A fita

O quarto 12 cheirava a vinho barato, desinfetante e alguma coisa doce que Rafael não conseguiu identificar.
Nelson Aparecido, o Nelsinho, estava deitado de costas, os olhos abertos para o teto espelhado. Parecia dormir, se não fosse aquele olhar. No pulso esquerdo, uma fita de seda vermelha, amarrada num laço tão bonito que parecia coisa de loja.
— Nenhum sinal de luta — disse o doutor Wagner, o perito, já tirando as luvas. — Nenhuma marca, nenhum ferimento. As taças foram lavadas. A maçaneta, limpa. Quem fez isso tinha tempo e sabia o que estava fazendo.
— Overdose? Coração?
— Só o laboratório vai dizer. Mas ninguém amarra uma fita dessas num homem que morreu do coração, Moreno.
Rafael se abaixou perto do pulso. Aquele laço mexeu com alguma coisa na memória dele. Uma coisa antiga e distante.
— E esse cheiro?
Wagner fungou o ar.
— Lírio. Perfume, talvez. Não era dele, isso eu garanto.
Na recepção, o funcionário do motel, um rapaz magro de boné, repetiu a mesma história três vezes. O carro chegou por volta da meia-noite, o próprio Nelsinho dirigindo. Tinha alguém no banco do carona, mas com o vidro fumê e a fumaça da queimada, ele não viu nada. O pagamento foi em dinheiro. De madrugada, o carro continuava lá, e ninguém saiu.
— Ninguém saiu pela portaria — corrigiu Rafael.
O rapaz deu de ombros. Atrás do motel havia só um muro baixo e um canavial inteiro.
⁂
Foi no caminho de volta que a lembrança veio, como um soco.
Três meses antes, Aurélio Batista, dono da maior revenda de máquinas agrícolas da região, tinha morrido numa pousada perto do rio. Sessenta anos, rico, amigo do prefeito. O laudo disse infarto. A família quis enterro rápido e sem barulho, e o delegado Almeida ficou feliz em dar isso a eles.
Rafael tinha visto as fotos do quarto. E numa delas, quase escondida debaixo do lençol, tinha uma fita vermelha no pulso do morto.
Na época, ninguém achou importante. Um presente da amante, disseram. Um fetiche de velho.
Ele entrou na sala de Almeida sem bater.
— Preciso reabrir o caso do Aurélio Batista.
O delegado nem tirou os olhos do computador.
— O Aurélio morreu do coração, Moreno.
— O Aurélio morreu com uma fita vermelha no pulso. Igualzinha à do Nelsinho.
Agora Almeida olhou.
— Você sabe que ano é esse? Ano de eleição. O prefeito era padrinho do filho do Aurélio. Se você sair falando em assassino em série numa cidade de setenta mil habitantes, eu vou ter a imprensa de São Paulo inteira aqui dentro.
— Então é melhor a gente pegar ele antes.
Almeida suspirou, pegou o telefone e fez uma ligação curta. Quando desligou, estava com um sorriso que Rafael não gostou.
— A Seccional vai mandar alguém de fora pra te ajudar. Chega amanhã cedo.
⁂
Luana Ribeiro chegou às sete da manhã, com um café na mão e uma pasta debaixo do braço. Tinha uns vinte e nove anos, cabelo preso num coque apressado e o olhar de quem já tinha lido o caso inteiro no caminho.
— Então você é o Moreno.
— E você é a babá que mandaram pra me vigiar.
Ela não sorriu.
— Eu sou a pessoa que vai te ajudar a não perder esse caso. Mas se preferir, posso voltar pra Campinas e deixar o Almeida enterrar tudo de novo.
Rafael ficou calado. Ela sentou na frente dele e abriu as fotos do quarto 12 na mesa.
— Sem luta, sem arrombamento, taças lavadas. Isso não é um estranho que invadiu o quarto. — Ela bateu o dedo na foto do Nelsinho. — Ele confiava em quem estava com ele. Ele levou essa pessoa até lá.
— Uma amante.
— Ou alguém que ele achou que ia ser. — Luana puxou outra foto, do Aurélio. — E o laço é igual. Mesma técnica, mesmo tamanho de ponta. Isso não é um assassino qualquer, Moreno.
Ela levantou os olhos.
— É um colecionador.
⁂
Naquela noite, Rafael chegou em casa depois das onze. Jogou a pasta do caso em cima da mesa da cozinha, ao lado do boletim antigo da esposa do Nelsinho, e sentou no escuro.
O celular vibrou. Uma mensagem de Helena.
Chegou bem? Deixei marmita na geladeira. Come e dorme, Rafa. Você não vai salvar o mundo sem dormir.
Ele sorriu, cansado, e respondeu com um coração.
Depois ficou olhando a pasta aberta por muito tempo, sem saber que não era o único que ia ler aquelas páginas.