O jantar de ensaio

A Fazenda Santa Luzia ficava a vinte minutos do centro de Botucatu, no alto da Cuesta, com uma vista que fazia as pessoas pararem o carro na estrada só para tirar foto. Tinha um casarão branco de janelas verdes, um celeiro reformado com luzinhas penduradas, um lago com patos e uma cachoeira no fundo do terreno onde Nanda ia se casar ao pôr do sol de sábado.
Bia e Léo chegaram na sexta às cinco da tarde, no carro dela, depois de três horas de estrada ensaiando a história do restaurante japonês.
— O camarão estava no guioza — disse Léo pela décima vez. — Eu não sabia. Comecei a ficar vermelho. Você me levou para o pronto-socorro do Hospital Nove de Julho e segurou a minha mão enquanto me davam antialérgico. Foi ali que eu soube.
— Que soube o quê?
— Que você era a mulher da minha vida. — Ele olhou pela janela, muito sério. — Isso é o que eu vou falar se a sua tia perguntar. Mulher mais velha adora história de pronto-socorro.
Bia teve que admitir que era uma boa história. Melhor do que a que ela tinha inventado.
Ele estava estranho desde que pegaram a estrada, porém. Quieto. Olhando muito pela janela. Quando entraram na estrada de terra da fazenda e passaram pela placa de madeira com o nome Santa Luzia — Laticínios Duarte, Léo apertou o apoio de braço do carro com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Tudo bem? — perguntou Bia.
— Enjoo de estrada.
A primeira hora foi um sucesso absoluto.
Dona Lurdes chorou quando conheceu o genro. Abraçou Léo por dois minutos inteiros e disse que ele era ainda mais bonito do que ela imaginava. Tia Cida o interrogou por meia hora sobre artrose e saiu convencida. O pai de Bia, seu Aurélio, homem de poucas palavras, apertou a mão dele, perguntou do Palmeiras e, quando Léo respondeu com a escalação completa de 1993, disse esse serve, que era o maior elogio que ele já tinha dado a alguém.
Nanda olhou para a irmã do outro lado da varanda e fez com a boca, sem som: ONDE VOCÊ ESCONDEU ESSE HOMEM?
Bia quase acreditou que ia dar certo.
O jantar de ensaio foi no celeiro, às oito. Uma mesa comprida de madeira rústica, com toalha de linho, velas, flores do campo e quarenta lugares. A família da noiva de um lado. A família do noivo do outro. O noivo, Caio, era um rapaz alto, gentil e meio desajeitado, que Bia adorava porque ele olhava para Nanda como se ela fosse a única coisa acesa numa sala escura.
A família de Caio ainda não tinha chegado. Estavam atrasados, vindo da cidade.
E o Guto tinha chegado.
Bia o viu na entrada do celeiro. Camisa social apertada demais, óculos escuros no alto da cabeça mesmo sendo noite, e pendurada no braço dele uma loira de vestido branco (branco, num casamento), com o rosto perfeito e o celular filmando tudo em volta.
— É ele? — sussurrou Léo no ouvido dela.
— É ele.
— E aquela de branco num casamento é a moça do pilates?
— A própria.
Léo pegou a mão de Bia por baixo da mesa. Entrelaçou os dedos nos dela. Foi um gesto pequeno, previsto na cláusula terceira do contrato. Mas a mão dele era quente e firme, e Bia sentiu uma coisa esquisita no estômago que não estava prevista em cláusula nenhuma.
Guto os viu. Veio até a mesa com um sorriso enorme.
— Bia! Quanto tempo. Essa é a Kelly. Kelly, essa é a Bia, a gente namorou uns tempos. — Ele olhou para Léo. — E você é o famoso médico?
Léo se levantou, sem soltar a mão de Bia, e estendeu a outra.
— Rafael Menezes. Cardiologista. E você deve ser o cara que deixou ela ir embora. — Ele apertou a mão de Guto com força. — Obrigado. Sério. Do fundo do coração. E olha que eu entendo de coração.
Tia Cida engasgou com o vinho. Nanda escondeu o rosto no guardanapo. Guto ficou vermelho como um pimentão e voltou para o lugar dele sem dizer mais nada.
Bia olhou para Léo, que se sentou de novo com a maior calma do mundo e pegou o garfo.
— Isso não estava no dossiê — sussurrou ela.
— Eu improviso bem.
Ela estava rindo quando a porta do celeiro se abriu e a família do noivo entrou.
Na frente, um homem grisalho e forte, de chapéu de feltro. Atrás dele, duas moças jovens, irmãs de Caio. E, por último, uma senhora pequena de uns sessenta anos, de vestido azul-marinho e colar de pérolas, com uma taça de vinho na mão que alguém tinha acabado de lhe entregar na entrada.
Dona Marta Duarte. A mãe do noivo.
Ela sorriu para a mesa, cumprimentou Dona Lurdes de longe, olhou para os convidados um por um. E então os olhos dela pararam em Léo.
A taça escorregou da mão dela. Espatifou-se no chão de madeira do celeiro, espirrando vinho tinto até a toalha de linho.
O celeiro inteiro ficou em silêncio.
Léo tinha soltado a mão de Bia. Estava imóvel, pálido, com o garfo parado a meio caminho da boca.
Dona Marta deu um passo à frente. Depois outro. Com a mão no peito e os olhos cheios de lágrimas.
— Leonardo? — disse ela, com a voz quebrada. — Meu filho? Você voltou?
Bia olhou para a mãe do noivo. Olhou para Léo. Olhou para Caio, na cabeceira da mesa, que tinha ficado de pé e estava com a boca aberta.
— Léo? — disse o noivo. — Você… você veio para o meu casamento?
E, do outro lado da mesa, com a voz mais alta do que qualquer outra, a tia Cida perguntou o que todo mundo estava pensando:
— Peraí. O Rafael é o irmão do noivo?
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