O preço da Pena de Vidro

Ela cortou.
Um risco pequeno, na palma da mão dele. A lâmina de vidro entrou na pele como se fosse água. Uma linha fina de sangue apareceu. E no mesmo instante, a Pena de Vidro ficou quente na mão de Lis. Quente como brasa.
Mestre Anselmo fechou os olhos.
— Pergunte.
— Onde está o Beto? Na Torre Negra. Em que cela?
— Sétimo andar, cela quarenta e dois, ala leste. — A voz dele saiu diferente. Monótona. Como se alguém estivesse lendo em voz alta um documento que ele não escreveu. — A troca de guarda é às três da madrugada. A chave do sétimo andar fica com o carcereiro Brás, que bebe no Galo Cego toda noite antes do turno. As duas relíquias da Torre estão com o capitão da guarda e com o torturador-chefe. O capitão tem o Olho de Bronze, que enxerga através de paredes. O torturador tem as Correntes Mudas, que prendem quem tocam.
Lis anotava tudo de cabeça, como fazia no Arquivo.
— O senhor falsificou as quatrocentas e dezoito sentenças?
— Sim.
— Por minha causa?
— Sim. — Uma lágrima desceu pelo rosto dele. — E também por covardia. As duas coisas. A Pena não deixa eu te dar só a resposta bonita.
Lis precisou respirar fundo.
— O que o Regente quer? Por que ele mata os pobres?
Mestre Anselmo abriu os olhos. Estavam muito arregalados. Parecia estar lutando contra as próprias palavras.
— Ele não mata os pobres por medo. Ele mata para alimentar. — As palavras saíam contra a vontade dele. — O Trono de Solária é a vigésima quarta relíquia. A maior de todas. Quem senta nele comanda o Império inteiro, os exércitos, as outras relíquias. Mas o Trono cobra o preço mais alto: vidas. Uma vida por dia. O Imperador não está doente, Lis. O Imperador está preso no Trono, e o Regente está usando o menino como uma chave, e alimenta o Trono com gente da praça do Relógio. Cada enforcamento que você registrou foi uma refeição.
O silêncio na biblioteca era total. Só a lareira estalava.
O sangue na palma do Mestre parou de escorrer. A Pena de Vidro esfriou na mão de Lis.
E ela esqueceu uma coisa.
Sentiu acontecer. Foi como uma gaveta se fechando dentro da cabeça dela, em algum lugar muito fundo. Um clique. E depois um vazio que ela não conseguia dizer do que era.
Mestre Anselmo olhava para ela, preocupado.
— O que foi que você perdeu?
— Eu não sei. — Lis tentou lembrar. Do asilo. Das freiras. Do primeiro dia no Arquivo. Estava tudo lá. — Eu não sei o que foi.
— Você nunca vai saber. É isso que torna a Pena tão cruel. — Ele se recostou na poltrona. — Agora você sabe tudo o que eu sei. E sabe o que a Noite espera que você faça.
Lis olhou para a adaga. Depois para ele.
— Não.
— Lis…
— Eu não vou matar o senhor. — Ela guardou a Pena de Vidro na manga. — O senhor vai fugir. Hoje. Agora. Vai para o sul, para as ilhas, para qualquer lugar. E eu vou dizer para a Corvo que…
A janela da biblioteca se abriu.
Nina entrou pulando, com a leveza de um gato, e aterrissou em cima da mesinha, entre as xícaras de chá. Tinha o anel de prata aberto no dedo. Um dos compartimentos estava vazio.
— Desculpa, escriba — disse ela, e parecia sincera. — Eu tomei a liberdade.
Lis olhou para Mestre Anselmo.
Ele estava segurando a xícara de chá. A dele. A que tinha tomado o tempo todo enquanto conversavam. E, no fundo da xícara, havia um resíduo fino de pó branco que não estava lá antes.
— Quando? — sussurrou Lis.
— Quando você cortou a mão dele e todo mundo estava olhando para a adaga. — Nina desceu da mesa. — Não dói. É igual a dormir.
Mestre Anselmo sorriu para Lis. Um sorriso cansado, aliviado, quase feliz.
— Ela é boa — murmurou. — Eu não vi.
Lis se ajoelhou ao lado da poltrona e segurou a mão dele, a mão com o corte da Pena.
— Eu não queria…
— Eu sei. — Os olhos dele começavam a pesar. — Lis. Presta atenção. Quando você perder as lembranças… e você vai perder muitas… escreve. Escreve tudo. Um diário. Tudo o que importa. Assim, quando você esquecer, alguém pode ler para você quem você foi.
— Eu vou escrever.
— E Lis. A lembrança que você perdeu agora. Eu acho que eu sei qual foi.
— Qual?
Ele apertou a mão dela.
— Pergunta para mim: qual é o nome da sua mãe?
Lis abriu a boca para responder. Sabia a resposta. Sempre soube. As freiras tinham dito a ela, uma vez, quando ela tinha seis anos. Estava ali, na ponta da língua. Estava…
Não estava.
Quando ela levantou os olhos de novo, Mestre Anselmo tinha adormecido. Para sempre. Com um sorriso no rosto e a mão dela entre as dele.
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