A Ceifadora do CentroCapítulo 2

Os Barqueiros

Seu Benedito a levou até o alto do Viaduto do Chá e se sentou no parapeito, com as botas balançando sobre o Vale, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ester ficou de pé, encostada num poste, com os braços cruzados, porque não conseguia parar de tremer.

— O senhor é um fantasma?

— Sou um Barqueiro. — Ele apontou para baixo, para o Vale. — Sabe o que tem aí embaixo, menina?

— Asfalto. Metrô. Esgoto.

— Um rio.

Ester olhou para baixo. Só via o Vale, os canteiros, os prédios, os carros passando lá longe na Avenida Nove de Julho.

— O Anhangabaú — disse Seu Benedito. — Os índios chamavam de rio das assombrações. Eles sabiam. Era por ele que as almas desciam para a travessia. Aí os homens vieram, canalizaram o rio, enterraram ele debaixo do chão, construíram a cidade inteira em cima. Mas o rio continua lá. Correndo no escuro, debaixo da gente. E as almas de São Paulo continuam descendo por ele.

— E os Barqueiros?

— A gente leva elas. Quem morre na cidade e não consegue ir sozinho, porque tem medo, porque tem raiva, porque tem saudade… a gente encontra, conversa, convence, e leva até a beira do rio. Aí elas atravessam.

— E se não quiserem ir?

Seu Benedito ficou sério.

— Aí elas ficam. E quem fica muito tempo começa a apodrecer por dentro. A raiva vira fome. A saudade vira ódio. O medo vira maldade. E um dia elas não são mais gente. Viram Assombro. — Ele olhou para o lugar onde o Corpo-Seco tinha virado folha. — Aquele ali era um coronel de café que morreu em 1911. Ficou cento e tantos anos com raiva de ter morrido. Virou o que você viu.

— Então todas as lendas…

— Todas as lendas começaram com um morto que não quis atravessar. Corpo-Seco, Mula sem Cabeça, Pisadeira, Loira do Banheiro, Homem do Saco. Todas. — Ele levantou a lanterna de ferro. — E a gente corta. Com isso. A Candeia. Ela não mata, porque não dá para matar o que já morreu. Ela liberta. Queima a raiva, a fome, o ódio, e o que sobra atravessa.

Ester olhou para a lanterna. A vela lá dentro tremulava amarela.

— Quantos Barqueiros existem?

— No mundo inteiro, não sei. Em São Paulo, éramos doze. — Ele fez uma pausa. — Hoje somos três.

— O que aconteceu com os outros?

Seu Benedito não respondeu. Olhou para o Vale lá embaixo, para a garoa, para as luzes da cidade.

— Os Assombros aumentaram muito nos últimos anos, menina. Muito. Antes, era um por década. Um Corpo-Seco aqui, uma Loira do Banheiro ali. Agora é um por semana. E estão mais fortes. Mais famintos. Alguém está alimentando eles. Alguém está segurando as almas da cidade do lado de cá, não deixando elas chegarem no rio, para elas apodrecerem e virarem Assombro.

— Quem faria uma coisa dessas?

— Eu não sei. Mas os meus companheiros foram atrás de descobrir. E não voltaram.

Ester se sentou no chão do Viaduto, encostada no parapeito, do lado das botas do velho. A garoa tinha parado. O céu estava começando a clarear lá para os lados da Mooca.

— Por que eu consigo ver o senhor? — perguntou ela. — O senhor disse que nenhum vivo vê.

Seu Benedito olhou para ela. Olhou por muito tempo. E, pela primeira vez, Ester viu alguma coisa no rosto dele que parecia pena.

— Onde você estava três dias atrás, menina? — perguntou ele. — De madrugada. Voltando do trabalho.

— Aqui. Como todo dia. Atravessando o Viaduto.

— E o que aconteceu?

Ester abriu a boca para responder. E não soube o que dizer.

Tentou lembrar. Três dias atrás era uma terça-feira. Ela tinha saído da lanchonete à meia-noite e dez. Tinha subido a São João. Tinha chegado ao Viaduto. E depois…

Depois não havia nada.

Era como um buraco. Uma página arrancada. Ela se lembrava da quarta-feira, de acordar em casa, ir à escola, trabalhar. Lembrava da quinta. Mas não lembrava de ter chegado em casa na terça. Não lembrava de ter tomado café na quarta. Não lembrava do pai. Fazia três dias que não via o pai. Nem pensava no pai. Só agora, sentada no Viaduto, percebeu isso.

E percebeu outra coisa.

Ninguém tinha falado com ela na escola. Nenhum colega. Nenhum professor. Ninguém na lanchonete. O gerente não tinha reclamado do atraso. Nenhum cliente tinha pedido nada.

Ela tinha passado três dias inteiros no meio de milhões de pessoas, e nenhuma delas tinha olhado para ela.

— Seu Benedito — disse Ester, com a voz sumindo. — O que aconteceu comigo?

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