A Ex-Mulher Que Ele DescartouCapítulo 4

O teste de DNA

Rodrigo não dormiu naquela noite. Nem na seguinte.

Ficou sentado no escritório de casa, na mesma mansão de onde tinha expulsado Clara, olhando para a própria orelha no reflexo da tela apagada do computador. A meia-lua. Seu pai tinha. Seu avô tinha. Todos os homens da família Albuquerque nasciam com ela, e a mãe sempre dizia, com orgulho, que era a assinatura de Deus no sangue deles.

O menino tinha uns quatro anos. Talvez cinco.

Rodrigo fez a conta com os dedos, como um aluno. Depois fez de novo. A conta dava certo demais.

Vanessa entrou no escritório às duas da manhã, de robe de seda.

— Você está esquisito desde ontem. É por causa daquela mulher?

— Ela tem um filho, Vanessa.

Por um segundo, só um, o rosto da esposa perdeu a cor. Foi tão rápido que Rodrigo quase não percebeu. Quase.

— E daí? — disse ela, recompondo o sorriso. — Ela deve ter arrumado um português rico. Mulher daquele tipo sempre arruma.

— O menino tem a marca.

Vanessa riu, mas a risada saiu errada, alta demais.

— Rodrigo, pelo amor de Deus. Metade das crianças do mundo tem uma pinta atrás da orelha. Vem dormir.

Ele não foi.

Na manhã seguinte, contratou um detetive. Em três dias, o homem voltou com uma pasta fina: Theo Valença, nascido em Lisboa, em março, sete meses e meio depois da noite da chuva. Pai: não declarado.

Rodrigo foi até o hotel de Clara. Esperou na recepção por duas horas até ela descer.

— Eu quero um exame de DNA — disse, antes mesmo de ela chegar perto.

Clara parou. Ajeitou a bolsa no ombro.

— Não.

— Eu tenho direito.

— Você tinha — disse ela, baixinho, para os funcionários do hotel não ouvirem. — Tinha direito numa noite de chuva, cinco anos atrás, quando eu te pedi cinco minutos a sós para contar uma coisa. Você disse que não existia mais nós dois. Eu acreditei em você. Foi a única coisa sua em que eu acreditei até o fim.

Rodrigo ficou sem ar.

— Você estava grávida. Naquela noite.

— Eu estava com o teste no bolso.

Ele se sentou no sofá da recepção como se as pernas tivessem desistido dele.

— Por que você não me contou depois? Por que não ligou, não escreveu…

— Porque você me chamou de ladra e de vagabunda na frente da sua família inteira, Rodrigo. Porque sua mãe ficou com as minhas roupas. Porque eu dormi três noites numa rodoviária. — A voz dela não tremeu. — Eu não ia entregar meu filho para uma casa que me tratou daquele jeito.

— Eu fui enganado. As mensagens…

— Eu sei que você foi enganado. — Clara se inclinou, perto o bastante para ele sentir o perfume, que era novo, que não era o de antes. — A diferença é que eu nunca precisei de prova para saber quem eu era. Você precisou. E escolheu acreditar na prova dos outros.

Ela se endireitou.

— Você não vai fazer exame nenhum. Não vai chegar perto do Theo. E, daqui a doze dias, vai me vender a sua empresa ou vai vê-la ser leiloada. Tenha um bom dia, senhor Albuquerque.

Rodrigo ficou sentado na recepção muito depois de ela sair.

Naquela tarde, na portaria do prédio de Dona Lúcia, alguém deixou um envelope sem remetente. Dentro, uma cópia da certidão de nascimento de Theo e um bilhete de uma linha só, escrito à mão:

Seu neto existe. Pergunte à Vanessa por que ela sabia disso há cinco anos.

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