Lisboa

O primeiro emprego em Lisboa foi lavar pratos num restaurante em Alfama, com os pés inchados e um enjoo que durou quatro meses.
Clara tinha chegado com uma mala emprestada, oitocentos euros de uma prima e o endereço de uma pensão que cheirava a mofo e sardinha. Não falava com ninguém do Brasil. Trocou o número do telefone, apagou as redes sociais, deixou de existir.
No quinto mês, desmaiou na cozinha do restaurante.
Acordou num hospital com uma senhora de cabelo branco sentada ao lado da cama. Setenta e poucos anos, colar de pérolas, olhos azuis que não deixavam passar nada. Era a dona do prédio onde ficava o restaurante e tinha visto Clara cair pela janela do escritório.
— Isabel Valença — apresentou-se. — A menina está grávida, sozinha e trabalha doze horas por dia num sítio onde ninguém lhe paga as horas extra. Posso saber porquê?
Clara quis mentir. Não conseguiu. Contou tudo, chorando, para uma estranha num quarto de hospital em Lisboa.
Dona Isabel ouviu até o fim sem interromper. Depois cruzou as mãos no colo.
— Eu fui casada quarenta anos com um homem que me tratou como mobília — disse ela. — Quando ele morreu, descobri que sabia ler os balanços da empresa melhor do que os filhos dele. A menina estudou o quê?
— Economia. Não terminei. Casei antes.
— Pois vai terminar.
Theo nasceu numa madrugada de março, com três quilos e duzentos, um choro furioso e uma pequena mancha em forma de meia-lua atrás da orelha esquerda. Clara olhou para aquela mancha e chorou de novo, porque conhecia aquela meia-lua. Tinha beijado aquela mesma marca atrás da orelha de Rodrigo centenas de vezes.
Dona Isabel foi a madrinha.
Os anos seguintes passaram como um trem. Clara terminou a faculdade à noite, com Theo dormindo no carrinho ao lado da carteira. Entrou como estagiária no fundo de investimentos da família Valença. Em dois anos, era analista. Em três, era a pessoa que os filhos de Dona Isabel chamavam quando um negócio estava dando errado.
No quarto ano, Dona Isabel a chamou ao escritório, abriu uma pasta e colocou um documento na mesa.
— Adoção de maior — disse. — Não tenho filha. Os meus rapazes concordaram. Se a menina quiser, passa a ser Clara Valença. É só um nome. Mas os nomes, cá em Portugal, abrem portas.
Clara assinou com a mão tremendo. Foi a segunda vez na vida que assinou um papel chorando. Dessa vez era de alegria.
Theo cresceu esperto, teimoso e curioso. Aos quatro anos, perguntou pela primeira vez:
— Mãe, eu tenho pai?
— Todo mundo tem, meu amor.
— E onde tá o meu?
— Longe. Num lugar onde chove muito.
Ele aceitou a resposta do jeito que as crianças aceitam as coisas grandes demais: guardando para perguntar de novo depois.
Numa terça-feira de outubro, um analista júnior deixou um relatório na mesa de Clara. Oportunidade de compra no Brasil. Construtora familiar em Curitiba, endividada, com obras paradas e três bancos cobrando ao mesmo tempo. Preço de liquidação.
Construtora Albuquerque S.A.
Clara leu o relatório inteiro. Leu de novo. Depois foi até a janela e ficou olhando o Tejo por muito tempo.
Dona Isabel entrou sem bater, como sempre.
— Vi o relatório — disse. — É ele?
— É ele.
— E então?
Clara se virou. Estava calma. Uma calma que tinha levado cinco anos para construir, tijolo por tijolo.
— Então eu vou para Curitiba — respondeu. — E dessa vez eu levo as minhas roupas.
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