O homem do ombro ferido

Helena passou a manhã inteira tentando se convencer de que tinha sonhado.
Tinha a bala de prata num pote de vidro em cima da mesa. Tinha o curativo rasgado. Tinha as pegadas no quintal, que ela fotografou vinte vezes antes de a chuva fina apagar tudo. Mesmo assim, a cada hora, a explicação mais sensata parecia ser que ela estava ficando louca.
Na hora do almoço, foi até a padaria. Precisava de café e de gente.
A padaria estava cheia de trabalhadores das fazendas, de chapéu e bota suja de barro, e o assunto era o mesmo em todas as mesas: alguém tinha atirado na mata na noite anterior. Três tiros, perto da fazenda dos Brandão.
— Caçador de fora — disse um. — Veio atrás de onça.
— Não tem onça aqui faz trinta anos — disse outro.
— Então veio atrás do quê?
Ninguém respondeu. Um silêncio desconfortável caiu sobre o balcão. Foi aí que a porta abriu e o homem entrou.
Alto, moreno, com barba de alguns dias e um casaco de lã grossa. Tinha trinta e poucos anos e o jeito de quem não fala muito porque não gosta de desperdiçar palavras. Os trabalhadores cumprimentaram com um aceno de cabeça. Um deles tirou o chapéu.
— Seu Caetano.
O homem pediu um café e um pão de queijo. Pagou com o braço esquerdo. O direito ficou colado ao corpo, rígido, e quando ele se virou para pegar o troco, Helena viu: por baixo da gola do casaco, no ombro direito, havia uma faixa branca de curativo.
Exatamente onde ela tinha dado os doze pontos.
Ele sentiu que estava sendo olhado. Virou a cabeça. E os olhos dele, castanhos e comuns à luz do dia, encontraram os dela.
Por um segundo, só um, Helena jurou ter visto um brilho amarelo passar por eles, como o reflexo de uma lanterna.
— A senhora é a doutora nova — disse ele.
— Helena.
— Caetano Ferraz. Tenho umas vacas lá em cima, na Fazenda do Alto. — Ele fez uma pausa. — Obrigado.
— Pelo quê?
Caetano pegou o café e o pão de queijo e foi embora sem responder.
Helena ficou olhando para a porta por muito tempo.
À tarde, foi até o armazém de Dona Benedita. A velha estava sozinha, contando moedas atrás do balcão.
— A senhora me disse para trancar a porta — disse Helena. — Eu não tranquei.
Dona Benedita parou de contar.
— E o que foi que bateu?
— Um lobo. Preto. Ferido com uma bala de prata. — Helena colocou o pote de vidro em cima do balcão. — E hoje de manhã o Caetano Ferraz apareceu na padaria com o ombro enfaixado no mesmo lugar.
A velha olhou para a bala por um longo tempo. Depois fechou o armazém, embora fossem só quatro da tarde, e levou Helena para a cozinha dos fundos, onde havia um fogão a lenha aceso e uma imagem de São Jorge na parede.
— A senhora já ouviu falar do lobisomem, doutora?
— Sétimo filho homem, vira bicho em noite de sexta, some com as galinhas. — Helena tentou sorrir. — Minha babá contava.
— A sua babá contava a versão para criança. — Dona Benedita serviu café num copo americano. — Aqui na serra tem sete famílias antigas. Desde antes da estrada, antes da igreja, antes de ter nome no mapa. Em cada geração, em cada uma dessas famílias, nasce um. O sétimo filho. Eles viram na lua cheia. Não é maldição, como os padres dizem. É um trato.
— Um trato com quem?
— Com a serra. Eles cuidam da mata, e a mata cuida da gente. Os lobos da Mantiqueira nunca comeram gente, doutora. Nunca. Eles protegem. É por isso que ninguém aqui fala nada.
Helena olhou para a bala de prata.
— E quem atirou nele?
A velha demorou a responder.
— Tem um lobo que não é da serra. Um lobo cinzento. Ele come. — Ela cruzou os braços. — E ele tem dinheiro, doutora. Tem muito dinheiro.
Antes de sair, Helena parou na frente de uma parede cheia de fotografias antigas, em preto e branco, de festas de santo e procissões. Numa delas, de uns sessenta anos antes, sete moças posavam na frente da igreja com vestidos de chita. A do meio tinha o rosto de Helena. Exatamente o rosto de Helena.
Embaixo, alguém tinha escrito a lápis: Rosa, a sétima filha.
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