A lista
A veterinária falou baixinho, mas a porta do consultório não fechava direito.
— Eu sinto muito, Cláudia. É um tumor no baço, e já espalhou. Na idade dele, cirurgia não faz sentido. Com remédio para a dor, ele deve ficar bem por um tempo. Algumas semanas. Talvez o verão inteiro, se tiver sorte.
Bia estava sentada no banco da sala de espera, com a guia vermelha enrolada na mão, e ouviu tudo. Ao lado dela, o Caramelo abanava o rabo para um gato dentro de uma caixinha de transporte, como se o mundo fosse o mesmo de cinco minutos antes.
Ele tinha treze anos. Era amarelo da cor de doce de leite, tinha uma orelha em pé e outra caída, e um jeito de inclinar a cabeça que fazia qualquer pessoa rir. Tinha chegado à casa da família uma semana antes de Bia nascer, trazido pelo pai numa caixa de sapato, pequeno demais para latir. Dormiu embaixo do berço dela na primeira noite. E em todas as outras.
Bia nunca tinha vivido um dia sem ele.
Quando a mãe saiu do consultório, estava com os olhos vermelhos e um sorriso que não combinava com eles.
— Tudo certo, filha. Ele só precisa tomar um remedinho.
Bia não disse nada. Aprendeu naquele momento que os adultos às vezes mentiam para proteger a gente, e que isso doía mais do que a verdade.
No carro, a mãe ligou para o pai. Ele não atendeu. Ligou de novo. Na terceira vez, desistiu e ficou olhando o sinal vermelho por muito mais tempo do que ele estava vermelho.
Naquela noite, Bia pegou o caderno de capa azul que tinha ganhado para a escola e ainda estava novinho. Arrancou a primeira folha com cuidado, sentou no chão do quarto com o Caramelo encostado na perna e escreveu, com a melhor letra que conseguiu:
A LISTA DO ÚLTIMO VERÃO DO CARAMELO
1. Ver o mar.
2. Tomar um sorvete inteiro sozinho, sem ninguém tirar dele.
3. Dormir na minha cama todas as noites (a mãe vai brigar, mas agora não importa).
4. Correr atrás da bicicleta de novo.
5. Ver neve.
6. Tirar uma foto de família com todo mundo junto.
Parou. Mordeu a ponta do lápis. Pensou em escrever “7. Não morrer”, mas sabia que não dava para colocar isso numa lista. Então deixou a linha em branco.
Da sala, veio a voz do pai, que tinha chegado tarde. Depois a da mãe. As duas vozes baixas, rápidas, como sempre ultimamente, como se estivessem brigando de um jeito que não fizesse barulho.
O Caramelo levantou a cabeça, olhou para a porta e depois para Bia. Inclinou a cabeça daquele jeito.
— Tá tudo bem — ela disse, e percebeu que também estava mentindo. — Tá tudo bem, Caramelo. A gente tem o verão inteiro.
Ela dobrou a lista em quatro e escondeu dentro da fronha do travesseiro.
Naquela noite, pela primeira vez, puxou o Caramelo para cima da cama. Ele deu três voltas, suspirou e deitou encostado nas costas dela, quentinho, com o coração batendo devagar.
Bia ficou acordada muito tempo, contando as batidas.
O que achou deste capítulo?
Entre na sua conta para comentar. Entrar ou criar conta