O Que Mora na MataCapítulo 1

A regra

O ônibus deixou os três na beira da estrada de terra às quatro da tarde, e o motorista não desligou o motor.

— Várzea do Ouro é ali embaixo — disse, apontando uma trilha que descia entre bananeiras. — Quinze minutos a pé. Eu não entro.

— Por quê? — perguntou Marcos, já com o celular gravando.

O motorista olhou para o celular, depois para Marcos, depois para o céu, que começava a ficar alaranjado sobre os morros.

— Porque eu quero chegar em casa antes de escurecer — disse, e fechou a porta.

Júlia riu. Marcos riu também. Danilo, que carregava duas malas com equipamento de gravação, não riu, mas Danilo nunca ria de nada antes de tomar café.

— Primeira cena do episódio — disse Júlia para o celular de Marcos, com a voz grave que usava no podcast. — O motorista que não quis entrar.

O Madrugada Adentro tinha trezentos e dez mil ouvintes e três anos de existência. Júlia narrava, Danilo editava e Marcos cuidava das redes sociais, que era o nome bonito para filmar tudo e postar. Os três moravam juntos num apartamento em Belo Horizonte, e os três precisavam, com urgência, de um episódio que viralizasse, porque o patrocinador principal tinha cancelado o contrato em setembro.

A herança tinha chegado em outubro. Uma carta de um cartório de Minas: Dona Conceição Ribeiro, avó paterna de Júlia, falecida aos oitenta e nove anos, deixava para a única neta uma casa em Várzea do Ouro, com terreno e benfeitorias.

Júlia tinha visto a avó duas vezes na vida. Uma aos cinco anos, outra aos nove, no enterro do pai. Lembrava só de uma mulher magra, de preto, com as mãos muito frias, que tinha segurado o rosto dela e dito uma coisa estranha: Você tem o assobio do seu pai. Não usa, viu?

Quando pesquisou o nome do povoado na internet, encontrou quase nada. Umas fotos de igreja, um artigo antigo de jornal sobre desaparecimentos na década de oitenta e um fórum de lendas mineiras onde alguém tinha escrito, anos antes, uma frase só:

Em Várzea do Ouro não se assobia depois da meia-noite. Quem assobia é respondido.

Júlia soube na hora que era o episódio da vida dela.

A trilha terminava numa rua de pedra com vinte e poucas casas coloniais, uma igreja branca de janelas azuis e uma venda com uma única mesa de sinuca. A mata começava logo atrás das casas, fechada, escura, subindo pelo morro como uma parede verde.

Júlia reparou nas portas primeiro.

Todas tinham sininhos. Pequenos, de metal, pendurados em fios de barbante vermelho no batente. Quando o vento soprava, a rua inteira tilintava baixinho.

Depois reparou nas janelas. As da frente estavam abertas, com cortinas de renda e vasos de violeta. Mas todas as janelas que davam para os fundos, para a mata, estavam fechadas com tábuas pregadas. Todas. Em todas as casas.

E depois reparou nas pessoas. Uma dúzia de velhos sentados nas portas, em cadeiras de palha, olhando para os três em silêncio. Ninguém cumprimentou. Ninguém sorriu. Uma senhora levantou, entrou em casa e fechou a porta. O sininho tocou.

— Que recepção calorosa — murmurou Marcos.

A casa da avó era a última da rua, a mais perto da mata. Amarela, de telhado baixo, com uma varanda de madeira e um pé de jabuticaba no quintal. Tinha sininho na porta também. E as janelas dos fundos estavam pregadas com tábuas tão grossas que pareciam portas de cofre.

Lá dentro, cheirava a cera e a café velho. Os móveis estavam cobertos com lençóis brancos. Na parede da sala, entre um quadro do Sagrado Coração e uma foto de casamento amarelada, havia uma coisa que Júlia não esperava: um relógio de pêndulo, parado. Os ponteiros marcavam exatamente meia-noite.

Embaixo dele, pregado na parede com quatro tachinhas, um papel escrito à mão com letra trêmula:

Júlia. Se você veio, fica até vender a casa e vai embora. Tranca a porta. Não abre as janelas de trás. E pelo amor de Deus, minha filha, depois da meia-noite não assobia. Nem baixinho. Nem sem querer. Ele escuta tudo. — Vó Conceição.

Marcos filmou o bilhete em close. Danilo ficou em silêncio. Júlia sentiu um frio subir pela espinha que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Isso aqui vai dar um milhão de visualizações — disse Marcos.

Lá fora, a noite caiu de uma vez, como caem as noites no interior, sem aviso. E, na mata atrás da casa, alguma coisa estalou um galho.

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