguém vai fazer isso com a gente de novo.

No andar de cima da mansão, atrás de uma janela iluminada, Rodrigo olhava para a rua. Viu a silhueta dela no ponto de ônibus, pequena, debaixo da chuva. Ficou ali até o ônibus chegar e ela sumir.

Ele nunca contou a ninguém que ficou olhando.

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