O Que Mora na MataCapítulo 2

Os sapatos na beira da mata

Na primeira noite, nada aconteceu. Nada que desse para gravar, pelo menos.

Júlia acordou às duas da manhã sem saber por quê. Ficou deitada no quarto da avó, na cama de ferro que rangia, olhando para o teto. A casa estava em silêncio. Lá fora, os grilos cantavam, os sapos cantavam, uma coruja piava longe.

Então os grilos pararam.

Todos de uma vez, como se alguém tivesse desligado um interruptor. Depois os sapos. Depois a coruja. Em menos de um minuto, o silêncio lá fora era tão absoluto que Júlia conseguia ouvir o próprio coração.

Na rua, todos os sininhos das portas tocaram ao mesmo tempo. Uma única vez. Sem vento.

Depois, nada.

Ela ficou acordada até o dia clarear.

De manhã, foi até a venda comprar pão. Era a única loja do povoado, e o dono, seu Geraldo, era um homem gordo de uns sessenta anos que olhou para ela como se estivesse vendo uma assombração.

— A senhora é a neta da Conceição.

— Sou.

— Veio vender a casa?

— Vim. E vim gravar um programa. Sobre a lenda daqui.

O rosto do homem fechou como uma porta.

— Não tem lenda nenhuma aqui, moça.

— Seu Geraldo, todas as janelas de trás da cidade estão pregadas.

— É por causa dos morcegos.

— E os sininhos?

— Enfeite.

— E a placa na igreja?

Seu Geraldo colocou o pão no balcão e não disse mais nada. Júlia pagou e saiu.

A placa estava na parede lateral da igreja, de ferro fundido, pintada de branco. As letras eram antigas, de um português com acento que ninguém mais usava: Depois da meia-noite, ninguém assobia. Por ordem do Senhor e para a paz de todos. 1911.

Marcos passou a manhã filmando a placa, os sininhos e as janelas. Danilo ficou em casa montando o equipamento: dois microfones de alta sensibilidade na varanda dos fundos, apontados para a mata, e um gravador digital ligado a noite toda.

À tarde, apareceu um menino.

Uns doze anos, magro, descalço, de camiseta do Cruzeiro. Ficou parado no portão do quintal olhando para os microfones.

— Vocês vão gravar ele?

Júlia se aproximou devagar.

— Ele quem?

O menino olhou para a mata, depois para ela.

— O que mora lá. — Ele baixou a voz. — Minha vó fala que não pode falar o nome. Que ele escuta o nome também. A gente chama só de o Vizinho.

— E o que o Vizinho faz?

— Nada. Se ninguém assobiar, ele não faz nada. Fica lá. — O menino apontou com o queixo. — Mas se alguém assobia depois da meia-noite, ele responde. E aí ele sabe onde a pessoa tá. E aí ele vem buscar.

— Buscar para onde?

O menino deu de ombros. Tinha uma expressão estranhamente adulta para a idade.

— Quer ver onde ficam os que ele buscou?

Ele se chamava Tião. Levou Júlia e Marcos por uma trilha estreita que saía do fundo do quintal de uma casa abandonada e subia uns cinquenta metros pela beira da mata. Parou num lugar onde as árvores começavam a ficar altas e escuras, e apontou.

Na terra, enfileirados com cuidado ao longo da borda da mata, havia sapatos.

Dezenas. Talvez uma centena. Botinas de couro rachado, sandálias de criança, tênis modernos, sapatos de salto, chinelos de dedo. Alguns tão velhos que eram só sola e prego enferrujado. Outros quase novos. Todos arrumados em pares, lado a lado, com as pontas viradas para dentro da mata. Como se os donos tivessem tirado os sapatos ali, com calma, e entrado descalços.

Marcos parou de filmar.

Júlia se ajoelhou perto de um par de tênis de corrida, azuis, com o cadarço ainda amarrado. Pareciam ter menos de um ano.

— De quem é esse?

— De um moço de São Paulo — disse Tião. — Veio no ano passado. Fazia vídeo, que nem vocês.

Júlia olhou para o fim da fila. O último par era uma botina de couro preto, feminina, pequena, muito gasta. Estava separada das outras por um espaço de um palmo, como se alguém tivesse deixado ali um lugar vazio de propósito.

— E aquela?

Tião ficou quieto por muito tempo.

— Aquela é da sua vó — disse ele, finalmente. — Ela não morreu na cama, moça. Ela entrou na mata faz um mês. De madrugada. Sozinha.

Ele apontou o espaço vazio ao lado.

— E ela deixou esse lugar guardado pra alguém.

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