Punho EstelarCapítulo 4

Davi

O mascarado não respondeu.

Atacou de novo. E de novo. Socos brilhantes, chutes que abriam crateras na lama, uma velocidade que os mineradores não conseguiam nem acompanhar com os olhos. Era a técnica de Jairo. A mesma postura. O mesmo ritmo. O mesmo jeito de girar o quadril antes do soco. O mesmo defeito no pé esquerdo que Jairo tinha corrigido no filho aos doze anos, no quintal da Chapada, e que o filho nunca corrigiu direito.

Jairo não atacou de volta.

Desviava. Pulava. Rolava na lama. Mas não batia. Não conseguia. Cada vez que abria a guarda e via uma chance, a mão parava no ar.

— DAVI! — gritava ele, com a voz fininha. — SOU EU! O SEU PAI!

O mascarado não parava. O relógio no peito dele girava para trás, cada vez mais rápido.

— Vô! — gritou Nara, da grade. — O relógio! Ele está controlando ele pelo relógio!

Jairo viu. Os ponteiros dourados no peito do filho giravam no mesmo ritmo dos golpes. Cada soco, uma volta. Como se alguém lá longe estivesse dando corda.

Ele parou de desviar.

Ficou parado no meio da arena, de pés descalços na lama vermelha, com a camiseta da seleção arrastando no chão. O mascarado veio com o punho brilhante levantado, direto na cabeça dele.

Jairo não se mexeu.

Esperou até o último segundo. Até o punho estar a um palmo do rosto dele. E então passou por baixo, como uma criança passa por baixo da perna de um adulto, e pulou, e agarrou o relógio no peito do filho com as duas mãos.

E puxou.

O mascarado gritou. O relógio não saiu. Estava enterrado no peito dele como uma raiz. Mas os ponteiros pararam. Por um segundo, pararam.

E, dentro da máscara de metal, os olhos do homem mudaram.

Jairo viu. Estava agarrado no peito dele, a um palmo do rosto. E viu os olhos por trás das fendas da máscara ficarem confusos. Depois assustados. Depois cheios de lágrimas.

— Pai? — disse uma voz rouca, dentro da máscara.

— Sou eu, filho.

— Você está… pequeno.

— É uma longa história.

Os ponteiros voltaram a girar.

Os olhos por trás da máscara ficaram vazios de novo. E o mascarado agarrou o menino pelo pescoço e o jogou do outro lado da arena. Jairo bateu na parede e caiu na lama.

Nara pulou a grade.

Correu pela arena com a chave inglesa na mão, gritando. O mascarado se virou para ela. Levantou o punho brilhante.

E parou.

Ficou olhando para ela. Para o rosto dela. Para os olhos. Para o cabelo crespo preso no lenço, igual ao da mãe dela. O punho tremeu no ar. Os ponteiros no peito dele giravam, giravam, mas o braço não descia.

— Você — disse o mascarado, com a voz arrastada. — Eu conheço você.

— Eu sou a sua filha — disse Nara, com a voz falhando. — Eu nasci três meses depois de você ir embora. O meu nome é Nara. A mãe disse que foi você que escolheu.

O punho brilhante se apagou.

O mascarado caiu de joelhos na lama.

E, com as duas mãos, devagar, tremendo, como quem luta contra o próprio corpo, ele começou a tirar a máscara.

Os ponteiros no peito dele giraram mais rápido. Muito mais rápido. Ele gritou. Mas não parou.

A máscara caiu.

Por baixo, havia o rosto de um homem de quarenta anos. Cabelo preto com fios brancos. Barba malfeita. Uma cicatriz na sobrancelha que Jairo tinha feito sem querer num treino, quando o filho tinha catorze anos. E os olhos castanhos, duros, rabugentos.

Os olhos do avô.

— Nara — disse Davi Cometa.

E os ponteiros pararam de novo. Por mais tempo, dessa vez. Três segundos. Cinco.

— Corre — disse ele, com uma voz que era dele. — Pega o seu avô e corre. Ele me controla de longe. Pelo relógio. Eu não consigo segurar muito tempo. Ele vai mandar eu matar vocês.

— A gente não vai te deixar aqui!

— Vai sim. — Davi olhou para o pai, caído na lama do outro lado da arena. — O mapa. O prêmio da arena. Está no meu bolso. Leva. Vai atrás dele. É o único jeito.

Ele enfiou a mão no bolso do macacão rasgado e tirou um cristal pequeno, azul, com linhas de luz dentro. Jogou para Nara.

E os ponteiros voltaram a girar.

Davi gritou e colocou a máscara de volta no rosto com as próprias mãos, como quem se prende numa jaula para não machucar ninguém.

— CORRE!

Nara correu. Pegou o avô no colo, um menino de sete anos, leve como um saco de farinha, e correu pela arena, pelo túnel, pelas pontes de corda, até o ônibus Cometa.

Decolaram com os mineradores atirando pedras e a lagosta acenando da barraca de tapioca.

No céu cor de ferrugem de Barro, Jairo olhou pela janela traseira do ônibus. Lá embaixo, no meio da cratera da arena, havia um homem mascarado de joelhos na lama, olhando para o céu.

Ficou olhando até ele sumir.

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