O HóspedeCapítulo 1

A lama

Às duas da manhã, o mangue do Capibaribe cheirava a enxofre, a peixe podre e a óleo diesel. Ícaro já nem sentia mais. Fazia oito meses que ia lá três vezes por semana, com as botas de borracha até o joelho, uma lanterna de cabeça e um balde de plástico, catar caranguejo-uçá para a pesquisa de iniciação científica.

A pesquisa era sobre contaminação por metais pesados. A professora orientadora dizia que era importante. Ícaro desconfiava que ninguém ia ler.

Mas pagava quatrocentos reais por mês de bolsa, e ele precisava dos quatrocentos reais. Morava com a avó num apartamento de dois quartos na Várzea, e a aposentadoria dela não cobria nem os remédios.

Naquela noite, estava chovendo.

Chuva de Recife em junho: grossa, quente, que não para. A lama estava mole como mingau. E, do outro lado do rio, a obra da dragagem do novo porto continuava funcionando mesmo de madrugada, com as luzes amarelas dos guindastes refletindo na água e o barulho das dragas raspando o fundo do rio. Estavam cavando fazia dois meses. Tinham tirado milhões de toneladas de lama do leito e despejado numa área cercada, bem ao lado do trecho de mangue onde Ícaro coletava.

Os pescadores da Ilha de Deus diziam que não era para mexer ali. Que tinha coisa velha naquela lama. Ícaro achava que era superstição.

Até aquela noite.

Estava enfiado até a canela na lama, com o braço esquerdo dentro de uma toca de caranguejo, quando sentiu uma coisa se mexer lá dentro. Não era caranguejo. Era maior. Mais mole. Enrolou-se nos dedos dele como uma língua.

Ele puxou a mão com um grito.

Veio junto uma lata velha, enferrujada, que estava enterrada na entrada da toca. A borda afiada rasgou a palma da mão dele de ponta a ponta. O sangue escorreu pelo pulso, misturado com a lama preta.

— Merda, merda, merda…

Ícaro apontou a lanterna para a mão. O corte era fundo. Dentro dele, no meio do sangue, havia alguma coisa escura se mexendo.

Era pequena. Do tamanho de uma minhoca. Preta e brilhante, como óleo. E estava entrando.

Ele tentou puxar com os dedos da outra mão. Escorregou. Tentou de novo. A coisa se enfiou mais fundo, deslizando para dentro do corte como se a carne dele fosse água, e sumiu. Por um segundo, Ícaro viu um volume passar por baixo da pele do pulso, subindo pelo antebraço. Depois parou.

Não doía.

Isso era o mais estranho. Não doía nada. A mão formigava, como quando a gente dorme em cima do braço. Só isso.

Ele voltou para casa de moto, com a mão enrolada numa camiseta, e passou uma hora no banheiro lavando o corte com água oxigenada e soro. Não achou nada lá dentro. Fez um curativo. Tomou um anti-inflamatório que achou na gaveta da avó. Deitou-se às cinco da manhã, exausto, e colocou o celular carregando em cima do peito com um vídeo tocando para conseguir dormir, como fazia todas as noites.

Acordou ao meio-dia.

O vídeo tinha acabado fazia horas. O celular estava mudo. A casa estava em silêncio. A avó tinha saído para a igreja.

Ícaro ficou deitado olhando para o teto por um tempo. Depois levantou a mão esquerda para olhar o curativo.

O curativo não estava mais lá. O corte também não. A palma da mão estava perfeita, lisa, sem nem uma cicatriz.

No meio dela, havia um olho.

Um olho de verdade. Com pálpebra, cílio, íris. Escuro e úmido, do tamanho de uma moeda de um real, piscando devagar no centro da palma da mão dele.

Ícaro não conseguiu gritar. A garganta tinha fechado.

O olho olhou para ele. Depois a pele em volta se mexeu, se esticou, e se abriu uma boca. Pequena, sem dentes, com lábios finos.

— Bom dia — disse a boca, com uma voz que parecia a dele, só que mais aguda. — Desculpa pelo susto. Eu aprendi a sua língua a noite toda, com o seu aparelho. Você assiste muito vídeo de gente cozinhando. Eu não entendo por quê. Você nunca cozinha.

Ícaro caiu da cama.

A mão caiu junto, porque estava presa ao braço dele. E, no chão, com o rosto grudado no piso frio de cerâmica, ouviu a mão continuar falando, com uma calma que era a coisa mais assustadora que ele já tinha ouvido:

— Por favor, não tente me cortar. Eu já estou no seu braço inteiro. Se você me cortar, você perde o braço. E eu não quero perder o braço. Eu gostei dele.

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