O primeiro alvo

Lis voltou ao Aqueduto Velho na mesma noite. Não precisou de venda. Lembrava de cada curva do caminho.
— Eu aceito — disse, antes mesmo de a Corvo levantar os olhos do mapa. — Mas vocês tiram o Beto da prisão.
A Corvo não pareceu surpresa.
— A prisão da Torre Negra tem trezentos guardas e duas relíquias do Regente dentro dos muros. A gente não entra lá sem saber exatamente onde ele está, quando trocam os guardas e quem tem as chaves.
— Então como…
— O homem que sabe tudo isso é o homem que assina as sentenças falsas. — A Corvo empurrou uma folha na direção dela. — Ele guarda os registros da Torre no escritório de casa. Você entra. Você usa a Pena de Vidro. Ele te conta tudo, porque não vai conseguir mentir. E depois você faz o que a Noite faz.
Lis olhou para a folha. Era uma planta de casa. Uma casa grande, perto do Arquivo, que ela conhecia.
Conhecia muito bem.
Tinha comido naquela cozinha todo domingo durante oito anos. Tinha aprendido a ler naquela biblioteca, sentada no chão, com um livro de fábulas no colo. Tinha dormido naquele quarto de hóspedes nas noites em que o asilo das freiras estava cheio demais. Tinha ganhado, naquela sala, no aniversário de dezoito anos, a pena de metal que usava atrás da orelha até hoje.
— Não — disse ela.
— O Mestre Anselmo é o arquivista-chefe do Império — disse a Corvo, com a voz baixa. — Nada sai do Arquivo sem passar pelas mãos dele. Nenhum selo falso chega à praça sem ele saber. Ele é o homem que transforma as ordens do Regente em lei.
— Ele me criou.
— Eu sei.
— Ele me tirou do asilo. Ele me deu um nome. Ele…
— Eu sei, Lis. — A Corvo se levantou. — Por isso tem que ser você. Qualquer um de nós que entrar naquela casa vai ter que matar o guarda, o criado, o cachorro. Você pode entrar pela porta da frente. Ele vai te oferecer chá.
Lis ficou em silêncio por muito tempo. No canto escuro da sala, Jonas tinha tirado a venda. Estava olhando para ela. Os olhos dele eram de um verde muito claro, quase transparente, e Lis teve a sensação horrível de que ele estava vendo alguma coisa que ela ainda não sabia.
— O que você está vendo? — perguntou ela.
Jonas colocou a venda de volta.
— Nada que eu possa te contar.
Ela foi na noite seguinte. Sozinha. Com a Pena de Vidro presa numa bainha de couro dentro da manga, encostada no pulso. Estava fria como gelo. Às vezes, parecia pulsar.
A casa de Mestre Anselmo tinha as janelas acesas. Lis bateu na porta da frente, como sempre tinha feito. O velho criado, seu Dino, abriu, sorriu ao vê-la e a levou até a biblioteca sem perguntar nada.
O Mestre estava sentado na poltrona de couro verde, perto da lareira, com um livro no colo e óculos na ponta do nariz. Tinha setenta anos, a barba branca aparada, as mãos manchadas de tinta como as dela. Quando a viu, fechou o livro devagar.
Na mesinha ao lado dele, havia duas xícaras. Duas. Ambas servidas, ambas fumegando.
— Sente-se, minha filha — disse ele. — O chá é de camomila. Não tem nada nele. Não é o meu estilo.
Lis não se mexeu.
— O senhor estava me esperando.
— Desde ontem de manhã, quando você abriu o cofre de sentenças com a chave que eu te dei e passou três horas lá dentro. — Ele tirou os óculos e os limpou na barra do colete. — Achou que eu não ia perceber? Eu te ensinei a contar os raios do selo, Lis. Eu sabia que um dia você ia contar.
— Quarenta e uma sentenças.
— Quatrocentas e dezoito. — Ele colocou os óculos de volta. — Em doze anos. Você só olhou os últimos três meses.
Lis sentiu as pernas cederem. Sentou-se na cadeira em frente a ele, a mesma cadeira onde tinha sentado centenas de vezes.
— Por quê?
— Porque o Regente me pediu. E porque, no dia em que eu dissesse não, ele mataria a única pessoa no mundo de quem eu gosto. — Mestre Anselmo pegou a xícara de chá, as mãos tremendo ligeiramente. — Ele sabe de você, Lis. Sempre soube. Você é o meu preço.
Ela o encarou.
— Eu não acredito no senhor.
— Então use a sua adaga. — Ele sorriu, triste, e estendeu o braço por cima da mesinha, com a palma da mão para cima, o pulso exposto. — Eu sei o que a Corvo te deu. Eu sei o que é a Pena de Vidro. Fui eu que a escondi no fundo do Arquivo, quarenta anos atrás, para ninguém usar. Alguém a roubou de lá há seis anos. Agora eu sei quem.
Lis tirou a adaga da manga. A lâmina de vidro brilhava forte, como nunca tinha brilhado.
— Corta — disse Mestre Anselmo. — E pergunte o que quiser. Mas eu te aviso, minha filha: você vai perder uma lembrança. E pode ser uma lembrança minha.
Do lado de fora da janela, no telhado da casa vizinha, uma sombra se mexeu. Lis viu pelo canto do olho, contra a lua: uma silhueta pequena, com tranças.
Nina estava lá. Vigiando.
E Lis entendeu, com um frio no estômago, que se ela não cumprisse a missão, alguém ia cumprir por ela.
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