Casamento de Mentira em BotucatuCapítulo 2

O contrato

Encontraram-se numa padaria na Vila Madalena, numa quarta-feira à noite. Bia chegou quinze minutos antes, com uma pasta de plástico cheia de papéis e um bloco de anotações. Léo chegou quinze minutos depois, de jaqueta de couro, com o cabelo molhado de quem tinha acabado de sair do banho e um capacete de moto debaixo do braço.

— Você é a Beatriz — disse ele, sentando-se. — A que inventou um cardiologista.

— Bia. E eu não inventei, eu… tá, eu inventei.

Ele sorriu. Era o sorriso da foto, só que pior, porque ao vivo tinha covinhas.

— A Jéssica me contou. Dois anos. Flores no Dia das Mães. Alergia a camarão. — Ele pegou o cardápio. — Isso é quase uma obra de arte, sabia?

— Você vai me ajudar ou vai rir de mim?

— As duas coisas. Uma não impede a outra.

Bia abriu a pasta de plástico.

— Eu preparei um dossiê.

Tinha doze páginas. A biografia completa de Rafael Menezes: data de nascimento, faculdade (USP de Ribeirão Preto), residência (Incor), time do coração, comida favorita, nome da mãe doente, nome do cachorro que ele teve na infância (Bolacha). A história de como os dois se conheceram (num congresso de marketing farmacêutico em Campinas). O primeiro encontro (um restaurante japonês na Liberdade, onde ele passou mal por causa do camarão, o que explicava a alergia). A lista de presentes que ele supostamente tinha dado para ela. E uma página inteira de termos médicos básicos de cardiologia com a pronúncia correta.

Léo leu tudo em silêncio. Depois fechou a pasta e olhou para ela com uma expressão muito séria.

— O Bolacha morreu de quê?

— O quê?

— O cachorro. Se alguém perguntar. Eu preciso saber como o Bolacha morreu.

Bia ficou olhando para ele. Ele estava falando sério.

— Velhice — disse ela. — Aos dezesseis anos. Dormindo.

— Que bom. Ele teve uma vida longa. — Léo fez uma anotação no dossiê. — Próxima pergunta. Por que eu nunca fui a nenhum evento em dois anos?

— Plantões. E a sua mãe doente em Ribeirão.

— O que ela tem?

— Eu nunca especifiquei.

— Isso é um furo. Sua mãe vai perguntar. Mãe sempre pergunta. — Ele pensou. — Artrose. É crônico, não mata, não é contagioso e explica por que eu vou lá todo feriado. Ninguém faz perguntas sobre artrose.

Bia estava impressionada contra a própria vontade.

Passaram duas horas na padaria. Léo fez perguntas que ela nunca tinha pensado. Como ela gostava do café. Qual lado da cama ela dormia. Qual era o apelido que ele usava para ela. (Nenhum, disse Bia. Então vai ser Bia mesmo, disse ele, apelido é coisa de casal inseguro.) Ensaiaram a história do primeiro encontro até ele contar melhor do que ela.

No final, Bia tirou da pasta a última folha.

— O contrato.

Léo levantou as sobrancelhas.

— Você fez um contrato.

— Eu sou de marketing. Eu faço contrato para tudo.

Ele leu em voz alta:

— Cláusula primeira: o contratado se compromete a interpretar o personagem Rafael Menezes durante os dias 14, 15 e 16 de novembro, na Fazenda Santa Luzia, em Botucatu. Cláusula segunda: o pagamento será de dois mil reais, sendo metade adiantado e metade após o evento. Cláusula terceira: contato físico limitado a mãos dadas, abraços e, em caso de extrema necessidade, beijo no rosto. Cláusula quarta: é proibido se apaixonar.

Ele parou e olhou para ela.

— Cláusula quarta?

— É brincadeira. Eu vi num filme.

— É proibido para mim ou para você?

Bia sentiu o rosto esquentar.

— Para os dois.

Léo pegou a caneta, assinou e empurrou o papel de volta para ela.

— Combinado. Mas eu tenho uma condição.

— Qual?

— Eu preciso saber o nome do noivo. E da família dele. Para não passar vergonha.

Bia pegou o celular e procurou o convite.

— O noivo é o Caio. Caio Duarte. A família dele é de Botucatu mesmo, eles têm uma empresa de laticínios. A fazenda é deles. — Ela olhou para cima. — Por quê?

Léo não respondeu na hora. Estava olhando para a tela do celular dela, para a foto do convite, com uma expressão estranha. Por um segundo, o sorriso torto sumiu completamente.

— Nada — disse ele, devolvendo o celular. — Nome bonito.

Bia não percebeu nada. Estava ocupada demais guardando o contrato na pasta.

Devia ter percebido.

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