A Ceifadora do CentroCapítulo 4

A Candeia

Os três Corpos-Secos atacaram ao mesmo tempo.

Seu Benedito cortou o primeiro no ar, antes que ele passasse da porta. O segundo desviou da lâmina, deslizou por baixo do braço do velho e veio direto para o leito. Direto para o corpo de Ester deitado na cama.

O pai dela estava do lado. Não via nada. Só sentia o frio, as luzes piscando, a enfermeira mexendo nos aparelhos que tinham enlouquecido.

Ester se jogou na frente.

Não pensou. Não tinha corpo. Não tinha arma. Só tinha o fio de prata saindo do peito e a vontade de que aquela coisa não tocasse no pai dela. Abriu os braços na frente do leito.

O Corpo-Seco a atravessou.

Não bateu nela. Atravessou, como se ela fosse fumaça. Mas no caminho, os dedos de raiz seca se fecharam em volta do fio prateado. E puxaram.

A dor foi a pior coisa que Ester já tinha sentido. Pior que qualquer coisa. Como se estivessem arrancando o coração dela pelas costas. Ela caiu de joelhos, gritando, e na cama os monitores dispararam, e a enfermeira gritou parada, parada, e o pai dela se levantou chorando.

— ESTER! — gritou Seu Benedito.

Ele largou o terceiro Corpo-Seco e atravessou o quarto em dois passos. Cortou o braço do que segurava o fio. A mão de raiz caiu, virou folha. O fio voltou ao lugar, ainda mais fino, piscando.

Mas ele tinha dado as costas para a porta.

Gaspar não se mexeu. Só levantou a bengala de prata e apontou para Seu Benedito. A vela preta na lanterna dele brilhou. E uma lâmina escura, feita de sombra, saiu do cabo da bengala e atravessou o velho pelas costas.

Seu Benedito olhou para baixo, surpreso, para a ponta preta saindo do peito da farda.

— Você nunca olhou para trás, Benedito — disse Gaspar, com pena. — Desde a trincheira. Foi assim que você morreu da primeira vez, lembra?

O velho caiu de joelhos.

A Candeia escorregou da mão dele e rolou pelo chão da UTI, com a vela ainda acesa, até parar nos joelhos de Ester.

Ela olhou para a lanterna.

Olhou para Seu Benedito, caído, com a luz amarela saindo do ferimento no peito como fumaça.

Olhou para Gaspar, que vinha andando devagar pelo quarto, com a lâmina de sombra na mão, e o terceiro Corpo-Seco atrás dele.

E pegou a Candeia.

No instante em que os dedos dela fecharam em volta do ferro, a vela lá dentro explodiu em luz. Não uma chama de vela. Um sol. Uma luz tão forte e tão quente que o quarto inteiro ficou branco, e a enfermeira viva gritou e cobriu os olhos sem saber por quê, e o pai de Ester caiu sentado na cadeira.

A lâmina que saiu do cabo não era amarela como a de Seu Benedito. Era branca. Branca e larga, do tamanho do braço dela. E queimava.

O terceiro Corpo-Seco pulou. Ester nem pensou. O braço dela se mexeu sozinho. A lâmina branca atravessou a coisa de cima a baixo, e ela não virou folha seca. Virou luz. Explodiu em milhares de pontinhos dourados que flutuaram pelo quarto como vagalumes e sumiram pela janela.

Gaspar parou no meio do quarto.

Pela primeira vez, o sorriso sumiu do rosto dele.

— Interessante — disse, olhando para a lâmina dela. — Muito interessante.

— Vai embora — disse Ester, com a voz tremendo. — Vai embora ou eu te corto.

Gaspar inclinou a cabeça. Olhou para o fio prateado saindo do peito dela, fino como cabelo. Depois olhou para a menina deitada na cama, com o pai chorando do lado.

— Você não sabe o que você é, não é? — disse ele. — Nenhum Barqueiro solta luz branca, menina. Nenhum. Nem eu, no meu melhor dia. — Ele guardou a lâmina de sombra na bengala. — A luz branca é a luz do rio. De quem ainda está vivo. Você não liberta os Assombros. Você manda eles direto para a travessia.

Ele deu um passo para trás.

— Eu vou voltar, Ester. Daqui a nove dias, quando o seu fio partir, você vai ser minha. E com essa luz, eu vou conseguir o que nenhum Barqueiro conseguiu em quatrocentos anos.

— O quê?

Gaspar sorriu de novo.

— Represar o rio.

E sumiu, como sombra quando a luz acende.

Ester deixou a lâmina se apagar e correu até Seu Benedito. O velho estava deitado no chão da UTI, de costas, olhando para o teto. A luz amarela continuava saindo do ferimento no peito, devagar, como fumaça de vela apagada.

— Não — disse ela. — Não, não, não. O senhor não pode…

— Eu já morri, menina. — Ele sorriu. — Faz noventa e quatro anos. Isso aqui é só o resto indo embora.

— Quanto tempo?

— Uns dias. Talvez uma semana. Mais ou menos o mesmo que você. — Ele riu, rouco. — Olha que coincidência.

Ele segurou a mão dela, a que segurava a Candeia.

— Agora escuta. Você tem nove dias, e eu tenho sete. Nesse tempo, eu vou te ensinar tudo que eu sei. E você vai descobrir onde o Gaspar está escondendo as almas que ele prende. Porque se ele represar o rio, menina… — Ele fechou os olhos. — Ninguém em São Paulo vai conseguir atravessar nunca mais. Nem você. Nem o seu pai, quando chegar a vez dele. Todo mundo vai ficar. E todo mundo vai virar Assombro.

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