A Lua da SerraCapítulo 4

O que a serra guarda

Caetano a levou para a Fazenda do Alto na caminhonete dela, dirigindo com um cobertor velho enrolado na cintura e o para-brisa rachado. Nenhum dos dois falou no caminho.

A casa da fazenda era de pedra, antiga, com uma lareira que ocupava uma parede inteira. Ele acendeu o fogo, trouxe uma caixa de primeiros socorros e deixou Helena costurar o próprio braço, porque ela insistiu. Depois ela costurou o ombro dele de novo. Doze pontos. Os mesmos doze.

— Você é muito ruim em manter curativo — disse ela.

— Você é muito ruim em trancar porta.

Pela primeira vez, ele quase sorriu.

Então contou tudo.

As sete famílias da serra: Ferraz, Moura, Toledo, Siqueira, Andrade, Lemos e Brandão. Os sétimos filhos que viravam lobo na lua cheia e guardavam a mata, as nascentes, as araucárias, as pessoas. Um trato feito antes de qualquer um lembrar, com uma coisa que morava na serra e que os velhos chamavam só de a Dona.

— Os Brandão quebraram o trato — disse Caetano. — Há sessenta anos. O pai do Artur descobriu que, se um lobo comesse carne humana, ficava mais forte. Mais velho. Mais difícil de matar. Não envelhecia direito. Não morria com prata comum. Ele começou a comer.

— E ninguém fez nada?

— A sua avó fez.

Helena ficou imóvel.

— A Rosa era a sétima filha dos Moura — continuou Caetano. — Mulher. Isso quase nunca acontece. Quando o sétimo filho é mulher, ela não vira lobo. Ela benze. Ela tem o poder de prender o lobo dentro do homem, ou de soltar. Ela é a única pessoa que pode matar um lobo cinzento de verdade.

— E ela matou?

— Ela prendeu o velho Brandão. Ele morreu como homem, na cama, gritando. Mas o filho dele, o Artur, já tinha sido arranhado. Ela não chegou a tempo de prender os dois. O Artur jurou que ia matar a Rosa e toda a descendência dela. Então ela foi embora com a sua mãe no colo e nunca mais voltou. Mudou de nome. Sumiu.

Helena olhou para o fogo por muito tempo.

— E agora eu voltei.

— E agora você voltou. — Caetano apertou os punhos. — Eu soube no primeiro dia, na padaria. Você tem o cheiro dela. O Artur também sabe. Por isso ele foi à clínica. Por isso ele te atacou hoje.

— Ele queria me matar.

— Não. Se ele quisesse te matar, você estaria morta. — Caetano olhou para o braço enfaixado dela. — Ele queria te arranhar. A sétima filha que vira lobo sob a marca do lobo cinzento pertence a ele. A matilha dele. Obedece a ele. E o sangue dela, na lua certa, faz ele imortal.

O fogo estalou.

— Então eu tenho vinte e oito dias para virar o bicho de estimação de um fazendeiro canibal — disse Helena. — Ótimo. Excelente. Eu devia ter ficado em São Paulo.

— Tem um jeito.

— Qual?

— A Rosa deixou alguma coisa. A Dona Benedita tem certeza. Um caderno, uma reza, alguma coisa. Ela dizia que tinha escondido na casa velha dos Moura, lá na Pedra da Lua, o pico. Ninguém nunca achou. — Caetano se levantou, foi até a janela. A lua estava descendo sobre a serra. — Mas ninguém procurou com o sangue dela.

Helena se levantou também.

— Por que você se importa? Você nem me conhece.

Caetano demorou tanto para responder que ela achou que ele não ia.

— Na noite em que o Artur atirou em mim, eu andei três quilômetros sangrando até a sua clínica — disse ele, sem se virar. — Tinha outras portas no caminho. Eu escolhi a sua. Eu não sei por quê. O lobo sabia.

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