O Último Verão do CarameloCapítulo 2

Sorvete de flocos

O item número dois foi o mais fácil.

Na sexta-feira, Bia quebrou o porquinho de cerâmica em cima da cama, contou as moedas duas vezes e chegou a dezessete reais e cinquenta centavos. Colocou tudo no bolso do short, prendeu a guia no Caramelo e foi andando devagar até a sorveteria da praça, porque ele já não aguentava ir rápido.

— Um pote de flocos — ela disse para o moço do balcão. — O grande. Sem colher.

— Sem colher?

— É pra ele.

O moço olhou para o Caramelo, que estava sentado com a língua para fora e a orelha caída mais caída do que nunca. Não perguntou mais nada. Colocou o pote grande, encheu até transbordar e, quando Bia foi pagar, empurrou as moedas de volta pelo balcão.

— Esse é por conta da casa.

Ela sentou no meio-fio, colocou o pote no chão e ficou olhando. O Caramelo cheirou, olhou para ela como quem pede licença, e Bia fez que sim com a cabeça. Ele comeu tudo. Lambeu o fundo do pote até ele girar na calçada. No fim, estava com o focinho todo branco e um pedacinho de chocolate preso no bigode.

Bia riu tanto que a barriga doeu. Depois tirou o lápis do bolso e riscou o número dois da lista com uma linha reta, bem firme.

2. Tomar um sorvete inteiro sozinho, sem ninguém tirar dele. ✓

O número três já estava sendo cumprido fazia uma semana. A mãe tinha visto o Caramelo na cama no segundo dia, parada na porta do quarto com a boca aberta para brigar. Mas não brigou. Só ficou olhando os dois, e depois apagou a luz sem dizer nada.

Foi naquela mesma semana que Bia começou a reparar nas coisas.

O pai chegava cada vez mais tarde. Às vezes nem jantava. Dormia no sofá da sala “por causa da coluna”, e de manhã o lençol já estava dobrado antes de ela acordar, como se ninguém tivesse dormido ali. A mãe falava com as amigas no telefone com a porta do quarto fechada. Os dois se tratavam com uma educação estranha, de vizinhos de elevador.

— Você pode passar o sal, por favor?

— Claro. Aqui.

— Obrigada.

Em casa de gente que se gosta, ninguém pede o sal por favor, pensou Bia.

Numa noite, ela desceu para beber água e encontrou a mãe sentada na cozinha escura, com uma xícara de chá fria na frente e o celular virado para baixo.

— Mãe, o pai tá bravo com você?

A mãe demorou para responder.

— Não, filha. Ninguém tá bravo com ninguém.

— Então por que ele dorme no sofá?

— Por causa da coluna.

Bia ficou parada no escuro, com o copo vazio na mão. O Caramelo tinha descido atrás dela, como sempre, e encostou a cabeça na perna da mãe. A mãe fez carinho nele, devagar, e Bia viu que a mão dela tremia.

— Vai deitar, meu amor. Amanhã seu pai vai te levar para a praia.

— Pra praia?

— Você não queria que o Caramelo visse o mar?

Bia congelou. Nunca tinha mostrado a lista para ninguém.

A mãe sorriu, triste, e apontou para o travesseiro lá em cima, como quem já sabia de tudo.

— Eu troquei a sua fronha na terça. Desculpa. Eu li.

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