O mar
Saíram de Campinas às cinco da manhã, ainda escuro, com o Caramelo deitado no banco de trás em cima do edredom favorito de Bia.
Era a primeira vez em muito tempo que ela e o pai ficavam sozinhos. Ele colocou as músicas antigas que cantava quando ela era pequena, e no começo os dois ficaram meio sem jeito, como se tivessem esquecido como se fazia. Mas na serra, quando a neblina abriu e apareceu o azul lá embaixo, o pai começou a cantar alto e desafinado, e Bia cantou junto, e por um minuto tudo pareceu como antes.
— Olha, Caramelo! — ela gritou, virando para trás. — Olha lá! É o mar!
O Caramelo levantou a cabeça, cheirou o vento que entrava pela janela e espirrou. Os dois riram.
Em Ubatuba, a praia estava quase vazia. O pai estacionou perto das pedras e carregou o Caramelo no colo pela areia fofa, porque ele já não conseguia andar nela. Colocou o cachorro no chão onde a areia era molhada e firme, e deu dois passos para trás.
O Caramelo ficou parado olhando.
Uma onda pequena chegou, espumando, e molhou as patas dele. Ele pulou para trás, assustado, latiu uma vez. A onda voltou. Ele latiu de novo. Na terceira onda, ele avançou, mordeu a espuma e saiu correndo em círculos, meio mancando, meio voando, com as orelhas batendo, latindo para o oceano inteiro como se tivesse acabado de descobrir que ele existia.
Bia correu atrás dele. Caiu na água de roupa e tudo. O pai ficou na areia, com a calça dobrada até o joelho, rindo e chorando ao mesmo tempo, e ela fingiu não ver a segunda parte.
Ficaram até o sol ficar laranja. O Caramelo dormiu em cima da toalha, salgado, exausto, feliz. Bia deitou do lado dele e riscou o número um da lista com a areia ainda nos dedos.
1. Ver o mar. ✓
— Pai — ela disse, olhando para o céu. — Você e a mãe vão se separar?
Ele ficou tanto tempo em silêncio que ela achou que ele não tinha ouvido.
— Por que você está perguntando isso, filha?
— Porque você dorme no sofá. E ninguém tem tanta dor na coluna.
O pai sentou ao lado dela e passou a mão no pelo do Caramelo, devagar, várias vezes, do jeito que a mãe tinha feito na cozinha.
— A gente precisa conversar, Bia. Eu, você e a sua mãe. Quando a gente voltar, tá bom?
Não era um não.
Ela entendeu que não era um não.
Voltaram em silêncio. O Caramelo dormiu a viagem inteira no colo dela. Em casa, enquanto o pai tirava as coisas do carro, Bia foi buscar a toalha no porta-malas e encontrou, embaixo dela, uma pasta de plástico transparente.
Dentro, um contrato de aluguel. Um apartamento de um quarto, no centro, a dez minutos dali. Assinado pelo pai. Com data de início no dia primeiro de fevereiro.
E, grudado na pasta com um clipe, um papel com a letra dele:
Coisas para levar: roupas, livros, a cafeteira, o violão. Perguntar à Cláudia sobre o Caramelo.
Bia leu aquela última linha três vezes.
Perguntar sobre o Caramelo.
Como se o Caramelo fosse uma coisa que dava para dividir.
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