O HóspedeCapítulo 3

A professora

Maré foi mais rápida.

A mão esquerda de Ícaro saiu do bolso sozinha, virou uma lâmina preta e fina como uma folha de papel, e atravessou o pescoço do homem de uniforme laranja antes que a lama escura da boca dele chegasse perto. Foi tão rápido que Ícaro só percebeu depois, quando a mão já tinha voltado a ser mão e o homem estava caído no corredor do ônibus.

Não saiu sangue. Saiu lama. Preta, fedendo a mangue, escorrendo pelo piso do ônibus.

Alguém gritou. Depois todo mundo gritou. O motorista freou. As portas abriram. Ícaro correu.

Correu por três quarteirões até se esconder num beco atrás de uma farmácia na Avenida Caxangá, encostado na parede, ofegante, com a mão esquerda tremendo. Ou era ele que tremia. Não sabia mais.

— Você matou ele — sussurrou.

— Ele já estava morto — disse Maré. — O homem de dentro morreu faz três dias. Aquilo era um dos outros. Ele ia comer você e me engolir. A gente engole os fracos.

— Você é fraca?

— Eu estou presa numa mão — disse Maré, com uma coisa na voz que parecia orgulho ferido. — Para eles, eu sou um erro.

Ícaro deixou a cabeça cair contra a parede.

— Tem gente morrendo, Maré. A cidade inteira. Eu tenho que contar para alguém.

— Para quem? A polícia? — A boca na palma da mão fez um barulho que parecia uma risada. — Eles vão abrir o seu braço numa mesa para ver como eu funciono.

Ele pensou por um tempo.

— A professora Sônia — disse, finalmente. — A minha orientadora. Ela estuda o mangue faz trinta anos. Ela sabe tudo sobre o que tem naquela lama. Se alguém pode entender o que está acontecendo, é ela.

Maré ficou em silêncio.

— Você não quer que eu vá — percebeu Ícaro.

— Eu não sei o que eu quero. Eu nunca quis nada antes de você. — Uma pausa. — Vai. Mas me deixa com o olho aberto.

A professora Sônia Lacerda tinha sessenta e dois anos, cabelo branco curto, óculos de armação vermelha e uma sala no terceiro andar do Departamento de Oceanografia cheia de aquários, amostras de lama em vidros e fotografias antigas de pescadores do mangue. Era a professora mais respeitada do departamento e a mais temida. Reprovava metade da turma todo semestre. Tinha escrito três livros sobre o ecossistema do Capibaribe e tinha passado os últimos dois anos lutando contra a obra da dragagem do porto em todas as audiências públicas.

Tinha perdido todas.

Ela estava dando aula quando Ícaro chegou. Ele entrou pelos fundos do auditório e se sentou na última fileira, com a mão esquerda no bolso do casaco, suando.

A aula era sobre caranguejos. Ciclo reprodutivo do uçá. A professora falava com a voz seca de sempre, apontando para os slides, fazendo perguntas difíceis que ninguém respondia.

No meio da aula, ela parou de falar.

Ficou olhando para o fundo do auditório. Para a última fileira. Para Ícaro.

— Senhor Ícaro — disse, e a turma inteira se virou. — O senhor está atrasado. Duas semanas sem aparecer na coleta. Algum problema?

— Não, professora. Desculpa.

Ela continuou olhando. Os olhos dela, por trás dos óculos vermelhos, desceram devagar do rosto dele até o bolso do casaco.

No bolso, Ícaro sentiu Maré ficar completamente imóvel. Imóvel como pedra. Como um bicho que percebe um predador.

— Não vai — sussurrou a mão, tão baixinho que só ele ouviu. — Ícaro, não vai falar com ela.

A aula acabou dez minutos depois. Os alunos foram saindo. Ícaro ficou sentado, sem conseguir se mexer. A professora Sônia desligou o projetor, recolheu os papéis, guardou tudo na bolsa de couro. E subiu os degraus do auditório devagar, um por um, até parar na frente dele.

O auditório estava vazio.

— Mostra — disse ela.

— Mostrar o quê?

— A sua mão esquerda, Ícaro.

Ele não se mexeu. Ela suspirou, como quem perde a paciência com um aluno que não fez o dever de casa. E levantou a própria mão direita. Abriu os dedos.

No meio da palma dela, havia um olho.

Escuro. Úmido. Piscando devagar.

— O seu também fala? — perguntou a professora Sônia, com um sorriso que Ícaro nunca tinha visto no rosto dela. — O meu fala. Ele se chama Lodo. Ele diz que conhece a sua.

E, dentro do bolso do casaco de Ícaro, pela primeira vez desde que tinha acordado, Maré começou a tremer.

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