A Festa do Primeiro Fogo
No Reino de Brasa, ninguém nasce com fogo. Todo mundo ganha.
Acontece uma vez por ano, na noite mais longa do inverno, na Festa do Primeiro Fogo. Todos os jovens que fizeram quinze anos descem, um por um, pela escadaria de pedra negra até o fundo da cratera do Monte Ignar, o vulcão sagrado que fica no centro do reino. Lá embaixo, no coração da montanha, a lava corre em rios vermelhos. E o vulcão escolhe. Uma faísca sobe da lava e entra no peito do jovem, e ele sai de lá com uma chama que vai carregar pelo resto da vida.
Vermelha, a mais comum: ferreiros, cozinheiros, soldados rasos. Laranja: artesãos, curandeiros. Dourada, rara: comandantes, nobres, sacerdotes. E azul, a mais rara de todas, que aparecia uma vez a cada geração, se tanto: os Chama-Mor, os campeões do Rei.
A chama decidia tudo. Quem você podia casar. Onde podia morar. Que trabalho podia ter. Se ia comer carne ou só pão.
Tito sabia disso desde que se lembrava de gente. Tinha crescido no Cinzal, a vila mais pobre do reino, construída em cima de um campo de cinza vulcânica onde nada crescia direito. Todo mundo no Cinzal tinha chama vermelha, fraca, que mal dava para acender o fogão. Os pais dele tinham morrido numa erupção pequena quando ele tinha dois anos, e ele foi criado pela Dona Zefa, a velha que cuidava do orfanato de telhado furado no fim da rua.
E foi criado junto com Rael.
Rael tinha chegado ao orfanato no mesmo inverno, um bebê abandonado na porta, enrolado num cobertor chamuscado. Os dois cresceram como irmãos. Dividiram a mesma cama, a mesma tigela, as mesmas brigas. Rael era alto, bonito, calado, bom em tudo o que fazia. Tito era baixinho, desengonçado, barulhento e ruim em quase tudo. Menos em uma coisa: nunca, nunca desistia.
— Eu vou ser Chama-Mor — dizia Tito, desde os seis anos, a quem quisesse ouvir. — O primeiro do Cinzal. Vou morar no palácio e mandar construir um telhado de verdade no orfanato.
— Você vai ter chama vermelha como todo mundo aqui — respondia Rael. — E vai ser ferreiro. E vai reclamar do calor.
— Vou ser Chama-Mor e você vai ser meu escudeiro.
— Nem nos seus sonhos.
No ano em que os dois fizeram quinze anos, desceram juntos para a Festa do Primeiro Fogo.
Havia quatrocentos jovens de todo o reino na borda da cratera naquela noite. Filhos de nobres com roupas de seda vermelha. Filhos de comerciantes com botas novas. E os dois do Cinzal, de roupa remendada e pés sujos de cinza, no fim da fila.
Rael desceu antes. Tito ficou na borda, vendo o amigo sumir escadaria abaixo, no brilho vermelho da lava.
Demorou muito. Muito mais que os outros. A multidão começou a murmurar.
Então a cratera inteira ficou azul.
Não vermelha. Não dourada. Azul. Um azul profundo, brilhante, que subiu do fundo do vulcão como uma coluna de luz e iluminou o céu da noite mais longa do inverno. Quatrocentas pessoas ficaram em silêncio. Depois, gritaram.
Rael subiu a escadaria com as mãos envoltas em fogo azul. Estava pálido, assustado, com os olhos arregalados. Os sacerdotes do templo correram até ele. Os nobres se empurravam para chegar perto. O próprio Chama-Mor do Rei, o comandante Vulcano Aldar, um homem enorme de armadura dourada, desceu do palanque de honra para ver.
— Azul — disse Aldar, com a voz grave. — Em trinta anos, é o primeiro.
Tito abriu caminho pela multidão até o amigo.
— RAEL! AZUL! VOCÊ É AZUL! — Ele pulava como uma criança. — Eu te disse! Eu te disse que um de nós ia ser Chama-Mor! Agora falta eu!
Rael olhou para ele. Sorriu, meio sem graça.
— Vai lá, Tito. Vai buscar a sua.
Tito desceu.
A escadaria era longa e quente. O ar tremia. Lá embaixo, os rios de lava corriam devagar, iluminando as paredes de pedra negra. No centro da cratera, havia uma plataforma de basalto, e era ali que o jovem devia ficar, de pé, de braços abertos, esperando o vulcão escolher.
Tito ficou de pé. Abriu os braços. Fechou os olhos.
Esperou.
E esperou.
Nada.
Abriu os olhos. A lava continuava correndo. Nenhuma faísca subia. Ele chegou mais perto da borda da plataforma. Esticou a mão na direção do rio vermelho, só um pouquinho, como quem chama um bicho.
A lava perto da mão dele ficou preta.
Tito recuou, assustado. Olhou para a lava. Um pedaço do tamanho de uma roda de carroça tinha virado pedra. Fria. Escura. Como se o fogo tivesse sido sugado para fora dela.
Ele olhou para as próprias mãos. Estavam geladas. Tão geladas que doíam.
Quando subiu a escadaria de volta, quatrocentas pessoas esperavam na borda da cratera. Viram ele sair. Viram as mãos dele vazias. Nenhuma chama. Nem vermelha. Nem uma faísca.
Um silêncio enorme.
Depois, uma risada. Um filho de nobre, na primeira fila. Depois outra. Depois a multidão inteira.
— O Cinzal mandou um sem chama!
— Nem o vulcão quis ele!
— Vai ser o quê? Vai varrer cinza?
Tito ficou parado na borda da cratera, com as mãos geladas e o rosto queimando.
Do palanque de honra, cercado de sacerdotes e nobres, com as mãos ainda envoltas em fogo azul, Rael olhava para ele.
E não disse nada.
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