Punho EstelarCapítulo 2

O ônibus Cometa

Descobriram a segunda parte da maldição oito dias depois.

Jairo acordou de manhã e o pijama que Nara tinha ajustado para ele estava largo de novo. Ela o mediu na porta da cozinha, onde havia marquinhas de lápis com a altura do pai dela quando criança. Dois centímetros a menos. Olhou os dentes dele. Tinha perdido um molar e havia um dente de leite nascendo no lugar.

— Nove anos — disse Nara, pálida. — O senhor está com nove anos, vô.

No décimo sexto dia, oito anos.

Não havia dúvida. A cada oito dias, o Colecionador levava mais um. E fazendo a conta, com a letra caprichada da neta na parede da cozinha, dava oitenta dias. Oitenta dias até ele ser um bebê. E depois disso…

— Depois disso eu não existo mais — disse Jairo, sentado na mesa, com as perninhas balançando sem alcançar o chão. — Ele vai levar até o último dia. Até antes de eu nascer.

— Então a gente tem que achar ele.

— No espaço? Com o quê? Ele foi embora numa nave que para o tempo, menina.

Nara se levantou da mesa. Pegou a caixa de ferramentas. Foi até a porta dos fundos.

— Vem comigo.

No ferro-velho atrás da roça, no meio das carcaças de nave da Guerra do Céu cobertas de mato, havia um ônibus.

Um ônibus interestadual antigo, dos anos oitenta, pintado de azul e branco, com a palavra COMETA escrita em letras cromadas na lateral. Tinha sido o ônibus da viação que levava turistas de Salvador a Lençóis, até quebrar na estrada da Chapada e ser rebocado para o terreno de Jairo como sucata, vinte anos antes.

Só que agora ele tinha asas.

Duas asas de metal preto, arrancadas de uma nave de reconhecimento da frota, soldadas nas laterais. Atrás, no lugar do motor diesel, havia um motor alienígena, redondo, zumbindo baixinho, com cabos coloridos saindo dele e entrando pelas janelas do ônibus. Os pneus tinham sido trocados por quatro propulsores. E no teto, presa com arame e fita adesiva, uma antena parabólica velha.

Jairo ficou olhando para aquilo por muito tempo.

— Faz quanto tempo que você está fazendo isso?

— Dois anos. — Nara ajeitou os óculos na testa. — Eu queria ir procurar o meu pai.

O menino de oito anos que era o avô dela ficou em silêncio.

— Ele morreu, Nara.

— O senhor não sabe.

— Faz quinze anos.

— O senhor nunca procurou. — Nara se virou para ele. Estava com os olhos cheios de lágrimas. — O maior guerreiro da Terra. O homem que partiu uma lua. E nunca foi procurar o próprio filho. Ficou aqui plantando mandioca e soltando cachorro em turista.

Jairo não respondeu. Olhou para o ônibus. Olhou para as próprias mãos de criança.

— Esse troço voa mesmo?

— Voa. Eu testei. Duas vezes.

— E aterrissou?

— Uma vez.

Ele suspirou.

— Pega as suas coisas. E pega a farinha de mandioca que sobrou. Eu não vou para o espaço sem farinha.

Partiram na madrugada seguinte.

Nara deixou um bilhete para a mãe, dizendo que ia acampar com o avô. Não era mentira, tecnicamente. O ônibus Cometa decolou da roça esmagada às quatro da manhã, com um barulho de trovão e um cheiro de fita adesiva queimada, subiu pelo céu da Chapada, atravessou as nuvens, e continuou subindo.

Jairo ficou com o rosto grudado na janela, vendo a Terra ficar pequena. Azul, branca, verde. Redonda. Sozinha no escuro.

Não disse nada. Mas Nara viu que ele estava chorando.

— Faz quarenta anos que eu não vejo ela daqui — disse ele, finalmente, com a voz fininha. — A última vez, eu estava sozinho. Numa nave da frota, cheia de fumaça, com o braço quebrado. Achei que ia morrer. Olhei pela janela e vi ela assim. Pequena. E pensei: tudo bem. Se eu morrer, pelo menos ela fica.

Nara sentou do lado dele.

— E como a gente acha o Colecionador?

O menino levantou a mão direita. Fechou o punho. Ele brilhou, fraco, dourado.

— Ele levou sessenta e oito anos meus. Os anos lembram do dono. — Jairo fechou os olhos. — Eu consigo sentir. Longe. Muito longe. Para lá.

Apontou para uma estrela vermelha no meio da escuridão.

Nara digitou as coordenadas no painel, um celular velho colado com fita no lugar do rádio do ônibus.

— O mapa da frota diz que tem um planeta habitado no caminho. Barro. Um planeta de mineração. Dá para parar e abastecer.

— E arrumar comida de verdade.

— O senhor trouxe cinco quilos de farinha, vô.

— Farinha não é comida. É acompanhamento.

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