O exame das Ordens
A capital do Reino de Brasa se chamava Fornalha, e era exatamente o que o nome dizia: uma cidade inteira construída na encosta do Monte Ignar, com ruas de pedra negra aquecidas por dentro pela lava do vulcão, chaminés soltando fumaça colorida e, no topo, o palácio real e o Templo da Chama Eterna, com as torres douradas brilhando contra o céu.
Tito nunca tinha saído do Cinzal. Ficou de boca aberta por uma hora inteira.
— Fecha a boca, menino, que entra mosca — disse Amara Cinza, andando na frente dele com o cachimbo apagado entre os dentes.
A capitã tinha explicado tudo na viagem. O reino tinha doze Ordens de guerreiros, que protegiam as fronteiras, caçavam os bichos de fogo do vulcão e mantinham a paz. A Labareda Real era a primeira, a mais forte, só para chamas douradas e azuis. Os Brasa-Morta eram a décima segunda. A última. A que ninguém queria.
— A gente fica com quem as outras rejeitam — disse Amara. — Chama fraca. Chama esquisita. Chama quebrada. Gente que o vulcão escolheu errado, segundo os sacerdotes.
— E você? Qual é a sua chama?
Ela soltou fumaça pela boca, com o cachimbo apagado.
— Fumaça. Só fumaça. Nunca acendeu fogo nenhum na vida. — Ela sorriu de lado. — Mas você ficaria impressionado com o que dá para fazer com fumaça.
Para entrar oficialmente numa Ordem, todo recruta tinha que passar pelo Exame das Ordens, que acontecia uma vez por ano na grande arena do Templo, na frente do Rei, dos sacerdotes e da cidade inteira. Os recrutas lutavam em duplas contra bichos de fogo capturados no vulcão. Os capitães assistiam das arquibancadas e escolhiam quem queriam.
Amara tinha escolhido Tito antes do exame. Mas ele precisava passar, ou não podia vestir o casaco preto dos Brasa-Morta.
No dia do exame, havia duzentos recrutas na arena. E, no camarote da Labareda Real, de armadura dourada nova, sentado ao lado do comandante Vulcano Aldar, estava Rael.
Tito o viu de longe. Acenou com os dois braços, pulando.
— RAEL! AQUI! SOU EU!
Rael olhou. Tito teve certeza de que ele olhou. Por um segundo, os olhos dos dois se encontraram por cima da arena inteira. Depois, Rael virou o rosto e falou alguma coisa com Aldar.
Tito abaixou os braços devagar.
— Esquece ele, menino — disse Amara, do lado dele. — Quem entra na Labareda Real esquece de onde veio. É a primeira coisa que ensinam lá.
O exame foi um desastre.
Tito caiu em dupla com um menino gordinho de chama laranja chamado Kaíque, que tremia tanto que não conseguia nem acender. O bicho deles era um cão de brasa, do tamanho de um cavalo, com a boca cheia de dentes de obsidiana. Na primeira investida, o bicho derrubou Kaíque. Na segunda, arrancou a manga da camisa de Tito.
Na terceira, Tito o segurou pela mandíbula com as duas mãos.
O fogo do cão de brasa se apagou na hora. O bicho ganiu, se debateu e virou uma estátua de carvão entre os dedos dele. A arena inteira ficou em silêncio.
Tito sentiu o calor subir pelos braços. Muito calor. O cão de brasa tinha fogo demais. Ele virou o corpo, sem saber o que fazer com aquilo, e soltou para cima, com um grito.
Uma coluna de vapor branco subiu da arena até o céu, tão alta que passou por cima das torres do Templo.
Silêncio.
Depois, das arquibancadas, uma risada. Não de deboche. De espanto. Depois alguém aplaudiu. Depois mais gente.
E foi aí que tudo deu errado.
O vapor desceu. E, quando desceu, bateu nas grades de ferro que separavam a arena do Templo. As grades estavam quentes, porque todo o Templo era aquecido por dentro pela Chama Eterna. O vapor encontrou o metal quente e explodiu, e o estrondo derrubou as grades.
Do outro lado delas, no centro do salão principal do Templo, sobre um altar de ouro maciço, dentro de uma cúpula de cristal, ardia a Chama Eterna.
A fonte de todo o fogo do reino. A chama que dizem ter nascido no coração do Monte Ignar mil anos antes. A chama de onde saíam todas as faíscas que o vulcão dava aos jovens na Festa do Primeiro Fogo. Dizia-se que se ela se apagasse, todo o fogo do reino se apagaria com ela.
E a explosão tinha rachado a cúpula de cristal.
Uma língua de fogo branco escapou pela rachadura e se espalhou pelo salão do Templo como uma serpente, lambendo as colunas, as tapeçarias, os sacerdotes que corriam gritando.
Tito correu para lá. Não pensou. Nunca pensava.
— MENINO, NÃO! — gritou Amara.
Ele entrou no Templo, pulou por cima das grades caídas, passou pelos sacerdotes em pânico e agarrou a língua de fogo branco com as duas mãos.
E a Chama Eterna se apagou.
Não só a língua de fogo. A Chama inteira. Dentro da cúpula rachada, no altar de ouro, a chama que ardia havia mil anos morreu nas mãos de um menino do Cinzal.
E, com ela, todo o fogo do Reino de Brasa se apagou também.
Por três segundos. Só três.
Mas foram três segundos em que as tochas da arena se apagaram. Em que as lareiras de Fornalha se apagaram. Em que os fornos das padarias, as forjas dos ferreiros, as velas das casas, os fogões do Cinzal a cem quilômetros dali se apagaram. Em que as chamas nas mãos de cada guerreiro, de cada nobre, de cada sacerdote, de cada criança do reino, se apagaram.
Até a chama azul de Rael.
No quarto segundo, a Chama Eterna voltou a acender sozinha, no altar, fraca, piscando. E o fogo voltou ao reino, devagar, como se estivesse com medo.
Tito estava de joelhos na frente do altar, com as mãos queimando de calor. Tanto calor que a pele fumegava.
Quando levantou a cabeça, o comandante Vulcano Aldar estava parado na frente dele, de armadura dourada, com uma espada de fogo dourado na mão.
Atrás dele, o Sumo-Sacerdote do Templo, um velho de túnica branca, tremia apontando para Tito com o dedo magro.
— O Apagador — disse o velho, com a voz quebrada. — A profecia. O menino que vai apagar a Chama Eterna para sempre. Matem ele. Matem ele agora!
E Aldar levantou a espada.
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