O cardiologista que não existe

Tudo começou com um jantar de Natal e uma pergunta que Bia não aguentava mais ouvir.
— E aí, Beatriz? Nenhum namorado ainda?
Era a tia Cida, com a boca cheia de farofa, na frente de vinte e três parentes. Bia tinha vinte e sete anos na época, acabava de ser promovida a coordenadora de marketing numa empresa de cosméticos em São Paulo e tinha terminado um namoro de quatro anos três meses antes. O ex, Guto, a tinha trocado por uma influenciadora de pilates com dois milhões de seguidores e um cachorro que tinha perfil próprio no Instagram.
Então Bia fez o que qualquer pessoa emocionalmente estável faria. Mentiu.
— Tenho sim, tia. Ele é médico.
A mesa inteira ficou em silêncio. A mãe de Bia, Dona Lurdes, deixou cair o garfo.
— Médico de quê? — perguntou a tia Cida.
— Cardiologista — disse Bia, porque foi a primeira especialidade que veio à cabeça, e porque o coração dela estava disparado.
— E como ele chama?
Bia olhou em volta, desesperada. Na televisão da sala, passava uma novela com um galã chamado Rafael.
— Rafael.
Isso tinha sido dois anos antes.
Desde então, Rafael tinha ganhado vida própria. Tinha um sobrenome, Menezes, e uma cidade natal, Ribeirão Preto. Tinha plantões no Incor que o impediam de ir a todos os aniversários, almoços de domingo e batizados. Tinha mandado flores para Dona Lurdes no Dia das Mães (Bia pagou oitenta e cinco reais). Tinha uma alergia a camarão, uma paixão pelo Palmeiras e uma mãe doente em Ribeirão que ocupava todos os feriados.
Rafael era o genro perfeito. O único problema era que ele não existia.
E agora a irmã caçula de Bia, a Nanda, ia se casar.
— Numa fazenda em Botucatu — disse Nanda, ao telefone, com a voz de quem tinha ganhado na loteria. — Com cerimônia no pôr do sol, perto da cachoeira, e festa no celeiro. Três dias, Bia. Sexta, sábado e domingo. A família do Caio inteira vai estar lá. E o Rafael vai, né? Ele não pode perder.
— Ele tem plantão.
— Bia. Ele tem plantão faz dois anos. A mãe já está achando que ele é casado e tem outra família. A tia Cida está achando que ele é imaginário.
Bia engoliu em seco. A tia Cida estava certa.
— Eu vou ver com ele.
— E Bia… — Nanda hesitou. — O Guto confirmou presença.
Bia quase deixou o celular cair na sopa.
— O quê?
— Ele é colega de faculdade do Caio. Eu não consegui tirar ele da lista. E ele vai com a… a moça do pilates.
Naquela noite, Bia ficou sentada no sofá do apartamento em Pinheiros, abraçada numa almofada, fazendo as contas da vergonha. Três dias numa fazenda em Botucatu. A família inteira. O ex e a influenciadora. E nenhum Rafael.
Ou ela contava a verdade, ou arrumava um cardiologista.
Na segunda-feira, na hora do almoço, confessou tudo para a Jéssica, a colega de mesa do lado. Jéssica ouviu a história inteira com os olhos arregalados e, no final, em vez de rir, bateu na mesa.
— Eu tenho a solução.
— Não tem.
— Tenho. O Léo. Ele dividiu apartamento com o meu irmão por três anos, é praticamente da família. — Jéssica pegou o celular e mostrou uma foto. — Trinta e dois anos, bonito, educado, fala bem, sabe usar talher. Está precisando de dinheiro. Ele topa qualquer bico.
Bia olhou para a foto. O homem da tela tinha cabelo escuro bagunçado, barba curta, olhos castanhos e um sorriso torto de quem sabe exatamente o efeito que causa.
— Ele é médico?
— Ele é… — Jéssica fez uma careta. — Sei lá o que ele faz direito, ele é meio fechado sobre a vida dele. Sei que é chef de cozinha. Ou era. Agora está entre empregos.
— Jéssica, a minha mãe vai perguntar sobre o coração dela. Ela tem pressão alta. Ela vai querer uma consulta no meio da festa.
— Ele aprende. Ele é muito inteligente. — Jéssica sorriu. — E, Bia, pensa bem. O Guto vai estar lá. Com a moça do pilates. Você quer chegar sozinha?
Bia olhou para a foto de novo.
O sorriso torto olhou de volta para ela.
— Quanto ele cobra?
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