O HóspedeCapítulo 2

Maré

Ele tentou cortar mesmo assim.

Na cozinha, com a faca de pão, às duas da tarde, suando e chorando. Encostou a lâmina no pulso esquerdo. Antes que conseguisse fazer força, a mão esquerda mudou.

Os dedos se derreteram. Não havia outra palavra. Viraram uma massa preta e brilhante que escorreu por cima da faca, envolveu a lâmina e a torceu como papel alumínio. A faca caiu no chão, dobrada em três.

Depois a massa voltou a ser mão. Cinco dedos, unhas, tudo. O olho no meio da palma olhava para ele com uma expressão que Ícaro não conseguiu decifrar.

— Eu pedi por favor — disse a boca.

Ícaro se sentou no chão da cozinha e ficou ali por quase uma hora.

No fim, perguntou a única coisa que conseguiu perguntar:

— O que é você?

— Eu não sei o nome — disse a mão. — Não tinha nome, lá embaixo. Não tinha nada para dar nome. Eu estava dormindo na lama. Faz muito tempo. Antes de ter essa cidade. Antes de ter gente aqui. Antes de ter rio nesse lugar. Aí as máquinas começaram a mexer no fundo, e a água ficou diferente, e eu acordei. Nós acordamos.

— Nós?

— Somos muitos. Eu não sei quantos. Nós saímos da lama e fomos procurar calor. Você estava lá. Eu entrei.

— Por que na minha mão?

— Não era para ser na mão. — A voz ficou ligeiramente constrangida, se é que uma mão podia ficar constrangida. — Eu ia subir até a cabeça. É o que a gente faz. Entra, sobe até a cabeça, come o que tem lá dentro e fica no lugar. Mas você estava com aquele aparelho tocando em cima do peito a noite inteira, e eu parei para ouvir. E fiquei curioso. E quando eu vi, já tinha amanhecido, e o seu corpo já tinha me fechado no braço. Eu não consigo mais subir.

Ícaro ficou olhando para a própria mão.

— Você ia comer o meu cérebro.

— Ia. — Uma pausa. — Não vou mais. Não consigo. E também eu acho que não quero. Eu gosto de ouvir você pensar. Você pensa muito em coisas tristes. É interessante.

Ele deu um nome a ela naquela tarde, porque não aguentava mais chamar de coisa. Maré. Porque tinha vindo com a água e porque ninguém sabia quando ia subir ou baixar.

Maré gostou do nome. Disse que era bonito. Perguntou o que era bonito. Ícaro passou meia hora tentando explicar.

Nos dias seguintes, aprenderam a conviver.

Maré podia se esconder. Fechava o olho e a boca e virava mão comum, e ninguém percebia. Mas não gostava de ficar escondida muito tempo. Tinha uma curiosidade infinita por tudo: pelo celular, pelos livros de biologia de Ícaro, pela avó dele, pela novela das nove, pela comida. Descobriu o açúcar no terceiro dia e ficou obcecada. Ícaro tinha que colocar colheres de açúcar na palma da mão escondido na cozinha, de madrugada, e a boca sugava fazendo um barulho de satisfação que era meio nojento e meio engraçado.

E Maré podia mudar de forma. Descobriram isso sem querer, quando Ícaro deixou cair um prato e a mão se esticou dois metros e pegou antes de bater no chão. Podia virar lâmina, corda, gancho, martelo. Era mais rápida que qualquer coisa que Ícaro já tinha visto.

— Você é uma arma — disse ele, uma noite, deitado no escuro.

— Eu sou o que precisar ser — respondeu Maré. — Eu sou feita de água.

Foi no quinto dia que Ícaro viu as notícias.

Estava no ônibus, a caminho da faculdade, com o celular na mão direita. A mão esquerda estava no bolso, e Maré espiava a tela pela abertura da calça.

Polícia investiga onda de desaparecimentos na região do Porto. Sete pessoas sumiram em cinco dias. Familiares relatam que as vítimas voltaram para casa, mas estavam diferentes.

E, mais embaixo, uma notícia menor: Corpo encontrado em Afogados. Polícia não divulga detalhes. Moradores falam em ataque de animal.

Ícaro sentiu o estômago revirar.

— Maré. Isso são vocês?

A mão ficou em silêncio por um tempo muito longo.

— São os outros — disse, finalmente, baixinho. — Os que subiram até a cabeça. Eles comeram o que tinha lá dentro e ficaram no lugar. Eles estão com fome. Nós temos muita fome quando acordamos.

— Fome de quê?

Maré não respondeu.

Não precisou. No ônibus, duas fileiras à frente, havia um homem de uniforme laranja da empresa de dragagem, sentado sozinho perto da janela. Estava olhando para trás. Direto para Ícaro. Direto para o bolso onde estava a mão esquerda.

Não piscava.

Quando o ônibus parou no ponto seguinte, o homem se levantou, andou pelo corredor e parou do lado do banco de Ícaro. Abaixou-se até ficar com o rosto a um palmo do dele.

— Você tem um — disse o homem, com uma voz que não subia nem descia. — Na mão. Que estranho. Por que você não comeu ele?

E os olhos dele ficaram pretos de uma borda à outra, como duas poças de óleo, e da boca aberta começou a escorrer uma lama escura e viva, que desceu pelo queixo e se esticou na direção da mão de Ícaro.

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