A escriba das execuções

O sino da praça do Relógio batia sete vezes antes de cada enforcamento. Lis contava todas.
Era um hábito que tinha desde os catorze anos, quando entrou para o Arquivo Imperial como aprendiz de escriba. Agora tinha vinte e dois, uma pena de metal presa atrás da orelha e o cargo mais odiado de Alta Coroa: registrava as execuções. Toda manhã, sentada numa mesinha de madeira ao pé do cadafalso, com o livro oficial aberto e a tinta preta pronta, ela escrevia o nome de quem ia morrer, o crime, a sentença e a hora exata.
O povo a chamava de a Corva do Relógio. Cuspiam no chão quando ela passava.
Lis não se importava. Ou dizia a si mesma que não se importava. Era órfã, tinha sido criada num asilo de freiras nos cortiços do Porto Baixo, e o emprego no Arquivo era a única coisa que a separava da fome. O Mestre Anselmo, arquivista-chefe, a tinha tirado do asilo aos catorze anos porque ela era a única criança que sabia ler. Devia tudo a ele.
Naquela manhã, havia três condenados.
Os dois primeiros eram homens feitos, com crimes que ela já tinha registrado mil vezes: traição contra a Coroa, incitação à revolta. Os mesmos crimes de sempre, para os mesmos rostos magros e raivosos dos bairros de baixo, onde a fome tinha piorado desde que o Regente dobrou os impostos do trigo.
O terceiro era um menino.
Doze anos, talvez menos. Descalço, com o cabelo cheio de piolho e uma camisa grande demais. Os guardas o arrastaram escada acima porque as pernas dele não obedeciam. Ele chorava baixinho, sem escândalo, como choram as crianças que já aprenderam que chorar alto não adianta nada.
Lis olhou para a sentença que o oficial lhe entregou.
Nome: Pio, sem sobrenome. Crime: furto de três pães da padaria imperial. Sentença: morte pela forca. Por ordem de Sua Excelência o Regente Castor Valmor, com seu selo.
Três pães.
A pena tremeu na mão dela. Uma gota de tinta caiu no livro.
— Escriba — disse o oficial, impaciente. — Registre.
Ela olhou para o selo no pé da sentença. Um sol de cera vermelha com uma coroa no meio. O selo do Regente. Ela tinha visto aquele selo dez mil vezes. Conhecia cada detalhe dele: os vinte e quatro raios do sol, a coroa de cinco pontas, a pequena rachadura no canto inferior esquerdo, que existia porque o anel do Regente tinha caído no chão de mármore do palácio anos antes.
Aquele selo não tinha rachadura.
E os raios eram vinte e três.
— Escriba!
O sino começou a bater. Um. Dois. Três.
Lis abriu a boca para dizer alguma coisa. Para dizer ao oficial que o selo era falso, que a sentença não valia, que o menino…
Quatro. Cinco.
O oficial estava olhando para ela. Os guardas estavam olhando para ela. Mil pessoas na praça estavam olhando para ela. E, no balcão do Palácio da Justiça, do outro lado da praça, um homem de toga escura também olhava. Ela não conseguia ver o rosto dele de tão longe. Mas conseguia sentir o olhar.
Seis.
Lis fechou a boca.
Sete.
O alçapão abriu.
Ela escreveu no livro oficial, com uma letra que não parecia a dela: Pio, sem sobrenome. Furto. Executado às sete horas e quatro minutos.
No caminho de volta para o Arquivo, ela não sentiu as pernas. À tarde, quando todos saíram, Lis abriu o cofre de sentenças com a chave que Mestre Anselmo lhe confiava e comparou a sentença de Pio com as dos últimos três meses.
Encontrou quarenta e uma com o selo errado.
Todas de pessoas pobres. Todas executadas. Todas registradas por ela, com a sua própria letra.
Lis copiou as quarenta e uma sentenças numa folha fina, dobrou em oito e escondeu dentro da bota. Voltou para casa, um quartinho no último andar de uma pensão perto do Arquivo, trancou a porta, sentou-se na cama e ficou olhando para a parede até escurecer.
Não percebeu quando a janela abriu.
Só percebeu a lâmina encostada no pescoço dela. Fria. Muito afiada.
— Quarenta e uma — disse uma voz de mulher, atrás dela, calma como quem comenta o tempo. — Você demorou três meses para contar, escriba. Nós contamos em três dias. Mas você é a primeira pessoa de dentro do Arquivo que se deu ao trabalho.
Lis não se mexeu.
— Quem é você?
A lâmina se afastou. Lis se virou devagar.
Na janela aberta, contra a lua, estava sentada uma mulher alta, vestida de preto da cabeça aos pés, com uma máscara de porcelana branca cobrindo metade do rosto. Faltava-lhe o braço esquerdo. No lugar dele, uma manga vazia presa com um alfinete.
Na mão direita, ela segurava uma espada estreita e escura como um pedaço da própria noite.
— Eu sou a Corvo — disse a mulher. — E eu vim te oferecer um emprego.
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