Sangue do Meu SangueCapítulo 3

O que as mulheres contam

Toda quarta-feira à noite, o salão paroquial da matriz ficava com as cadeiras em roda e um cheiro de café coado.

Ela chegou cedo, como sempre. Ajudou a arrumar os biscoitos no prato e esperou.

As mulheres foram chegando aos poucos. A enfermeira Joana, ainda de uniforme do posto de saúde. Dona Célia, que coordenava o grupo desde que o marido morreu. Duas senhoras que vinham mais pelo café do que pela conversa. E Rosângela, que sentou na cadeira mais perto da porta, com o braço esquerdo enfaixado até o cotovelo.

Ela conhecia aquele jeito de sentar. Perto da porta, com a bolsa no colo, pronta para fugir.

— Quem quiser falar, o espaço é de vocês — disse Dona Célia.

Por muito tempo, ninguém falou. Depois Rosângela começou, tão baixinho que todas precisaram se inclinar.

— Ele não é ruim. Só quando bebe. Ele trabalha muito, dirige caminhão da usina a noite toda, chega cansado. E eu às vezes falo demais.

— E o braço? — perguntou Joana, com cuidado.

Rosângela puxou a manga para baixo.

— Escorreguei no quintal.

Ninguém acreditou. Ninguém disse nada.

Ela serviu um café para Rosângela e colocou a mão no ombro dela, com delicadeza. Sentiu a mulher tremer debaixo dos dedos.

— Qual o nome dele? — perguntou, como quem pergunta por perguntar.

— Valdir.

Ela guardou o nome. Guardava todos.

⁂

Mais tarde naquela semana, numa cozinha escura, ela encontrou uma pasta aberta em cima da mesa. Folheou com calma, página por página, ouvindo o ronco que vinha do sofá da sala.

Estava lá. Um boletim de ocorrência de dois meses antes. Rosângela Souza. Lesão corporal. Autor: Valdir Souza, motorista.

Retirado a pedido da vítima.

Ela fechou a pasta exatamente do jeito que estava e saiu sem fazer barulho.

⁂

Na sexta, Valdir encostou o caminhão no posto da rodovia e foi até o bar tomar a saideira. Nem percebeu quando ela sentou do lado.

Não demorou. Nunca demorava. Uma risada no momento certo, um toque no joelho, um olhar que prometia uma noite que ele não teria em casa. Em meia hora, os dois estavam num quarto da Pousada Beira-Rio, e Valdir tirava a camisa com pressa, falando da esposa que “vivia de cara feia”.

Ela deixou que ele a beijasse no pescoço. Deixou que ele acreditasse.

Depois serviu o vinho.

Quando terminou, amarrou a fita vermelha com o laço perfeito. Pegou o celular dele, que ainda estava desbloqueado em cima do criado-mudo, e digitou uma mensagem para um número salvo na cabeça dela havia anos.

Apertou enviar e deixou o celular exatamente onde estava.

⁂

O corpo foi encontrado no sábado de manhã, pela camareira.

Rafael chegou à Pousada Beira-Rio com o estômago virado. Luana já estava lá, agachada ao lado da cama, olhando a fita.

— Terceiro — disse ela.

— O Almeida vai querer o Diego — respondeu Rafael. Diego Farias, o barman do clube, ex-presidiário, tinha sido visto discutindo com o Nelsinho na semana anterior. O delegado já falava dele como culpado.

— O Diego está preso desde quinta à noite. Briga de bar. Passou a noite de ontem na cela.

Rafael passou as mãos no rosto.

Luana ficou em silêncio por um tempo, olhando o quarto. As taças lavadas. O perfume doce no ar.

— Moreno — ela disse, bem baixo. — E se não for um homem?

Ele riu, sem vontade.

— Uma mulher? Três homens adultos, sem luta nenhuma?

— Exatamente por isso. Sem luta nenhuma.

Antes que ele pudesse responder, o saco de provas em cima da mesa vibrou. Era o celular de Valdir.

Luana pegou com as luvas e virou a tela para ele. Uma mensagem tinha sido enviada daquele aparelho às três e quarenta da manhã. Duas horas depois da morte, segundo o perito.

O destinatário era o número pessoal de Rafael. O celular dele, no bolso, ainda estava no silencioso.

Ele puxou o aparelho com as mãos tremendo e leu.

Diga ao investigador Moreno que eu mandei um beijo.