A sala de reunião

A sede da Construtora Albuquerque ficava num prédio espelhado no Ecoville, e Clara reparou logo na entrada que metade das luzes do saguão estava apagada para economizar energia. Um detalhe pequeno. Ela gostava de detalhes pequenos. Eram eles que contavam a verdade que os balanços escondiam.
Theo estava com ela. Não era o plano. A babá brasileira tinha desmarcado na última hora, e Clara não ia deixar o filho com um desconhecido num hotel. Deixou-o no sofá do saguão com a assistente, um tablet e a promessa de sorvete depois.
— Vinte minutos — disse, ajoelhando na frente dele. — Você fica aqui e não sai de perto da Joana.
— E se eu ficar entediado?
— Aí você conta os carros lá fora. Eu quero o número exato.
Ele fez continência. Ela subiu.
A sala de reunião tinha uma mesa de madeira escura comprida demais para a quantidade de gente que ainda trabalhava ali. Três diretores, dois advogados, uma secretária nervosa. E, na cabeceira, Rodrigo Albuquerque.
Ele estava mais magro. Tinha fios brancos nas têmporas que não existiam cinco anos antes e uma aliança no dedo que não era a dela. Estava lendo um documento quando a porta abriu e não levantou os olhos.
— Pode entrar, doutora Valença. Desculpe a demora, a gente está sem café hoje.
— Não tem problema — disse Clara. — Eu não vim tomar café.
Rodrigo levantou os olhos.
O documento escorregou da mão dele e caiu no chão. Ninguém na sala entendeu por quê. Ele ficou olhando para ela como quem vê um fantasma entrar pela porta de salto alto, de terninho cinza, com o cabelo preso e uma pasta de couro na mão.
— Clara.
— Clara Valença — corrigiu ela, sentando-se na outra ponta da mesa sem pedir licença. — Sócia-diretora do Fundo Valença, de Lisboa. Nós temos uma proposta de compra para a sua empresa, senhor Albuquerque. Vou ser breve, porque eu sei que o senhor está sem café.
Um dos diretores tossiu. O outro olhou de um para o outro, confuso.
Clara abriu a pasta e apresentou os números sem pressa. As dívidas. Os bancos. As obras paradas. A folha de pagamento atrasada havia dois meses. Os fornecedores que já não entregavam cimento. Cada frase era um prego, e ela batia com calma.
— O Fundo Valença assume todas as dívidas — concluiu. — Mantém os funcionários. Retoma as obras. Em troca, fica com cem por cento das ações. A família Albuquerque sai da empresa.
— Isso é um insulto — disse um dos advogados.
— Não, doutor. Isso é a única proposta que vocês receberam em oito meses. — Ela fechou a pasta. — O insulto é o salário atrasado das pessoas que estão lá embaixo, no canteiro de obras, sem saber se vão conseguir pagar o aluguel.
Rodrigo não tinha dito uma palavra. Estava pálido.
— Vocês têm quinze dias para responder — disse Clara, levantando-se. — Depois disso, a proposta cai e eu compro as dívidas dos bancos separadamente. Aí não vai ter proposta nenhuma. Só cobrança.
Ela saiu da sala. Não olhou para trás. Tinha ensaiado aquela saída em frente ao espelho do hotel na noite anterior, e saiu perfeita.
Só não tinha ensaiado o que aconteceu no saguão.
Rodrigo desceu correndo pela escada, porque o elevador demorava, e chegou ao térreo ofegante, gritando o nome dela. Clara já estava perto da porta, de mão dada com o filho.
Theo se virou para ver quem gritava. O sol da tarde entrou de lado pela vidraça e iluminou o cabelo escuro do menino, a orelha esquerda, a pequena mancha em forma de meia-lua logo atrás dela.
Rodrigo parou no meio do saguão como se tivesse levado um tiro. Levou a mão, sem perceber, atrás da própria orelha esquerda.
— Clara — disse, com a voz quebrada. — De quem é esse menino?
Ela apertou a mão do filho e olhou para o ex-marido com os olhos secos.
— De ninguém que você conheça.
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