DráculaCapítulo 2

Capítulo 2

DIÁRIO DE JONATHAN HARKER (continuação)

5 de maio. — Devo ter adormecido, pois, se estivesse plenamente acordado, certamente teria notado a aproximação de um lugar tão notável. Na penumbra, o pátio parecia ter um tamanho considerável e, como vários caminhos escuros partiam dele sob grandes arcos redondos, talvez parecesse maior do que realmente é. Ainda não pude vê-lo à luz do dia.

Quando a caleche parou, o cocheiro saltou e estendeu a mão para me ajudar a descer. De novo não pude deixar de notar sua força prodigiosa. Sua mão parecia de fato um torno de aço, que poderia ter esmagado a minha se ele quisesse. Então tirou a minha bagagem e colocou-a no chão a meu lado, enquanto eu permanecia junto a uma grande porta, antiga e cravejada de grandes pregos de ferro, encaixada num portal saliente de pedra maciça. Mesmo na luz fraca, pude ver que a pedra era ricamente esculpida, mas que a escultura fora muito desgastada pelo tempo e pelas intempéries. Enquanto eu ali estava, o cocheiro saltou de novo para o seu assento e sacudiu as rédeas; os cavalos arrancaram, e carro e tudo desapareceram por uma das aberturas escuras.

Fiquei em silêncio onde estava, pois não sabia o que fazer. Não havia sinal de sineta ou aldrava; e não era provável que minha voz conseguisse atravessar aquelas paredes ameaçadoras e aquelas janelas escuras. O tempo que esperei pareceu interminável, e senti dúvidas e temores se acumularem sobre mim. A que espécie de lugar eu viera, e para o meio de que espécie de gente? Em que tipo de aventura sinistra eu me lançara? Seria aquele um incidente habitual na vida de um auxiliar de advogado enviado para explicar a um estrangeiro a compra de uma propriedade em Londres? Auxiliar de advogado! Mina não gostaria disso. Advogado — pois, pouco antes de deixar Londres, recebi a notícia de que fora aprovado no exame; e agora sou advogado feito e completo! Comecei a esfregar os olhos e a me beliscar para ver se estava acordado. Tudo aquilo me parecia um pesadelo horrível, e eu esperava acordar de repente e me ver em casa, com a aurora lutando para entrar pelas janelas, como já me acontecera vez ou outra pela manhã depois de um dia de trabalho excessivo. Mas minha carne respondeu ao teste do beliscão, e meus olhos não se deixavam enganar. Eu estava de fato acordado e nos Cárpatos. Tudo o que podia fazer agora era ter paciência e esperar a chegada da manhã.

Mal chegara a essa conclusão, ouvi um passo pesado aproximando-se por trás da grande porta e vi pelas frestas o brilho de uma luz que vinha. Então se ouviu o tinir de correntes e o estrépito de ferrolhos maciços sendo puxados. Uma chave girou com o rangido alto de quem há muito não era usada, e a grande porta se abriu.

Lá dentro estava um homem alto e velho, de rosto barbeado, exceto por um longo bigode branco, e vestido de preto da cabeça aos pés, sem uma única nota de cor em parte alguma. Trazia na mão uma antiga lamparina de prata, cuja chama ardia sem chaminé nem globo de espécie alguma, lançando longas sombras trêmulas enquanto bruxuleava na corrente de ar da porta aberta. O velho convidou-me a entrar com um gesto cortês da mão direita, dizendo num inglês excelente, mas com uma entonação estranha:

— Bem-vindo à minha casa! Entre livremente e por sua própria vontade!

Não fez nenhum movimento para vir ao meu encontro, mas ficou parado como uma estátua, como se o gesto de boas-vindas o tivesse petrificado. No instante, porém, em que transpus a soleira, ele avançou impulsivamente e, estendendo a mão, apertou a minha com uma força que me fez estremecer, efeito que não foi atenuado pelo fato de ela parecer fria como gelo — mais a mão de um morto do que a de um vivo. De novo ele disse:

— Bem-vindo à minha casa. Venha livremente. Vá em segurança; e deixe algo da felicidade que traz!

A força do aperto de mão era tão semelhante à que eu notara no cocheiro, cujo rosto não tinha visto, que por um momento duvidei de que não fosse a mesma pessoa com quem eu falava; assim, para me certificar, perguntei:

— O conde Drácula?

Ele se inclinou com cortesia ao responder:

— Eu sou Drácula; e dou-lhe as boas-vindas à minha casa, sr. Harker. Entre; o ar da noite está frio, e o senhor deve estar precisando comer e descansar.

Enquanto falava, pôs a lamparina num suporte na parede e, saindo, pegou minha bagagem; levou-a para dentro antes que eu pudesse impedi-lo. Protestei, mas ele insistiu:

— Não, senhor, o senhor é meu hóspede. É tarde, e minha criadagem não está disponível. Deixe que eu mesmo cuide do seu conforto.

Fez questão de carregar minha bagagem pelo corredor, depois por uma grande escada em caracol e ao longo de outro grande corredor, em cujo piso de pedra nossos passos ressoavam pesadamente. No fim deste, abriu de par em par uma porta pesada, e alegrei-me ao ver lá dentro um aposento bem iluminado, onde havia uma mesa posta para a ceia e em cuja enorme lareira um grande fogo de lenha, recém-alimentado, ardia e crepitava.

O conde parou, depôs minhas malas, fechou a porta e, atravessando o aposento, abriu outra porta, que dava para um pequeno cômodo octogonal iluminado por uma única lamparina e aparentemente sem janela de espécie alguma. Atravessando-o, abriu mais uma porta e fez sinal para que eu entrasse. Foi uma visão bem-vinda; pois ali havia um grande quarto de dormir bem iluminado e aquecido por outro fogo de lenha — também alimentado havia pouco, pois as achas de cima estavam frescas —, que mandava um ronco cavo para o alto da larga chaminé. O próprio conde deixou minha bagagem lá dentro e retirou-se, dizendo, antes de fechar a porta:

— Depois da viagem, o senhor há de querer refrescar-se e fazer sua toalete. Espero que encontre tudo o que deseja. Quando estiver pronto, venha à outra sala, onde encontrará sua ceia preparada.

A luz, o calor e a acolhida cortês do conde pareciam ter dissipado todas as minhas dúvidas e temores. Tendo então voltado ao meu estado normal, descobri que estava meio morto de fome; assim, depois de uma toalete apressada, fui à outra sala.

Encontrei a ceia já servida. Meu anfitrião, que estava de pé a um lado da grande lareira, encostado na cantaria, fez um gracioso aceno de mão em direção à mesa e disse:

— Peço-lhe, sente-se e coma à vontade. O senhor há de me desculpar, espero, por não lhe fazer companhia; mas já jantei, e não costumo cear.

Entreguei-lhe a carta lacrada que o sr. Hawkins me confiara. Ele a abriu e leu-a com gravidade; depois, com um sorriso encantador, passou-a a mim para que eu a lesse. Uma passagem dela, pelo menos, me deu um frêmito de prazer:

“Lamento que um ataque de gota, mal de que sofro constantemente, me proíba de modo absoluto qualquer viagem por algum tempo; mas tenho o prazer de dizer que posso enviar um substituto à altura, alguém em quem deposito toda a confiança possível. É um rapaz cheio de energia e talento a seu modo, e de índole muito leal. É discreto e calado, e tornou-se homem a meu serviço. Estará pronto a atendê-lo quando o senhor quiser durante sua estada, e receberá suas instruções em todos os assuntos.”

O próprio conde se aproximou e tirou a tampa de uma travessa, e lancei-me de imediato sobre um excelente frango assado. Isso, com um pouco de queijo, uma salada e uma garrafa de velho Tokay, do qual tomei duas taças, foi a minha ceia. Enquanto eu comia, o conde me fez muitas perguntas sobre a viagem, e eu lhe contei aos poucos tudo o que havia vivido.

Àquela altura eu já terminara a ceia e, a pedido do meu anfitrião, puxara uma cadeira para junto do fogo e começara a fumar um charuto que ele me oferecera, desculpando-se ao mesmo tempo por não fumar. Tive então a oportunidade de observá-lo e achei-o de uma fisionomia muito marcante.

Seu rosto era fortemente — muito fortemente — aquilino, com o dorso do nariz fino bem alto e narinas de curvatura peculiar; a testa era alta e abaulada, e o cabelo crescia ralo nas têmporas, mas abundante no resto. As sobrancelhas eram muito espessas, quase se encontrando sobre o nariz, com pelos hirsutos que pareciam encaracolar-se na própria profusão. A boca, até onde eu podia vê-la sob o bigode espesso, era rígida e de aspecto um tanto cruel, com dentes brancos singularmente afiados, que se projetavam sobre os lábios, cujo vermelho notável revelava uma vitalidade espantosa num homem da sua idade. Quanto ao resto, as orelhas eram pálidas e extremamente pontudas no alto; o queixo era largo e forte, e as faces firmes, embora magras. O efeito geral era de uma palidez extraordinária.

Até então eu notara o dorso de suas mãos, pousadas sobre os joelhos à luz do fogo, e elas me haviam parecido bastante brancas e finas; mas, vendo-as agora perto de mim, não pude deixar de notar que eram um tanto grosseiras — largas, de dedos atarracados. Coisa estranha, havia pelos no centro das palmas. As unhas eram longas e finas, cortadas em ponta aguda. Quando o conde se inclinou sobre mim e suas mãos me tocaram, não pude reprimir um arrepio. Talvez fosse o seu hálito fétido, mas uma horrível sensação de náusea se apoderou de mim, a qual, por mais que eu tentasse, não consegui esconder. O conde, evidentemente percebendo-o, recuou; e com uma espécie de sorriso sinistro, que mostrou mais do que antes seus dentes protuberantes, tornou a sentar-se do seu lado da lareira. Ficamos ambos em silêncio por algum tempo; e, quando olhei para a janela, vi a primeira faixa tênue da aurora que se aproximava. Parecia haver uma estranha quietude sobre todas as coisas; mas, ao escutar, ouvi, como que vindo lá de baixo, do vale, o uivo de muitos lobos. Os olhos do conde brilharam, e ele disse:

— Escute-os, os filhos da noite. Que música eles fazem!

Vendo, suponho, em meu rosto alguma expressão que lhe pareceu estranha, acrescentou:

— Ah, senhor, vocês, moradores da cidade, não conseguem compreender os sentimentos do caçador. — Então se levantou e disse: — Mas o senhor deve estar cansado. Seu quarto está pronto, e amanhã poderá dormir até quando quiser. Preciso me ausentar até a tarde; portanto, durma bem e tenha bons sonhos!

Com uma reverência cortês, ele mesmo me abriu a porta do cômodo octogonal, e entrei no meu quarto…

Estou num mar de assombros. Duvido; temo; penso coisas estranhas, que não ouso confessar à minha própria alma. Deus me guarde, nem que seja pelo bem daqueles que me são caros!

* * * * *

7 de maio. — É de novo madrugada, mas descansei e aproveitei as últimas vinte e quatro horas. Dormi até tarde e acordei por conta própria. Depois de me vestir, fui à sala onde havíamos ceado e encontrei um desjejum frio servido, com café mantido quente pelo bule colocado junto à lareira. Havia um cartão sobre a mesa, no qual estava escrito:

“Preciso me ausentar por algum tempo. Não espere por mim. — D.”

Pus-me a comer e fiz uma refeição farta. Quando terminei, procurei uma sineta, para avisar os criados de que havia acabado; mas não encontrei nenhuma. Há certamente estranhas carências na casa, considerando as extraordinárias provas de riqueza que me cercam. O serviço de mesa é de ouro, e tão belamente trabalhado que deve ter um valor imenso. As cortinas, o estofamento das cadeiras e sofás e o cortinado da minha cama são dos tecidos mais caros e belos, e devem ter tido um valor fabuloso quando foram feitos, pois têm séculos de idade, embora estejam em excelente estado. Vi algo parecido em Hampton Court, mas lá estavam gastos, puídos e roídos pelas traças. E, no entanto, em nenhum dos aposentos há um espelho. Não há sequer um espelho de toucador na minha mesa, e tive de tirar da mala o meu pequeno espelho de barbear para poder fazer a barba ou pentear o cabelo. Ainda não vi um criado em parte alguma, nem ouvi nenhum som perto do castelo, a não ser o uivo dos lobos. Algum tempo depois de terminar a refeição — não sei se devo chamá-la de desjejum ou de jantar, pois foi entre cinco e seis horas da tarde que a fiz —, procurei algo para ler, pois não queria andar pelo castelo antes de pedir licença ao conde. Não havia absolutamente nada na sala — livro, jornal, nem mesmo material de escrita —; então abri outra porta da sala e encontrei uma espécie de biblioteca. Tentei a porta em frente à minha, mas estava trancada.

Na biblioteca encontrei, para meu grande deleite, um grande número de livros ingleses, estantes inteiras cheias deles, e volumes encadernados de revistas e jornais. Uma mesa no centro estava coberta de revistas e jornais ingleses, embora nenhum fosse muito recente. Os livros eram dos mais variados gêneros — história, geografia, política, economia política, botânica, geologia, direito —, todos relativos à Inglaterra e à vida, aos costumes e às maneiras inglesas. Havia até obras de referência como o Catálogo de Londres, os livros “Vermelho” e “Azul”, o Almanaque Whitaker, as listas do Exército e da Marinha e — de algum modo, alegrou-me o coração vê-la — a Lista dos Advogados.

Enquanto eu examinava os livros, a porta se abriu e o conde entrou. Cumprimentou-me cordialmente e disse esperar que eu tivesse tido uma boa noite de descanso. Então prosseguiu:

— Fico contente que o senhor tenha encontrado o caminho até aqui, pois estou certo de que há muita coisa que o interessará. Estes companheiros — e pousou a mão sobre alguns dos livros — têm sido bons amigos para mim e, há alguns anos, desde que tive a ideia de ir a Londres, têm-me proporcionado muitas, muitas horas de prazer. Por meio deles vim a conhecer a sua grande Inglaterra; e conhecê-la é amá-la. Anseio por percorrer as ruas apinhadas da sua poderosa Londres, estar no meio do turbilhão e da correria da humanidade, partilhar de sua vida, de suas mudanças, de sua morte e de tudo o que a faz ser o que é. Mas, ai de mim!, até agora só conheço a sua língua pelos livros. É no senhor, meu amigo, que ponho a esperança de aprender a falá-la.

— Mas, conde — eu disse —, o senhor conhece e fala o inglês perfeitamente!

Ele se inclinou com gravidade.

— Agradeço-lhe, meu amigo, pela sua avaliação por demais lisonjeira, mas temo ainda estar apenas no começo da estrada que eu gostaria de percorrer. É verdade que conheço a gramática e as palavras, mas ainda não sei como pronunciá-las.

— Na verdade — eu disse —, o senhor fala de modo excelente.

— Não é assim — respondeu ele. — Bem sei que, se eu andasse e falasse na sua Londres, não haveria ninguém lá que não me reconhecesse como estrangeiro. Isso não me basta. Aqui sou nobre; sou boiardo; o povo comum me conhece, e sou senhor. Mas um estrangeiro em terra estranha não é ninguém; os homens não o conhecem — e não conhecer é não se importar. Fico satisfeito se for como os demais, de modo que nenhum homem pare ao me ver, ou interrompa o que diz ao ouvir minhas palavras: “Ah, ah! Um estrangeiro!”. Fui senhor por tanto tempo que quero continuar a ser senhor — ou, pelo menos, que nenhum outro seja senhor de mim. O senhor não vem a mim apenas como agente do meu amigo Peter Hawkins, de Exeter, para me contar tudo sobre minha nova propriedade em Londres. O senhor há de ficar aqui comigo algum tempo, espero, para que, conversando, eu possa aprender a entonação inglesa; e gostaria que me dissesse quando eu cometer um erro, mesmo o menor, ao falar. Lamento ter precisado ficar fora por tanto tempo hoje; mas o senhor, eu sei, há de perdoar quem tem tantos negócios importantes em mãos.

Naturalmente, eu disse tudo o que pude sobre a minha boa vontade e perguntei se poderia vir àquela sala quando quisesse. Ele respondeu: “Sim, certamente”, e acrescentou:

— O senhor pode ir aonde quiser no castelo, exceto onde as portas estiverem trancadas, aonde é claro que não há de querer ir. Há uma razão para que todas as coisas sejam como são, e, se o senhor visse com os meus olhos e soubesse com o meu saber, talvez compreendesse melhor.

Eu disse que tinha certeza disso, e ele prosseguiu:

— Estamos na Transilvânia; e a Transilvânia não é a Inglaterra. Nossos modos não são os seus, e haverá para o senhor muitas coisas estranhas. Ora, pelo que já me contou de suas experiências, o senhor já sabe algo das coisas estranhas que pode haver.

Isso deu ensejo a muita conversa; e, como era evidente que ele queria falar, nem que fosse pelo prazer de falar, fiz-lhe muitas perguntas sobre coisas que já me haviam acontecido ou chamado a atenção. Às vezes ele se esquivava do assunto, ou desviava a conversa fingindo não entender; mas, em geral, respondia com toda a franqueza a tudo o que eu perguntava. Então, com o passar do tempo, e tendo eu ganhado um pouco mais de ousadia, perguntei-lhe sobre algumas das coisas estranhas da noite anterior, como, por exemplo, por que o cocheiro ia aos lugares onde tinha visto as chamas azuis. Ele então me explicou que se acreditava comumente que, em certa noite do ano — a noite passada, de fato, quando se supõe que todos os espíritos malignos têm domínio irrestrito —, vê-se uma chama azul sobre qualquer lugar onde haja um tesouro escondido.

— Que há tesouros escondidos — prosseguiu ele — na região por onde o senhor passou ontem à noite, não pode haver muita dúvida; pois foi o território disputado durante séculos pelo valáquio, pelo saxão e pelo turco. Ora, não há quase um palmo de solo em toda esta região que não tenha sido enriquecido pelo sangue de homens, patriotas ou invasores. Antigamente houve tempos agitados, quando o austríaco e o húngaro vinham em hordas, e os patriotas saíam ao seu encontro — homens e mulheres, os velhos e as crianças também — e esperavam a sua chegada nos rochedos acima dos desfiladeiros, para lançar sobre eles a destruição com suas avalanches artificiais. Quando o invasor triunfava, encontrava muito pouco, pois o que quer que houvesse fora abrigado no solo amigo.

— Mas como — perguntei — pode ter permanecido tanto tempo sem ser descoberto, quando há um indício seguro, se os homens ao menos se derem ao trabalho de procurar?

O conde sorriu e, quando seus lábios se repuxaram sobre as gengivas, os caninos longos e afiados apareceram de modo estranho; ele respondeu:

— Porque o seu camponês é, no fundo, um covarde e um tolo! Essas chamas só aparecem numa noite; e nessa noite nenhum homem desta terra, se puder evitar, põe o pé fora de casa. E, caro senhor, mesmo que pusesse, não saberia o que fazer. Ora, mesmo o camponês de quem o senhor me fala, que marcou o lugar da chama, não saberia onde procurar à luz do dia, nem mesmo o seu próprio trabalho. Nem o senhor, eu juraria, seria capaz de encontrar esses lugares outra vez, não é?

— Nisso o senhor tem razão — eu disse. — Sei tanto quanto um morto onde procurá-los.

Então passamos a outros assuntos.

— Venha — disse ele por fim —, fale-me de Londres e da casa que o senhor arranjou para mim.

Desculpando-me pela negligência, fui ao meu quarto buscar os papéis na mala. Enquanto os punha em ordem, ouvi um tilintar de porcelana e prata na sala ao lado e, quando passei por ela, notei que a mesa fora tirada e a lamparina acesa, pois àquela altura já era noite fechada. As lâmpadas também estavam acesas no escritório, ou biblioteca, e encontrei o conde deitado no sofá, lendo, de todas as coisas do mundo, um Guia Bradshaw inglês. Quando entrei, ele tirou os livros e papéis da mesa; e com ele examinei plantas, escrituras e cifras de todo tipo. Ele se interessava por tudo e me fez uma infinidade de perguntas sobre o lugar e seus arredores. Era claro que estudara de antemão tudo o que pudera obter a respeito da vizinhança, pois evidentemente, no fim das contas, sabia muito mais do que eu. Quando observei isso, ele respondeu:

— Pois bem, meu amigo, mas não é necessário que eu saiba? Quando eu for para lá, estarei completamente sozinho, e meu amigo Harker Jonathan — não, perdoe-me, caio no hábito do meu país de pôr o seu sobrenome primeiro —, meu amigo Jonathan Harker não estará a meu lado para me corrigir e ajudar. Estará em Exeter, a quilômetros de distância, provavelmente trabalhando em papéis de direito com meu outro amigo, Peter Hawkins. Pois então!

Examinamos a fundo o negócio da compra da propriedade em Purfleet. Quando lhe expus os fatos, obtive sua assinatura nos papéis necessários e escrevi uma carta para acompanhá-los, pronta para ser enviada ao sr. Hawkins, ele começou a me perguntar como eu encontrara um lugar tão adequado. Li-lhe as anotações que eu fizera na ocasião e que transcrevo aqui:

“Em Purfleet, numa estrada secundária, encontrei um lugar exatamente como o que parecia ser necessário, onde se via um aviso em mau estado dizendo que a propriedade estava à venda. É cercada por um muro alto, de construção antiga, feito de pedras pesadas, que não é reparado há muitos anos. Os portões fechados são de carvalho velho e pesado e de ferro, todo carcomido pela ferrugem.

“A propriedade se chama Carfax, sem dúvida uma corruptela do antigo Quatre Face, pois a casa tem quatro lados, que correspondem aos pontos cardeais da bússola. Tem ao todo uns vinte acres, inteiramente cercados pelo sólido muro de pedra mencionado. Há nela muitas árvores, que a tornam sombria em alguns pontos, e há um tanque profundo, de aspecto escuro, ou pequeno lago, evidentemente alimentado por algumas nascentes, pois a água é límpida e escoa num riacho de bom tamanho. A casa é muito grande e de todas as épocas, remontando, eu diria, aos tempos medievais, pois uma parte é de pedra imensamente espessa, com apenas algumas janelas lá no alto, guarnecidas de pesadas grades de ferro. Parece parte de uma torre de menagem e fica junto a uma velha capela ou igreja. Não pude entrar nela, pois não tinha a chave da porta que leva a ela a partir da casa, mas tirei com minha Kodak fotografias dela de vários ângulos. A casa recebeu acréscimos, mas de modo muito desordenado, e só posso imaginar a extensão de terreno que ocupa, que deve ser muito grande. Há poucas casas nas proximidades, sendo uma delas uma casa muito grande, só recentemente ampliada e transformada num manicômio particular. Esta, porém, não é visível da propriedade.”

Quando terminei, ele disse:

— Fico contente que seja velha e grande. Eu mesmo sou de uma família antiga, e viver numa casa nova me mataria. Uma casa não se torna habitável num dia; e, afinal, quão poucos dias bastam para fazer um século. Alegra-me também que haja uma capela dos velhos tempos. Nós, nobres da Transilvânia, não gostamos de pensar que nossos ossos possam jazer entre os mortos comuns. Não busco a alegria nem o folguedo, nem a volúpia luminosa de muito sol e de águas cintilantes, que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem; e meu coração, depois de longos anos de luto pelos mortos, não está afinado com a alegria. Além disso, os muros do meu castelo estão em ruínas; as sombras são muitas, e o vento sopra frio pelas ameias e pelos caixilhos quebrados. Amo a sombra e a penumbra, e gostaria de estar a sós com meus pensamentos quando puder.

De algum modo, suas palavras e seu olhar não pareciam combinar, ou então era o feitio do seu rosto que fazia o seu sorriso parecer maligno e soturno.

Pouco depois, com uma desculpa, ele me deixou, pedindo que eu juntasse todos os meus papéis. Ficou fora algum tempo, e comecei a olhar alguns dos livros à minha volta. Um deles era um atlas, que encontrei aberto naturalmente na Inglaterra, como se aquele mapa tivesse sido muito usado. Ao examiná-lo, encontrei pequenos círculos marcados em certos lugares e, observando-os, notei que um ficava perto de Londres, no lado leste, evidentemente onde se situava a sua nova propriedade; os outros dois eram Exeter e Whitby, no litoral de Yorkshire.

Passara-se quase uma hora quando o conde voltou.

— Ah! — disse ele. — Ainda com seus livros? Muito bem! Mas o senhor não deve trabalhar o tempo todo. Venha; informaram-me que sua ceia está pronta.

Ele me tomou pelo braço, e fomos à sala ao lado, onde encontrei uma excelente ceia pronta na mesa. O conde de novo se desculpou, pois jantara fora durante sua ausência. Mas sentou-se como na noite anterior e conversou enquanto eu comia. Depois da ceia fumei, como na noite anterior, e o conde ficou comigo, conversando e fazendo perguntas sobre todos os assuntos imagináveis, hora após hora. Eu sentia que estava ficando muito tarde, mas não disse nada, pois me sentia na obrigação de atender aos desejos do meu anfitrião em tudo. Não estava com sono, pois o longo sono da véspera me fortalecera; mas não pude deixar de sentir aquele calafrio que nos acomete com a chegada da aurora, que é, a seu modo, como a virada da maré. Dizem que as pessoas que estão à beira da morte geralmente morrem na passagem para a aurora ou na virada da maré; quem quer que, cansado e como que preso ao seu posto, tenha experimentado essa mudança na atmosfera pode muito bem acreditar nisso. De repente ouvimos o canto de um galo, que subia com uma estridência sobrenatural através do ar límpido da manhã; o conde Drácula, pondo-se de pé num salto, disse:

— Ora, já é manhã outra vez! Como sou negligente em deixá-lo ficar acordado até tão tarde. O senhor precisa tornar menos interessante a sua conversa a respeito do meu querido novo país, a Inglaterra, para que eu não me esqueça de como o tempo voa.

E, com uma reverência cortês, deixou-me rapidamente.

Fui para o meu quarto e abri as cortinas, mas havia pouco a observar; minha janela dava para o pátio, e tudo o que eu podia ver era o cinza morno do céu que despertava. Então fechei de novo as cortinas e escrevi sobre este dia.

* * * * *

8 de maio. — Comecei a temer, enquanto escrevia neste caderno, que estivesse sendo prolixo demais; mas agora me alegro de ter entrado em detalhes desde o início, pois há algo tão estranho neste lugar e em tudo o que nele há que não posso deixar de me sentir inquieto. Gostaria de estar a salvo fora daqui, ou de nunca ter vindo. Pode ser que esta estranha existência noturna esteja me afetando; mas quem dera fosse só isso! Se houvesse alguém com quem conversar, eu suportaria, mas não há ninguém. Só tenho o conde com quem falar, e ele!… Temo ser eu mesmo a única alma viva neste lugar. Deixe-me ser prosaico tanto quanto os fatos o permitirem; isso me ajudará a resistir, e a imaginação não deve se descontrolar em mim. Se isso acontecer, estou perdido. Deixe-me dizer de uma vez qual é a minha situação — ou qual parece ser.

Dormi apenas algumas horas quando fui me deitar e, sentindo que não conseguiria dormir mais, levantei-me. Pendurara meu espelho de barbear junto à janela e estava começando a fazer a barba. De repente senti uma mão em meu ombro e ouvi a voz do conde dizendo-me: “Bom dia”. Sobressaltei-me, pois me espantou não o ter visto, já que o reflexo do espelho abrangia todo o quarto atrás de mim. Com o sobressalto, cortei-me levemente, mas não percebi no momento. Tendo respondido ao cumprimento do conde, voltei-me de novo para o espelho, para ver como me enganara. Desta vez não podia haver erro, pois o homem estava bem perto de mim, e eu podia vê-lo por cima do meu ombro. Mas não havia reflexo dele no espelho! Todo o quarto atrás de mim aparecia; mas não havia nele sinal de homem algum, exceto eu mesmo. Era assustador e, somando-se a tantas coisas estranhas, começava a aumentar aquela vaga sensação de inquietude que sempre sinto quando o conde está por perto; mas, no mesmo instante, vi que o corte sangrara um pouco e que o sangue escorria pelo meu queixo. Larguei a navalha, virando-me um pouco para procurar um esparadrapo. Quando o conde viu o meu rosto, seus olhos chamejaram com uma espécie de fúria demoníaca, e de repente ele fez menção de me agarrar pela garganta. Esquivei-me, e sua mão tocou o fio de contas que segurava o crucifixo. Isso provocou nele uma mudança instantânea, pois a fúria passou tão depressa que mal pude acreditar que estivera ali.

— Tome cuidado — disse ele —, tome cuidado ao se cortar. É mais perigoso do que o senhor pensa, neste país. — Então, agarrando o espelho de barbear, prosseguiu: — E esta é a coisa miserável que causou o mal. É uma bugiganga imunda da vaidade humana. Fora com ela!

E, abrindo a pesada janela com um único puxão de sua mão terrível, atirou o espelho lá fora, e ele se espatifou em mil pedaços nas pedras do pátio, lá embaixo. Depois se retirou sem dizer palavra. É muito aborrecido, pois não vejo como vou fazer a barba, a não ser na tampa do meu relógio ou no fundo da caneca de barbear, que felizmente é de metal.

Quando fui à sala de jantar, o desjejum estava preparado; mas não encontrei o conde em parte alguma. Assim, tomei o café sozinho. É estranho que até agora eu não tenha visto o conde comer nem beber. Deve ser um homem muito peculiar! Depois do café, explorei um pouco o castelo. Saí para a escada e encontrei um aposento voltado para o sul. A vista era magnífica, e de onde eu estava havia toda a oportunidade de contemplá-la. O castelo fica na beira de um precipício terrível. Uma pedra que caísse da janela despencaria trezentos metros sem tocar em nada! Até onde a vista alcança, há um mar de copas verdes de árvores, com uma fenda profunda de vez em quando, onde há um abismo. Aqui e ali há fios de prata, onde os rios serpenteiam em gargantas profundas através das florestas.

Mas não estou com ânimo para descrever belezas, pois, depois de ver a paisagem, explorei mais adiante: portas, portas, portas por toda parte, e todas trancadas e aferrolhadas. Em nenhum lugar, exceto pelas janelas nas muralhas do castelo, há uma saída possível.

O castelo é uma verdadeira prisão, e eu sou um prisioneiro!

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