Mãos frias
Rael foi levado para a capital naquela mesma noite, numa carruagem dourada do Rei, para treinar na Labareda Real, a ordem de guerreiros mais poderosa do reino. Não voltou ao Cinzal para buscar as coisas. Mandou um recado pela Dona Zefa: Diz para o Tito que eu vou escrever.
Não escreveu.
Tito passou os três meses seguintes varrendo cinza. Literalmente. Era o único trabalho no Cinzal que não precisava de chama. Todo dia, de sol a sol, ele varria as ruas da vila, amontoava a cinza em pilhas e carregava em carrinhos de mão até o vale. As crianças da vila jogavam pedrinhas nele e gritavam apagadinho.
As mãos dele continuavam frias. Sempre. De dia e de noite. Ele dormia com luvas de lã e mesmo assim acordava tremendo. E descobriu, nesses três meses, o que elas faziam.
Apagavam.
Qualquer fogo. Vela, fogão, tocha, brasa. Encostava a mão e o fogo morria, na hora. Não abafava. Não esfriava. Morria, como se nunca tivesse existido. E, quando o fogo morria, ele sentia uma coisa estranha: um calor subindo pelos braços, entrando no peito, como se tivesse bebido o fogo. O calor ficava lá dentro, guardado, por um tempo. Depois ia embora. E as mãos voltavam a ficar geladas.
Dona Zefa não deixava ele chegar perto do fogão do orfanato.
— Não é castigo, meu filho — dizia ela, fazendo cafuné na cabeça dele. — O vulcão te deu alguma coisa. A gente só não sabe o que é ainda.
— Ele me deu nada, vó.
— Nada não apaga lava, Tito.
No fim do terceiro mês, a salamandra apareceu.
Veio do vale, de madrugada, subindo pela encosta coberta de cinza. Um bicho do tamanho de uma casa, com o corpo de lagarto, a pele de pedra rachada e um fogo alaranjado escorrendo pelas rachaduras como sangue. Os olhos eram duas brasas. A boca, quando abria, cuspia chamas.
Salamandras de fogo viviam nas profundezas do Monte Ignar. Nunca subiam. Nunca. Mas aquela tinha subido. E estava com fome.
Tito acordou com os gritos. Correu para a rua. O Cinzal inteiro estava pegando fogo. A salamandra andava pelo meio da vila, derrubando casas com o rabo, e onde ela passava, as paredes de madeira explodiam em chamas. Os moradores tentavam lutar com as chamas vermelhas deles, fracas, que batiam na pele de pedra do bicho e se desfaziam como água em brasa.
E o orfanato estava no caminho dela.
Tito viu. Viu a salamandra virar a cabeça na direção do telhado furado no fim da rua, onde vinte e duas crianças dormiam. Viu Dona Zefa na porta, de camisola, com os braços abertos, tentando proteger a entrada com uma chaminha vermelha tão fraca que parecia uma vela.
A salamandra abriu a boca.
Tito correu.
Não pensou. Correu com toda a força das pernas curtas dele, pela rua em chamas, pelo meio da fumaça, e se jogou entre a salamandra e o orfanato no exato instante em que ela cuspiu fogo.
Uma coluna de chamas alaranjadas, larga como um rio, quente o bastante para derreter pedra. Veio direto para ele.
Ele levantou as mãos.
O fogo bateu nas palmas dele e morreu.
Não se desviou. Não se espalhou. Morreu. Como se tivesse batido numa parede e sido engolido. A coluna inteira, de ponta a ponta, sumiu nas mãos geladas de Tito. E o calor subiu pelos braços dele, entrou no peito, encheu o corpo inteiro. Tanto calor que ele achou que ia explodir. Tanto calor que, pela primeira vez em três meses, as mãos dele ficaram quentes.
A salamandra parou. Olhou para ele com os olhos de brasa. Parecia confusa.
Tito olhou para as próprias mãos. Estavam vermelhas. Fumegando. E sentiu que precisava soltar aquilo. Precisava, ou ia queimar por dentro.
Ele fechou o punho e correu na direção do bicho.
E deu um soco.
Um soco simples, de menino de vila, sem técnica nenhuma, na cara da salamandra. E todo o fogo que ele tinha engolido saiu de uma vez pelo punho, não como chama, mas como vapor. Uma explosão de vapor branco e fervente que atingiu o bicho em cheio no focinho, rachou a pele de pedra e jogou a salamandra de costas no meio da rua.
O bicho não se levantou.
O fogo que escorria das rachaduras dela foi se apagando, devagar, até que ela era só uma pedra enorme em forma de lagarto, deitada no meio do Cinzal.
Tito caiu de joelhos, ofegante. As mãos voltaram a ficar geladas.
Silêncio na vila.
Depois, uma voz. Rouca, de mulher, vinda do alto de um telhado.
— Faz vinte anos que eu não vejo ninguém fazer isso.
Tito olhou para cima.
No telhado da casa em frente, sentada com as pernas cruzadas, havia uma mulher de uns cinquenta anos, de cabelo grisalho raspado dos lados, um tapa-olho de couro e um casaco comprido de soldado, preto, surrado, com um emblema bordado nas costas: um tição apagado, soltando uma fumaça fininha. Na mão, segurava um cachimbo. Soltava fumaça pela boca, mas o cachimbo estava apagado.
— Quem é você? — perguntou Tito.
A mulher pulou do telhado e caiu de pé na frente dele, sem fazer barulho.
— Amara Cinza. Capitã dos Brasa-Morta. — Ela olhou para as mãos dele, depois para o rosto dele. — E você, menino sem chama, acabou de ganhar um emprego.
O que achou deste capítulo?
Entre na sua conta para comentar. Entrar ou criar conta