Punho EstelarCapítulo 3

Planeta Barro

Barro era exatamente o que o nome dizia.

Um planeta inteiro coberto de lama vermelha, com um céu cor de ferrugem e dois sóis pequenos que nunca se punham. As cidades eram construídas em cima de torres de metal enfiadas na lama, ligadas por pontes de corda, cheias de mineradores de todas as espécies da galáxia: bichos de quatro braços, criaturas de pedra, gente com cara de peixe, gente com cara de nada.

O ônibus Cometa aterrissou, ou mais ou menos aterrissou, numa plataforma de pouso de uma dessas cidades. Derrubou duas caixas de minério e uma barraca de espetinho. O dono da barraca, um alienígena que parecia uma lagosta gigante de avental, saiu gritando numa língua que Nara não entendia.

O tradutor do painel do ônibus, um aparelho da frota que Nara tinha ligado no celular, traduziu:

MEU ESPETINHO. VOCÊS DESTRUÍRAM MEU ESPETINHO. VOCÊS VÃO PAGAR.

— A gente não tem dinheiro de alienígena — sussurrou Nara.

— A gente tem farinha — disse Jairo.

A lagosta aceitou dois quilos de farinha de mandioca. Provou um punhado, ficou em silêncio, e depois perguntou onde podia comprar mais.

Foi ela que contou sobre a arena.

Toda noite, no centro da cidade, dentro de uma cratera de mina abandonada, havia lutas. Mineradores apostavam o salário inteiro. Os lutadores vinham de todos os cantos do setor para ganhar créditos de combustível, e o campeão invicto da arena, fazia um ano, era um lutador mascarado que ninguém sabia de onde tinha vindo.

— E o prêmio? — perguntou Nara.

A lagosta apontou uma pata para o céu.

COMBUSTÍVEL PARA UM ANO. E UM MAPA.

— Mapa de quê?

DO CAMINHO DAS NAVES DOURADAS. AS QUE TÊM RELÓGIO.

Jairo levantou a cabeça.

— Quem ganha esse mapa?

QUEM VENCER O MASCARADO. NINGUÉM NUNCA VENCEU.

Naquela noite, um menino humano de oito anos, descalço, de bermuda e camiseta da seleção brasileira três números maior, entrou na fila de inscrição da arena de Barro. Os mineradores riram tanto que um deles caiu da arquibancada.

A primeira luta foi contra uma criatura de pedra de três metros.

Jairo perdeu.

Não por falta de técnica. A técnica estava lá, inteira, na cabeça dele. Sessenta anos de luta. Mas o corpo não obedecia. As pernas eram curtas demais. Os braços eram fracos demais. Quando ele tentou dar o salto que dava aos vinte anos, caiu de cara na lama. Quando tentou o soco que partia pedra, a mão doeu tanto que ele gritou. O punho brilhou dourado por um segundo e apagou.

A criatura de pedra o pegou pelo pé e o jogou para fora da arena como um saco de batata.

Ele caiu no colo de Nara, na primeira fila, coberto de lama vermelha.

— Eu esqueci — disse, com a voz tremendo de raiva. — Eu esqueci como é ser pequeno.

— Então aprende de novo.

— Eu tenho setenta e oito anos, menina!

— O senhor tem oito. — Nara limpou a lama do rosto dele com a manga do macacão. — Luta como quem tem oito.

Ele ficou olhando para ela.

Na segunda luta, contra um bicho de quatro braços, Jairo parou de lutar como adulto. Parou de tentar os golpes grandes. Parou de tentar ser o Punho Estelar. Lutou como menino. Rápido, baixo, esquisito. Passou por baixo das pernas do bicho. Subiu nas costas dele. Mordeu uma orelha. Fez cócegas. Os mineradores pararam de rir.

Ganhou.

Na terceira luta, ganhou de novo. Na quarta, na quinta, na sexta. Na sétima noite, a arena inteira estava de pé gritando MENINO! MENINO! numa dúzia de línguas diferentes, e a lagosta tinha aberto uma barraca de tapioca na entrada que vendia mais que qualquer outra coisa no planeta.

Na oitava noite, era a final.

E, na oitava noite, Jairo acordou com sete anos.

A arena estava lotada. Nara na primeira fila, roendo as unhas. O menino de sete anos no meio da cratera, de camiseta da seleção arrastando no chão. E do outro lado, saindo de um túnel escuro, com o passo pesado e lento, o campeão.

Era um homem. Humano. Alto, forte, de uns quarenta anos. Vestia um macacão de piloto velho, rasgado, sujo, e uma máscara de metal cobrindo o rosto inteiro. No peito do macacão, costurado, havia um mostrador de relógio dourado. Os ponteiros giravam para trás.

O Colecionador tinha passado por ali.

O homem mascarado parou no meio da arena. Olhou para o menino. Não disse nada.

E fechou o punho direito.

O punho começou a brilhar. Branco e dourado. Como uma estrela.

Jairo ficou imóvel.

Aquilo era impossível. Aquela técnica não existia em mais lugar nenhum do universo. Ele tinha inventado. Sozinho, aos dezenove anos, num garimpo da Chapada, socando pedra até as mãos sangrarem. Só tinha ensinado para uma pessoa na vida inteira.

O mascarado atacou.

Jairo desviou por um fio. O punho brilhante passou do lado da cabeça dele e bateu na parede da cratera, e a parede explodiu, e os mineradores da primeira fila saíram voando. A arena inteira tremeu.

Nara estava de pé, agarrada na grade, branca como papel.

Porque, na hora do golpe, o mascarado tinha gritado. Um grito curto, de esforço, como todo lutador dá. E a voz dele tinha saído pelo tradutor do celular dela, que estava ligado no bolso do macacão.

E ela conhecia aquela voz.

Nunca tinha ouvido ao vivo. Mas conhecia. Tinha ouvido mil vezes, desde criança, numa fita cassete velha que a mãe guardava numa caixa de sapato. Uma mensagem gravada antes da última missão. Oi, filha. Eu ainda não sei se você é menino ou menina. Mas eu já te amo. Volto logo.

— Pai? — sussurrou Nara.

No meio da arena, o menino de sete anos olhava para o mascarado com os olhos arregalados, a boca aberta, as mãozinhas tremendo.

— Davi — disse Jairo. — Meu filho.

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