A Lua da SerraCapítulo 2

O homem do ombro ferido

Helena passou a manhã inteira tentando se convencer de que tinha sonhado.

Tinha a bala de prata num pote de vidro em cima da mesa. Tinha o curativo rasgado. Tinha as pegadas no quintal, que ela fotografou vinte vezes antes de a chuva fina apagar tudo. Mesmo assim, a cada hora, a explicação mais sensata parecia ser que ela estava ficando louca.

Na hora do almoço, foi até a padaria. Precisava de café e de gente.

A padaria estava cheia de trabalhadores das fazendas, de chapéu e bota suja de barro, e o assunto era o mesmo em todas as mesas: alguém tinha atirado na mata na noite anterior. Três tiros, perto da fazenda dos Brandão.

— Caçador de fora — disse um. — Veio atrás de onça.

— Não tem onça aqui faz trinta anos — disse outro.

— Então veio atrás do quê?

Ninguém respondeu. Um silêncio desconfortável caiu sobre o balcão. Foi aí que a porta abriu e o homem entrou.

Alto, moreno, com barba de alguns dias e um casaco de lã grossa. Tinha trinta e poucos anos e o jeito de quem não fala muito porque não gosta de desperdiçar palavras. Os trabalhadores cumprimentaram com um aceno de cabeça. Um deles tirou o chapéu.

— Seu Caetano.

O homem pediu um café e um pão de queijo. Pagou com o braço esquerdo. O direito ficou colado ao corpo, rígido, e quando ele se virou para pegar o troco, Helena viu: por baixo da gola do casaco, no ombro direito, havia uma faixa branca de curativo.

Exatamente onde ela tinha dado os doze pontos.

Ele sentiu que estava sendo olhado. Virou a cabeça. E os olhos dele, castanhos e comuns à luz do dia, encontraram os dela.

Por um segundo, só um, Helena jurou ter visto um brilho amarelo passar por eles, como o reflexo de uma lanterna.

— A senhora é a doutora nova — disse ele.

— Helena.

— Caetano Ferraz. Tenho umas vacas lá em cima, na Fazenda do Alto. — Ele fez uma pausa. — Obrigado.

— Pelo quê?

Caetano pegou o café e o pão de queijo e foi embora sem responder.

Helena ficou olhando para a porta por muito tempo.

À tarde, foi até o armazém de Dona Benedita. A velha estava sozinha, contando moedas atrás do balcão.

— A senhora me disse para trancar a porta — disse Helena. — Eu não tranquei.

Dona Benedita parou de contar.

— E o que foi que bateu?

— Um lobo. Preto. Ferido com uma bala de prata. — Helena colocou o pote de vidro em cima do balcão. — E hoje de manhã o Caetano Ferraz apareceu na padaria com o ombro enfaixado no mesmo lugar.

A velha olhou para a bala por um longo tempo. Depois fechou o armazém, embora fossem só quatro da tarde, e levou Helena para a cozinha dos fundos, onde havia um fogão a lenha aceso e uma imagem de São Jorge na parede.

— A senhora já ouviu falar do lobisomem, doutora?

— Sétimo filho homem, vira bicho em noite de sexta, some com as galinhas. — Helena tentou sorrir. — Minha babá contava.

— A sua babá contava a versão para criança. — Dona Benedita serviu café num copo americano. — Aqui na serra tem sete famílias antigas. Desde antes da estrada, antes da igreja, antes de ter nome no mapa. Em cada geração, em cada uma dessas famílias, nasce um. O sétimo filho. Eles viram na lua cheia. Não é maldição, como os padres dizem. É um trato.

— Um trato com quem?

— Com a serra. Eles cuidam da mata, e a mata cuida da gente. Os lobos da Mantiqueira nunca comeram gente, doutora. Nunca. Eles protegem. É por isso que ninguém aqui fala nada.

Helena olhou para a bala de prata.

— E quem atirou nele?

A velha demorou a responder.

— Tem um lobo que não é da serra. Um lobo cinzento. Ele come. — Ela cruzou os braços. — E ele tem dinheiro, doutora. Tem muito dinheiro.

Antes de sair, Helena parou na frente de uma parede cheia de fotografias antigas, em preto e branco, de festas de santo e procissões. Numa delas, de uns sessenta anos antes, sete moças posavam na frente da igreja com vestidos de chita. A do meio tinha o rosto de Helena. Exatamente o rosto de Helena.

Embaixo, alguém tinha escrito a lápis: Rosa, a sétima filha.

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