O Que Mora na MataCapítulo 3

Ao vivo

A ideia da transmissão ao vivo foi de Marcos. Júlia devia ter dito não.

— Pensa comigo — disse ele, na terceira noite, com os olhos brilhando de empolgação. — Os sapatos, a placa, o bilhete da sua vó, o menino. É o melhor material que a gente já teve. A gente faz uma live às onze e meia, conta a lenda, mostra tudo, e à meia-noite… a gente espera. Só espera. Silêncio total. Os três na varanda, com os microfones abertos para a mata.

— E se nada acontecer?

— Se nada acontecer, a gente teve uma live com cinquenta mil pessoas assistindo três idiotas sentados no escuro. Ainda assim é conteúdo.

Danilo foi contra. Disse que não gostava daquele lugar, que tinha ouvido coisas no gravador que não sabia explicar, uns estalos, umas respirações. Júlia ouviu as gravações. Eram só barulhos de mata. Provavelmente.

Às onze e meia da noite, a live começou.

Em dez minutos, eram vinte mil pessoas. Em vinte, quarenta mil. Os comentários subiam pela tela mais rápido do que Júlia conseguia ler: que lugar sinistro, mostra os sapatos de novo, eu sou de Minas e minha avó falava disso, ASSOBIA!!!, não assobia pelo amor de deus.

Júlia contou a história com a voz grave do podcast. A placa de 1911. Os sininhos. As janelas pregadas. Os sapatos enfileirados na beira da mata. A botina da avó. O espaço vazio ao lado.

Às onze e cinquenta e oito, ela parou de falar.

— Faltam dois minutos para a meia-noite — sussurrou para a câmera. — A partir de agora, silêncio total.

Os três ficaram sentados na varanda dos fundos, no escuro, com a luz vermelha dos microfones acesa e a mata na frente deles, preta como um buraco.

Meia-noite.

Os grilos pararam.

Júlia sentiu o cabelo da nuca arrepiar. Os sapos pararam. A coruja parou. O silêncio caiu sobre Várzea do Ouro como um lençol.

Na rua, todos os sininhos tocaram ao mesmo tempo.

Os comentários explodiram na tela: VOCÊS OUVIRAM ISSO, SAI DAÍ, É FAKE, MEU DEUS.

E foi aí que Marcos assobiou.

Baixinho. Três notas. Uma melodia boba, a abertura de um desenho animado que os três viam quando eram crianças. Ele olhou para Júlia com um sorriso de moleque, como quem diz relaxa, é brincadeira.

— Marcos! — sibilou Danilo.

— O que foi? Não vai acontecer na…

Da mata, veio a resposta.

Três notas. A mesma melodia. Exatamente a mesma, no mesmo tom, na mesma velocidade. Mas vinha de muito longe, do fundo da escuridão, e tinha alguma coisa errada no som, alguma coisa que Júlia não soube identificar até muito depois: não havia fôlego nele. Era um assobio feito por alguma coisa que não respirava.

Ninguém disse nada. Os comentários pararam de subir. Cinquenta e três mil pessoas estavam em silêncio do outro lado da tela.

O assobio veio de novo. Mais perto. Na borda da mata, onde ficavam os sapatos.

E de novo. No quintal, perto do pé de jabuticaba.

Danilo se levantou devagar.

— Pra dentro. Agora.

Os três correram para dentro da casa. Júlia trancou a porta dos fundos com as mãos tremendo. Marcos, pálido, ainda segurava o celular com a live aberta. Ficaram os três no meio da sala, ofegantes, no escuro, olhando para a porta trancada.

Silêncio.

Um minuto. Dois. Três.

— Acabou? — sussurrou Marcos.

Então, atrás deles, dentro da casa, do corredor que levava aos quartos, alguém assobiou.

As mesmas três notas.

Júlia se virou devagar. O corredor estava escuro. Completamente escuro. Não dava para ver nada.

No relógio de pêndulo da sala, parado havia um mês em meia-noite, o pêndulo começou a balançar sozinho. Tic. Tac.

Danilo acendeu a lanterna do celular e apontou para o corredor. Vazio.

Apontou para Marcos.

Marcos não estava mais lá.

O celular dele estava no chão, no lugar onde ele estava de pé um segundo antes, com a live ainda rodando. E, do lado do celular, arrumados com cuidado, lado a lado, com as pontas viradas para o corredor escuro, estavam os tênis dele.

Na tela da live, os comentários voltaram a subir, frenéticos. Júlia pegou o celular. A câmera ainda filmava a sala. E, no canto da imagem, atrás dela, no fundo do corredor, onde a lanterna de Danilo não alcançava, havia alguém de pé.

Descalço. Imóvel. Com o rosto de Marcos.

E a boca costurada com raízes.

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