Domingo

A fumaça das queimadas descia dos canaviais e engolia a rodovia como um lençol sujo. Do quarto 12 do Motel Estrela, dava para ver apenas o letreiro piscando em vermelho, falhando na letra E.
Ela gostava daquele vermelho.
O homem na cama ainda sorria. Tinha passado a noite inteira sorrindo, desde que ela sentou ao lado dele no bar da rodoviária e pediu fogo, mesmo sem ter cigarro. Homens como ele sempre sorriam. Achavam que eram eles que escolhiam.
— Você não é daqui — ele disse, passando os dedos grossos pelo braço dela.
— Não sou de lugar nenhum.
Ela se inclinou devagar, deixou o cabelo escorrer sobre o peito dele e sentiu o coração dele disparar. Era sempre assim. O desejo deixava os homens distraídos, e distraídos eles contavam tudo. Ele já tinha falado da oficina, da esposa que “não entendia ele”, dos filhos que “puxaram a mãe, uns frouxos”. Tinha rido ao contar que a mulher vivia caindo da escada.
— Ela é desastrada — disse, e riu de novo.
Ela também riu. Depois serviu mais vinho nas duas taças e ergueu a dela.
— A nós.
— A nós, gostosa.
Ele bebeu tudo de uma vez. Ela só molhou os lábios.
Quinze minutos depois, o sorriso tinha sumido. Ele tentava falar e a língua não obedecia, tentava levantar e o corpo pesava como saco de cimento. Os olhos dele, arregalados, procuravam os dela.
Ela sentou na beira da cama, calma, e tirou da bolsa uma fita de seda vermelha. Amarrou no pulso dele com um laço perfeito, do jeito que a mãe dela ensinou, muitos anos atrás, para enfeitar os presentes de Natal.
— A escada — ela sussurrou no ouvido dele. — Da próxima vez, lembra da escada.
Mas não haveria próxima vez.
Ela lavou as taças, limpou a maçaneta, desligou a luz. Lá fora, o letreiro continuava piscando.
⁂
— Tia Helena!
Sofia atravessou a sala correndo e se jogou nos braços da tia antes mesmo de ela fechar o portão. Helena riu, equilibrando a travessa de pudim numa mão e a sobrinha na outra.
— Cuidado, pequena, que isso aqui é sagrado.
— É de leite condensado?
— E tem outro jeito?
Da cozinha, Rafael apareceu com o pano de prato no ombro e olheiras fundas. Estava com cara de quem não dormia havia uma semana, porque não dormia mesmo. Helena deu um beijo no rosto dele e passou a mão na barba por fazer.
— Você tá horrível.
— Obrigado, também te amo.
O almoço de domingo era a única coisa que Rafael nunca deixava de lado. Nem o divórcio, nem os plantões, nem o caos da delegacia de Santa Aurora conseguiram acabar com aquilo. Desde que os pais morreram, eram só os dois, e depois veio Sofia. Aquela mesa era a prova de que ele tinha conseguido manter alguma coisa inteira.
Comeram frango assado, arroz e farofa. Sofia contou da escola, Helena contou do santo que estava restaurando para a igreja matriz, um São Miguel tão antigo que a espada caía se alguém respirasse perto. Rafael riu pela primeira vez em dias.
— Você devia sair mais, sabia? — disse Helena, servindo o pudim. — Conhecer alguém.
— Eu conheço gente o tempo todo. Todos presos ou mortos.
— Rafa!
— Tô brincando.
Mas não estava, e ela sabia.
O celular vibrou em cima da mesa. Rafael olhou a tela e o rosto dele mudou, do jeito que Helena conhecia desde que ele era um garoto de quinze anos. Ele atendeu, ouviu calado, disse só “tô indo” e desligou.
— Trabalho? — ela perguntou.
— Um corpo. No Motel Estrela.
Sofia parou com a colher no ar. Helena passou a mão no cabelo dela, calma.
— Vai lá. Eu fico com ela e lavo a louça.
Rafael pegou a chave, a arma, o distintivo. Na porta, Helena o segurou pelo braço e deu um beijo na testa dele, como fazia quando ele era pequeno e tinha pesadelo.
— Se cuida.
— Sempre.
Ela ficou no portão, olhando o carro sumir na fumaça. Depois voltou para dentro, prendeu o cabelo e começou a lavar os pratos, cantarolando baixinho.
⁂
Na viatura, a caminho da rodovia, Rafael perguntou ao investigador de plantão quem era a vítima.
— O Nelsinho, doutor. Da oficina ali da Rua das Palmeiras.
Rafael apertou o volante.
Tinha levado o carro naquela oficina na semana passada. E, três meses antes, tinha registrado na delegacia um boletim de ocorrência da esposa do Nelsinho. Queda da escada.
Ela tinha retirado a queixa no dia seguinte.