Casamento de Mentira em BotucatuCapítulo 4

Duas famílias, uma mentira

Existem momentos na vida em que o cérebro humano simplesmente desliga. Bia descobriu que o dela desligava durante exatos quatro segundos, e que, nesses quatro segundos, ela ficava parada com um sorriso congelado no rosto, como um manequim de loja.

Léo foi mais rápido.

Levantou-se, contornou a mesa, atravessou o celeiro por cima dos cacos de vidro e abraçou a mãe. Dona Marta chorou no ombro dele como uma criança. Caio se juntou ao abraço. As duas irmãs também. Em dez segundos, havia uma pilha de Duartes chorando no meio do celeiro, e a família de Bia olhava para aquilo sem entender absolutamente nada.

Por cima do ombro da mãe, Léo olhou para Bia. Os olhos dele diziam claramente: confia em mim.

Depois ele se virou para a mesa com um sorriso enorme e a voz mais tranquila do mundo.

— Surpresa! — disse. — Desculpa, gente, a gente queria contar de um jeito mais bonito. Leonardo Rafael Menezes Duarte. Menezes é o sobrenome da minha mãe. No hospital, todo mundo me chama de Rafael, porque tem três Leonardos na cardiologia. A Bia me conheceu como Rafael e nunca mais quis me chamar de outro jeito.

Dona Lurdes ficou de boca aberta. Tia Cida semicerrou os olhos.

— E por que a Bia nunca contou que você era irmão do noivo?

— Porque eu pedi para ela não contar — disse Léo, sem piscar. — Eu estava brigado com a minha família fazia uns anos. Coisa boba, de pai e filho. Eu queria vir fazer as pazes no casamento do meu irmão. Mas queria que fosse surpresa.

Houve um silêncio. Depois, Dona Lurdes levou a mão ao coração e começou a chorar também.

— Que coisa mais linda.

Tia Cida não chorou. Continuou olhando para Léo com os olhos semicerrados durante o resto do jantar.

O problema era que a família Duarte sabia de uma coisa que a família de Bia não sabia: Leonardo nunca tinha feito faculdade de medicina. Tinha largado administração no segundo ano para estudar gastronomia, brigado com o pai por causa disso e ido embora para Portugal havia cinco anos. Ninguém na família tinha notícias dele desde então, além de uns cartões de Natal sem endereço de remetente.

Então, entre o prato principal e a sobremesa, Léo levou Caio para trás do celeiro e explicou tudo. Tudo mesmo: o cardiologista imaginário, os dois anos, o dossiê, o contrato, os dois mil reais.

Caio ouviu com a boca aberta. Depois começou a rir. Riu tanto que teve que se apoiar na parede.

— Você está me dizendo que voltou depois de cinco anos, sem avisar ninguém, para o meu casamento, fingindo ser o namorado médico de mentira da minha cunhada?

— Resumindo, sim.

— Essa é a coisa mais Léo que você já fez na vida. — Caio enxugou os olhos. — Tá. A gente cobre. Eu falo com a mãe e com as meninas.

— E o pai?

O sorriso de Caio murchou.

— O pai não falou nada a noite inteira, Léo. Nem olhou para você. Não sei se ele vai cobrir alguma coisa.

Na volta à mesa, Dona Marta segurou o braço de Dona Lurdes com uma cumplicidade repentina.

— Eu estou tão orgulhosa do meu filho médico — disse ela, piscando para Léo com um exagero que só uma mãe muito emocionada conseguiria. — Sempre foi o meu sonho.

— E a senhora está bem da artrose? — perguntou Dona Lurdes, preocupada. — O Rafael sempre fala que vai visitar a senhora em Ribeirão nos feriados.

Dona Marta não piscou.

— Ah, minha filha, a artrose é uma cruz. — Ela esfregou o joelho com uma careta dramática. — Mas o Leonardo cuida de mim. Ele é um anjo. Eu estava em Ribeirão fazendo tratamento, sabe? Voltei só para o casamento.

Bia enterrou o rosto na taça de vinho para não rir.

Do outro lado da mesa, seu Otávio Duarte, o pai, cortava um pedaço de carne com uma lentidão ameaçadora e não dizia nada.

A crise seguinte veio à meia-noite, quando o casarão da fazenda distribuiu os quartos.

— Bia e Rafael, o quarto azul — disse Nanda, entregando a chave com um sorriso malicioso. — O melhor da casa. Com vista para o lago.

O quarto azul tinha uma cama de casal. Uma. De madeira escura, com dossel e mosquiteiro, dessas de filme de época.

Os dois ficaram parados na porta olhando para ela.

— O contrato não fala nada sobre cama — disse Léo.

— Você dorme no chão.

— O chão é de tábua corrida de cento e vinte anos.

— Então você dorme na banheira.

Ele dormiu na poltrona, com as pernas penduradas para fora, enrolado numa colcha de crochê. Ou fingiu dormir. Porque às duas da manhã, Bia acordou e o ouviu na varanda do quarto, falando baixinho ao telefone.

— Eu sei, Jéssica. Eu sei. — Uma pausa. — Não, eu não posso contar para ela ainda. Se eu contar agora, ela vai me odiar.

Bia ficou imóvel na cama, com o coração disparado, olhando para o mosquiteiro no escuro.

Contar o quê?

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