A Lua da SerraCapítulo 1

A clínica da neblina

A placa na entrada da cidade dizia Pedra da Lua — 1.640 metros de altitude, e alguém tinha pichado embaixo, em tinta vermelha já desbotada: tranque a porta.

Helena achou graça. Tirou uma foto para mandar para as amigas de São Paulo e só depois percebeu que o celular não tinha sinal.

A cidade era uma rua principal de pedra, uma igreja amarela, uma padaria, um armazém e umas cem casas espalhadas pela encosta, entre araucárias e pastos cobertos de geada. A neblina descia da serra no fim da tarde como um bicho vivo, apagando primeiro as montanhas, depois as árvores, depois as casas, até que só sobravam as luzes das janelas boiando no branco.

A clínica veterinária ficava no fim da rua. Tinha sido do doutor Amâncio por quarenta anos, até ele morrer no inverno anterior, e ninguém da capital quis assumir. Helena quis. Tinha trinta e dois anos, um noivado desfeito, uma demissão de um hospital veterinário chique da Vila Madalena e nenhuma vontade de explicar nada disso para ninguém.

Pedra da Lua não fazia perguntas. Ou quase não.

— A senhora é neta da Rosa — disse Dona Benedita, a dona do armazém, no segundo dia, sem nem dar bom-dia. Setenta anos, lenço na cabeça, olhos pequenos e pretos como jabuticaba.

Helena ficou parada com o pacote de café na mão.

— Como a senhora sabe?

— Tem o mesmo jeito de olhar. Olha como quem conta as saídas. — A velha embrulhou o pão. — A Rosa foi embora daqui quando a sua mãe era de colo. Nunca mais voltou. Deus sabe por quê.

Helena sabia pouco sobre a avó. Só que tinha morrido cedo, antes de ela nascer, e que a mãe nunca gostava de falar dela. Sabia que a família vinha de algum lugar da Mantiqueira. Não sabia que era dali.

— E a senhora sabe por que ela foi embora?

Dona Benedita olhou pela janela do armazém, para a serra que escurecia.

— Sexta-feira é lua cheia, doutora. Tranque a porta.

Na sexta-feira, Helena não trancou a porta. Não porque fosse corajosa, mas porque esqueceu. Ficou até tarde organizando as fichas antigas do doutor Amâncio, papéis amarelados cheios de nomes de vacas e cachorros, e caiu no sono no sofá do consultório, com a luz acesa.

Acordou com um barulho.

Arranhões. Na porta da frente. Longos, lentos, pesados.

Olhou o relógio: duas e dez da manhã. Lá fora, pela janela, a lua cheia atravessava a neblina como um farol branco.

Os arranhões pararam. Depois veio um som que ela nunca tinha ouvido, e que mesmo assim reconheceu com um arrepio na nuca: um gemido de dor. Um gemido de animal grande.

Helena era veterinária. Tinha sido treinada a vida inteira para correr na direção do gemido, não para longe dele. Pegou a lanterna e abriu a porta.

No degrau de pedra, deitado de lado, havia um lobo.

Não um lobo-guará, magro e dourado, que ela conhecia dos livros. Um lobo de verdade, negro como carvão, do tamanho de um bezerro, com patas largas como mãos humanas. O pelo do ombro estava empapado de sangue. Os olhos, quando se abriram e olharam para ela, eram amarelos como ouro velho.

Não existiam lobos assim no Brasil. Não existiam lobos assim em lugar nenhum.

O animal não rosnou. Só olhou para ela. E Helena teve a impressão absurda, impossível, de que ele estava pedindo ajuda.

Levou meia hora para arrastá-lo até a mesa de cirurgia. Ele deixou. Não mordeu, não se debateu, só gemia baixinho quando ela puxava. Na mesa, com a luz forte, Helena encontrou a ferida: um buraco de bala no ombro, a carne em volta escurecida como se tivesse sido queimada.

Tirou o projétil com a pinça. Era pequeno, brilhante, pesado demais para ser chumbo.

Ela esfregou com o polegar. O metal era branco.

Prata.

Deu doze pontos no ombro do lobo, fez o curativo, aplicou antibiótico e ficou sentada ao lado da mesa, olhando para ele respirar, até os olhos pesarem.

Quando acordou, o sol já tinha nascido. A mesa de cirurgia estava vazia. O curativo estava no chão, rasgado. A porta da frente estava aberta, e a neblina da manhã entrava devagar pelo consultório.

No barro do quintal, saindo da porta e descendo em direção à mata, havia pegadas.

As três primeiras eram de pata de lobo.

Todas as outras eram de pés humanos, descalços.

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