A Noite

O esconderijo ficava debaixo do Aqueduto Velho, numa rede de galerias de pedra que tinham sido construídas havia quatrocentos anos para levar água ao palácio e que ninguém mais lembrava que existiam.
Lis desceu de olhos vendados, guiada pela mão fria da Corvo. Quando tiraram a venda, estava numa sala abobadada, iluminada por lampiões, com uma mesa comprida no meio, prateleiras cheias de livros e mapas nas paredes. Tinha cheiro de pedra molhada, pólvora e sopa de lentilha.
Havia três pessoas esperando.
— A escriba — anunciou a Corvo, tirando a máscara. Tinha uns quarenta anos, o rosto marcado por uma cicatriz que descia da testa ao queixo, e olhos cinzentos muito tranquilos. — Lis, essa é a Noite.
Um gigante levantou-se da ponta da mesa. Dois metros de altura, careca, com a barba trançada e os braços grossos como troncos. Encostado na cadeira dele, havia um escudo redondo de bronze esverdeado, com um rosto de leão entalhado no centro.
— Tomé — disse ele, com uma voz surpreendentemente gentil. — Seja bem-vinda. Tem sopa.
Uma menina sentada em cima da mesa acenou sem se levantar. Parecia ter uns treze anos, com tranças ruivas e sardas, e brincava com um anel de prata cheio de pequenos compartimentos.
— Nina — disse a Corvo. — Ela tem vinte e seis anos. Não se engane com a cara. E não aceite nada que ela te oferecer para beber.
— Grossa — disse Nina, sorrindo.
O terceiro estava encostado na parede, no canto mais escuro, com os braços cruzados. Um rapaz de uns vinte e cinco anos, magro, de cabelo preto comprido preso num rabo, com um arco longo de madeira clara nas costas. Tinha os olhos vendados com um pano preto.
— Jonas — disse a Corvo. — Nosso arqueiro.
— Ele é cego? — perguntou Lis, sem conseguir se conter.
— Não sou cego — disse Jonas, sem se mexer. — Eu vejo demais. A venda é para ver menos.
A Corvo explicou tudo enquanto Lis tomava a sopa, com as mãos ainda tremendo.
O Regente Castor Valmor governava Solária havia doze anos, desde que o jovem Imperador tinha adoecido de uma febre que nenhum médico conseguia curar. Em doze anos, os impostos tinham triplicado. Os bairros baixos passavam fome. Quem reclamava desaparecia. E as sentenças de morte com selos falsos eram só a parte que Lis tinha conseguido ver.
— Ele mata os pobres para manter os pobres com medo — disse a Corvo. — E mata os ricos que o ameaçam com acusações de traição. Os juízes assinam o que ele manda. Os escribas registram. E todo mundo finge que a lei está sendo cumprida.
— E vocês?
— Nós matamos os juízes.
Ela disse isso com a mesma calma com que tinha dito o próprio nome.
Depois, a Corvo levou Lis até uma porta de ferro no fundo da galeria e abriu com uma chave que usava pendurada no pescoço. Lá dentro, numa sala pequena e gelada, havia uma mesa de pedra. Em cima dela, sobre panos de veludo negro, havia objetos: uma lança partida, um par de luvas de couro escuro, uma flauta de osso, um sino de bronze sem badalo e uma adaga.
A adaga era pequena. Do tamanho de uma pena de escrever. Tinha lâmina de vidro, transparente como água, e cabo de prata escura trabalhado com letras de uma língua que Lis não conhecia.
— As Relíquias do Primeiro Rei — disse a Corvo. — Existiam vinte e quatro. Hoje, que a gente saiba, restam onze. A minha espada é uma. O escudo do Tomé é outra. O anel da Nina. O arco do Jonas. Cada uma dá um poder a quem empunha. E cada uma cobra um preço.
— Que preço?
A Corvo tocou a manga vazia.
— A espada de sombra come carne. Cada vez que eu uso, ela leva um pedaço. Primeiro foi o braço. — Ela sorriu sem alegria. — O escudo do Tomé tira o sono dele. Faz sete anos que ele não dorme. O anel da Nina parou o corpo dela na idade em que ela colocou no dedo. O arco do Jonas mostra o futuro de tudo o que ele olha, alguns segundos à frente. Ele nunca mais conseguiu olhar para uma pessoa sem ver como ela vai morrer.
Lis olhou para a adaga de vidro.
— E essa?
— Essa se chama Pena de Vidro. Quem é cortado por ela não consegue mentir enquanto sangrar. Nenhuma mentira. Nem pequena. — A Corvo fez uma pausa. — O preço é memória. Cada vez que você usa, esquece uma lembrança da sua própria vida. Você não escolhe qual.
— Por que você está me mostrando isso?
— Porque ela te escolheu. As relíquias escolhem. Desde que você desceu as escadas, a lâmina ficou mais clara. Olha.
Lis olhou. A adaga de vidro brilhava, fraca, como se tivesse uma vela acesa lá dentro.
— Não — disse Lis, recuando. — Eu não sou assassina. Eu sou escriba.
— Eu sei. — A Corvo fechou a porta de ferro. — Por isso você é perfeita. Uma assassina só mata. Uma escriba sabe o que precisa ser escrito.
Lis foi embora naquela noite. Disse não. Voltou para o quartinho da pensão e tentou dormir.
De manhã, quando chegou ao Arquivo, havia guardas na porta.
Tinham levado o Beto, o escriba mais novo, seu único amigo, um rapaz gordinho de dezenove anos que ria de tudo e trazia pão doce para ela toda sexta-feira. Acusação: furto de documentos imperiais. Tinham achado a cópia de uma sentença na mesa dele.
A cópia estava na letra de Lis.
Era o rascunho que ela tinha esquecido debaixo do mata-borrão na véspera, antes de passar a limpo a cópia que levou na bota. E ele tinha guardado para devolver.
A execução de Beto estava marcada para o fim da semana.
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