Lua cheia

Artur Brandão apareceu na clínica numa segunda-feira de manhã, com um pastor-alemão velho e um buquê de hortênsias azuis.
— Para a doutora nova — disse, estendendo as flores. — E o Rex, que está mancando da pata de trás faz uma semana.
Tinha uns cinquenta anos, cabelo grisalho penteado para trás, camisa de linho e um relógio que valia mais do que a clínica inteira. Era dono da maior fazenda da serra, de metade dos terrenos da cidade e, segundo os boatos da padaria, do prefeito também.
Era também charmoso, educado e engraçado. Helena odiou perceber que tinha gostado dele.
Rex tinha uma inflamação simples. Enquanto ela examinava o cachorro, Artur andava pelo consultório olhando os diplomas na parede, as fichas antigas, a estante de remédios. Parou na frente do pote de vidro em cima da mesa.
— Curioso — disse, sem tocar. — Isso é uma bala?
— Tirei de um animal.
— Que tipo de animal?
Helena levantou os olhos. Artur estava sorrindo, mas o sorriso tinha ficado parado no rosto, como uma foto.
— Um cachorro do mato — mentiu.
— Coitado. Tem muito caçador ilegal por aqui. — Ele pegou a guia de Rex. — A senhora deveria tomar cuidado andando sozinha na mata, doutora. Principalmente à noite. A serra é bonita, mas não perdoa quem não conhece.
Na sexta-feira seguinte, era lua cheia de novo.
Helena passou o dia inteiro dizendo a si mesma que não ia sair de casa. Às dez da noite, recebeu um chamado: uma égua em trabalho de parto complicado num sítio no alto da serra, a meia hora de estrada de terra. O sitiante chorava no telefone.
Ela foi.
O parto demorou três horas. O potro nasceu vivo, a égua sobreviveu, e quando Helena entrou na caminhonete de volta, eram quase duas da manhã. A lua cheia estava enorme sobre as araucárias. A neblina tinha baixado.
No meio da descida, na curva mais fechada da estrada, alguma coisa atravessou na frente dos faróis.
Ela freou. A caminhonete derrapou no barro e parou com o para-choque encostado num barranco. O motor morreu.
Silêncio.
Depois, o rosnado.
Vinha da mata, à esquerda. Grave, lento, tão baixo que ela sentiu o vidro da janela vibrar antes de ouvir. Na borda da luz dos faróis, entre as árvores, dois olhos acenderam.
Não eram amarelos. Eram vermelhos.
O bicho saiu da mata devagar. Era maior que o lobo negro. Cinzento, com o pelo eriçado nas costas e uma cicatriz antiga atravessando o focinho. Andava como um lobo, mas os ombros eram largos demais, e as patas da frente, quando ele se apoiou no capô da caminhonete, tinham dedos. Dedos compridos, terminados em garras.
O capô afundou sob o peso dele.
Helena tentou dar a partida. Uma vez. Duas. O motor tossiu e morreu.
O lobo cinzento levantou uma pata e bateu no para-brisa. O vidro rachou em teia. Ele bateu de novo. A rachadura se abriu.
Então, do outro lado da estrada, alguma coisa uivou.
O lobo negro saltou do barranco como uma sombra caindo do céu. Bateu no cinzento de lado, com o corpo inteiro, e os dois rolaram pela estrada de terra num emaranhado de dentes e pelo. O barulho era horrível: rosnados, estalos, o som de carne rasgando.
Helena abriu a porta sem pensar e caiu no barro.
Viu o negro prender o pescoço do cinzento contra o chão. Viu o cinzento se soltar, girar e acertar uma garrada no flanco dele. Viu o negro cambalear. O ombro, o mesmo ombro, tinha voltado a sangrar.
O cinzento se virou para ela.
Deu dois passos. Helena recuou até bater as costas na caminhonete. O bicho levantou a pata, e as garras brilharam à luz da lua, e ela sentiu a dor antes de ver o golpe: quatro linhas de fogo no antebraço esquerdo, rasgando o casaco, a pele, a carne.
O lobo negro voltou a atacar. Dessa vez, com uma fúria que fez o cinzento ganir. Mordeu a pata traseira dele, arrastou-o pela estrada, e o cinzento finalmente fugiu, mancando, para dentro da mata, deixando um rastro escuro no barro.
O silêncio voltou.
Helena estava sentada no chão, segurando o braço que sangrava. O lobo negro veio até ela, cambaleando. Parou na frente dela. Olhou para o braço. Olhou para o rosto dela.
E começou a mudar.
Os ossos estalaram. O pelo recuou como água escorrendo. O focinho encurtou, as patas se abriram em mãos, e em menos de um minuto, no lugar do lobo, havia um homem nu, ajoelhado no barro, tremendo de frio e de dor, com o ombro direito sangrando através de doze pontos arrebentados.
Caetano.
Ele segurou o braço dela com as duas mãos e olhou para os arranhões. O rosto dele ficou branco.
— Ele te pegou — disse, com a voz rouca. — Helena, ele te arranhou.
— Eu sou veterinária. Eu dou pontos. Não é tão fundo…
— Você não entende. — Ele levantou os olhos para ela, e os olhos ainda estavam amarelos. — Quem é arranhado pelo lobo cinzento vira na lua seguinte. Você tem vinte e oito dias.
Helena riu. Uma risada nervosa, histérica, que morreu no meio.
Porque, no vidro rachado da janela da caminhonete, ao lado do reflexo de Caetano, estava o reflexo dela. E os seus próprios olhos, por um instante, brilharam dourados na escuridão.
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