O diário da avó Conceição

Quando Danilo virou a lanterna para o fundo do corredor, não havia ninguém lá.
Os dois procuraram Marcos pela casa inteira. Nos quartos, no banheiro, embaixo das camas, dentro dos armários. Abriram a porta dos fundos e gritaram o nome dele para a mata até ficarem roucos. Nada. A live tinha caído sozinha às doze e onze. O último print, que já circulava pelas redes sociais com milhões de visualizações, era aquela imagem borrada no fundo do corredor. Metade da internet dizia que era montagem. A outra metade não dormiu naquela noite.
Às quatro da manhã, alguém bateu na porta da frente.
Era Tião, o menino. Com ele estava uma senhora de uns oitenta anos, de xale preto, apoiada numa bengala de goiabeira.
— Minha vó — disse Tião. — Ela era amiga da sua.
Dona Zilda entrou sem pedir licença, olhou para os tênis de Marcos ainda no chão da sala e fez o sinal da cruz.
— Quem assobiou?
— O Marcos — disse Júlia. — O meu amigo. Ele… ele está vivo?
A velha não respondeu. Foi até o quarto da avó Conceição, com uma familiaridade de quem tinha entrado ali mil vezes, puxou a cama de ferro para longe da parede e levantou uma tábua solta do assoalho. Lá embaixo, embrulhado num pano de prato, havia um caderno de capa dura, preta, grosso como uma Bíblia.
— A Conceição escrevia tudo — disse Dona Zilda. — Ela queria que você lesse. Disse que se você viesse e fizesse besteira, era para eu te entregar isso.
Júlia leu o diário na mesa da cozinha, com Danilo do lado, até o sol nascer.
A primeira página era de 1952. A avó tinha dezoito anos. Contava que, em Várzea do Ouro, desde antes de haver igreja, desde antes de haver ouro, desde quando só havia mata, uma coisa morava lá dentro. Os índios que viviam na região antes dos portugueses já sabiam dela. Não tinha nome. Não tinha forma. Era, nas palavras da avó, uma fome que aprendeu a imitar.
Ela não comia carne. Comia vozes.
Quem entrava na mata e era pego por ela não morria. Ficava. Descalço, de pé entre as árvores, com a boca costurada pelas raízes, para sempre. E a coisa ficava com a voz da pessoa. Usava. Aprendia. Uma voz nova para chamar outras pessoas.
Não podia sair da mata por conta própria. Não sabia onde as pessoas estavam. Era cega, na escuridão dela. A única coisa que podia fazer era escutar. E o som que mais longe chegava, o som que ela ouvia de qualquer lugar do vale, era o assobio.
Quem assobiava de noite dava a ela um caminho. Uma trilha no escuro. Ela seguia o som até a pessoa, e levava.
Os sininhos nas portas eram para confundir. As janelas pregadas eram para que ela não enxergasse as luzes. E a regra, depois da meia-noite, ninguém assobia, era o que mantinha o vale vivo.
Mas havia mais.
Numa página de 1979, com a letra já mais madura, a avó escreveu uma coisa que fez Júlia parar de respirar.
Hoje eu descobri o trato. O padre sabia. O prefeito sabia. Os velhos todos sabiam. A coisa não fica quieta só por causa do silêncio. Fica quieta porque, a cada sete anos, a cidade dá uma voz para ela. Alguém de fora. Alguém que ninguém vai procurar. Eles atraem a pessoa, deixam ela assobiar, e a coisa come e dorme de novo por mais sete anos.
Esse ano, eles escolheram o meu filho.
Júlia virou a página. As mãos tremiam.
Eu não deixei. Mandei o menino embora para Belo Horizonte com dez anos e nunca mais deixei ele voltar. A coisa ficou com fome. Levou três pessoas naquele ano, em vez de uma. O povo nunca me perdoou.
O pai de Júlia. O pai dela tinha sido escolhido.
A última página do diário era de um mês antes. A letra estava quase ilegível.
Faz sete anos de novo. Eles escreveram para a minha neta. Foram eles que mandaram a carta do cartório, não fui eu. Eu não deixei herança nenhuma. Eles querem a voz dela porque ela tem o assobio do pai. A coisa ainda lembra dele. Ainda tem fome dele.
Eu vou entrar na mata hoje à noite. Vou oferecer a minha voz no lugar da dela. Talvez baste. Se não bastar, Júlia, foge. Não assobia. Não confia em ninguém de Várzea do Ouro. Nem na Zilda.
Júlia levantou os olhos do caderno devagar.
Dona Zilda estava de pé na porta da cozinha, olhando para ela. Tião, atrás da avó, segurava um molho de chaves.
— Terminou de ler, minha filha? — perguntou a velha, com uma voz muito doce. — Então agora você entende por que ninguém vai deixar você ir embora.
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