Três dias
Seu Benedito desceu do parapeito devagar e estendeu a mão para ela.
— Vem comigo. É melhor você ver do que eu contar.
Andaram pela madrugada que clareava. Desceram a Rua Líbero Badaró, atravessaram a Praça da Sé, onde os mortos de sempre estavam acordando para mais um dia igual: o operário que caiu do andaime da Catedral em 1954, a mulher que procurava o filho perdido na multidão de um comício de 1984, o padre de batina que rezava o terço na escadaria. Todos olharam para Ester quando ela passou. Todos.
Os vivos, os poucos que já estavam na rua àquela hora, os moradores de rua, os varredores, os trabalhadores esperando ônibus, não olharam.
Subiram a Rua Doutor Cesário Mota Júnior até a Santa Casa de Misericórdia. O prédio enorme, de tijolo vermelho, com as torres góticas e as janelas altas. Entraram pela porta da frente. Ninguém os parou. Ninguém os viu.
Seu Benedito a levou pelos corredores, pelas escadas, até a UTI do terceiro andar. Pararam na frente de um leito no canto, perto da janela.
Tinha uma menina deitada nele.
Dezessete anos. Magra. Cabelo crespo preso num coque. A cabeça enfaixada. Um tubo na boca, respirando por ela. Fios no peito, nos braços, monitores apitando baixinho. O rosto inchado e roxo de um lado, com pontos na sobrancelha.
Era o rosto dela.
Ester não sentiu as pernas. Não caiu porque não tinha corpo para cair. Só ficou ali, parada, olhando para si mesma na cama.
— Um motoqueiro — disse Seu Benedito, baixinho. — Terça-feira, meia-noite e vinte, no começo do Viaduto do Chá. Estava a cem por hora. Nem parou. Você bateu a cabeça na guia.
Na cadeira ao lado do leito, dormindo sentado com a cabeça encostada na grade da cama, estava o pai dela. Seu Joaquim. De uniforme de porteiro, com a barba por fazer e os olhos inchados de chorar. Segurava a mão dela. A mão da menina da cama.
— Três dias — continuou Seu Benedito. — Os médicos dizem que você está em coma. Que pode acordar amanhã, ou daqui a um mês, ou nunca.
— Então eu estou morta?
— Não. — Ele se agachou do lado dela. — Você está no meio do caminho. Com um pé de cada lado. Olha para o seu peito.
Ester olhou. Saindo do meio do peito dela, do peito da Ester de pé, havia um fio. Fino, prateado, brilhando fraco. Descia pelo ar e entrava no peito da Ester deitada na cama, como um cordão umbilical de luz.
— Enquanto esse fio estiver inteiro, você pode voltar — disse Seu Benedito. — Mas ele está fino. E vai ficando mais fino a cada dia. Eu já vi muitos. Pelo jeito do seu, eu diria que você tem nove dias. Talvez dez.
— E depois?
— Depois ele parte. E você fica do lado de cá. E aí, das duas uma: ou você atravessa o rio, ou fica vagando, e um dia vira Assombro.
Ester olhou para o pai dormindo. Para a mão dele segurando a mão dela.
— Como eu volto?
— Não sei. — Seu Benedito se levantou. — Às vezes o corpo chama de volta sozinho. Às vezes não. Não depende de você.
— Então por que o senhor me trouxe aqui?
O velho ficou em silêncio por um tempo. Depois tirou a lanterna de ferro do cinto e a segurou na frente dela.
— Porque eu estou cansado, menina. — A voz dele falhou. — Faz noventa e quatro anos que eu morri numa trincheira no Vale do Paraíba, lutando numa guerra que ninguém mais lembra. Faz noventa e quatro anos que eu carrego essa Candeia. Os outros nove Barqueiros sumiram. Sobramos três. E alguém está alimentando os Assombros mais depressa do que a gente consegue cortar.
Ele estendeu a lanterna na direção dela.
— E você é a primeira pessoa em noventa e quatro anos que consegue me ver.
— O senhor quer que eu seja Barqueira?
— Por nove dias. Enquanto você está do lado de cá. — Ele fez uma pausa. — Se você acordar, você devolve. Se não acordar… pelo menos você vai ter alguma coisa para fazer.
Ester olhou para a lanterna. A vela lá dentro tremulava.
Foi nesse momento que as luzes da UTI piscaram.
Todas de uma vez. Os monitores apitaram. O pai dela acordou assustado. Uma enfermeira veio correndo.
E Ester sentiu o cheiro.
Folha seca. Poeira. Flor de velório.
Seu Benedito já estava de costas para ela, com a Candeia acesa em espada, olhando para a porta da UTI.
No corredor, andando devagar em direção ao leito dela, vinham três Corpos-Secos. E, atrás deles, alto, elegante, de sobretudo preto e chapéu de feltro, com uma bengala de prata na mão, vinha um homem que não era Assombro. Tinha o rosto humano. Bonito. Pálido. Sorria.
E carregava, pendurada no cinto, uma lanterna de ferro idêntica à de Seu Benedito. Só que a vela lá dentro era preta.
— Benedito — disse o homem, com uma voz educada, como quem cumprimenta um velho amigo numa festa. — Que bom te encontrar. E você achou uma menina com o fio ainda preso. Que sorte a minha.
Seu Benedito apertou o cabo da Candeia.
— Gaspar.
— Os outros nove mandaram lembranças — disse o homem de sobretudo. — Eles estão aqui comigo. Quer ver?
Ele abriu o sobretudo.
Por dentro, costurados no forro como medalhas, havia nove quepes antigos. E nove lanternas de ferro. Todas apagadas.
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