Capítulo 3
DIÁRIO DE JONATHAN HARKER — continuação
Quando descobri que era prisioneiro, uma espécie de sentimento selvagem tomou conta de mim. Subi e desci as escadas correndo, experimentando cada porta e espiando por cada janela que encontrava; mas, depois de algum tempo, a convicção de meu desamparo sobrepujou todos os outros sentimentos. Quando olho para trás, algumas horas depois, penso que devo ter ficado louco naquele momento, pois me comportei de modo muito parecido com um rato numa ratoeira. Quando, porém, me veio a convicção de que eu estava indefeso, sentei-me calmamente — tão calmamente quanto jamais fiz qualquer coisa na vida — e comecei a pensar no que seria melhor fazer. Ainda estou pensando, e até agora não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. De uma única coisa tenho certeza: de que não adianta revelar minhas ideias ao conde. Ele sabe muito bem que estou aprisionado; e, como foi ele mesmo quem fez isso, e sem dúvida tem seus próprios motivos, apenas me enganaria se eu lhe confiasse plenamente os fatos. Pelo que posso ver, meu único plano será guardar para mim o que sei e o que temo, e manter os olhos abertos. Sei que, ou estou sendo enganado, como um bebê, por meus próprios medos, ou então estou numa situação desesperadora; e, se for este o caso, preciso, e precisarei, de toda a minha inteligência para escapar.
Mal havia chegado a essa conclusão quando ouvi a grande porta lá embaixo se fechar e soube que o conde havia voltado. Ele não veio logo à biblioteca, de modo que fui cautelosamente para o meu quarto e o encontrei arrumando a cama. Era estranho, mas apenas confirmava o que eu pensara o tempo todo — que não havia criados na casa. Quando mais tarde o vi, pela fresta das dobradiças da porta, pondo a mesa na sala de jantar, tive certeza disso; pois, se ele mesmo realiza todos esses serviços humildes, certamente é prova de que não há mais ninguém para realizá-los. Isso me assustou, pois, se não há mais ninguém no castelo, deve ter sido o próprio conde o cocheiro da carruagem que me trouxe até aqui. É um pensamento terrível; pois, se for assim, o que significa ele ter conseguido controlar os lobos, como fez, apenas erguendo a mão em silêncio? Por que todas as pessoas em Bistritz e na diligência sentiam um medo terrível por mim? O que significavam o crucifixo, o alho, a rosa silvestre, a sorveira que me deram? Bendita seja aquela boa, boa mulher que pendurou o crucifixo em meu pescoço! Pois ele é um conforto e uma força para mim sempre que o toco. É estranho que uma coisa que me ensinaram a ver com desagrado e como idolatria possa, num momento de solidão e aflição, ser de alguma ajuda. Será que há algo na essência da própria coisa, ou será ela um meio, uma ajuda tangível, para transmitir lembranças de solidariedade e consolo? Algum dia, se for possível, preciso examinar essa questão e tentar formar uma opinião a respeito. Enquanto isso, devo descobrir tudo o que puder sobre o conde Drácula, pois isso pode me ajudar a compreender. Esta noite talvez ele fale de si mesmo, se eu conduzir a conversa nessa direção. Devo tomar muito cuidado, porém, para não despertar suas suspeitas.
* * * * *
Meia-noite. — Tive uma longa conversa com o conde. Fiz-lhe algumas perguntas sobre a história da Transilvânia, e ele se entusiasmou maravilhosamente com o assunto. Ao falar das coisas e das pessoas, e especialmente das batalhas, falava como se tivesse estado presente em todas elas. Isso ele explicou depois, dizendo que, para um boiardo, o orgulho de sua casa e de seu nome é seu próprio orgulho, que a glória deles é a sua glória, que o destino deles é o seu destino. Sempre que falava de sua casa, dizia “nós”, e falava quase no plural, como um rei. Gostaria de poder anotar tudo o que ele disse exatamente como disse, pois para mim foi fascinante. Parecia conter toda a história do país. Ele se exaltava enquanto falava e andava pela sala, puxando o grande bigode branco e agarrando tudo em que punha as mãos como se fosse esmagá-lo à força bruta. Uma coisa que ele disse vou registrar tão fielmente quanto puder, pois conta, a seu modo, a história de sua raça:
— Nós, os sículos, temos o direito de ser orgulhosos, pois em nossas veias corre o sangue de muitas raças valentes que lutaram como luta o leão, pelo domínio. Aqui, no redemoinho das raças europeias, a tribo úgrica trouxe da Islândia o espírito guerreiro que Thor e Wotan lhe deram, e que seus berserkers exibiram com intenção tão cruel nas costas da Europa, sim, e também da Ásia e da África, até que os povos pensaram que os próprios lobisomens haviam chegado. Aqui, também, quando chegaram, encontraram os hunos, cuja fúria guerreira varrera a terra como uma chama viva, até que os povos moribundos acreditaram que em suas veias corria o sangue daquelas velhas bruxas que, expulsas da Cítia, haviam se acasalado com os demônios no deserto. Tolos, tolos! Que demônio ou que bruxa jamais foi tão grande quanto Átila, cujo sangue corre nestas veias? — Ele ergueu os braços. — É de admirar que fôssemos uma raça conquistadora; que fôssemos orgulhosos; que, quando o magiar, o lombardo, o ávaro, o búlgaro ou o turco lançava seus milhares contra nossas fronteiras, nós os rechaçássemos? É estranho que, quando Árpád e suas legiões varreram a pátria húngara, ele nos encontrasse aqui ao chegar à fronteira; que o Honfoglalás se completasse ali? E quando a torrente húngara avançou para o leste, os sículos foram reconhecidos como parentes pelos magiares vitoriosos, e a nós foi confiada durante séculos a guarda da fronteira da terra dos turcos; sim, e mais do que isso, o dever interminável da guarda de fronteira, pois, como dizem os turcos, “a água dorme, e o inimigo não dorme”. Quem, mais alegremente do que nós, entre as Quatro Nações, recebeu a “espada ensanguentada”, ou, ao seu chamado guerreiro, acorreu mais depressa ao estandarte do rei? Quando foi redimida aquela grande vergonha de minha nação, a vergonha de Kosovo, quando as bandeiras dos valáquios e dos magiares tombaram sob o Crescente? Quem foi senão um de minha própria raça que, como voivoda, atravessou o Danúbio e derrotou o turco em seu próprio território? Esse sim era um Drácula! Desgraça foi que seu próprio irmão indigno, depois que ele caiu, vendesse seu povo ao turco e lhe trouxesse a vergonha da escravidão! Não foi este Drácula, de fato, que inspirou aquele outro de sua raça que, numa época posterior, levou repetidas vezes suas forças através do grande rio até a terra dos turcos; que, quando rechaçado, voltava, e voltava, e voltava, ainda que tivesse de vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas eram massacradas, pois sabia que somente ele poderia triunfar no fim! Diziam que ele só pensava em si mesmo. Bah! De que servem camponeses sem um líder? Onde termina a guerra sem um cérebro e um coração para conduzi-la? E ainda, quando, depois da batalha de Mohács, nos livramos do jugo húngaro, nós, do sangue Drácula, estávamos entre seus líderes, pois nosso espírito não tolerava não sermos livres. Ah, jovem senhor, os sículos — e os Drácula como o sangue de seu coração, seu cérebro e suas espadas — podem se gabar de uma história que arrivistas como os Habsburgo e os Romanov jamais poderão alcançar. Os dias guerreiros acabaram. O sangue é coisa preciosa demais nestes dias de paz desonrosa; e as glórias das grandes raças são como uma história já contada.
A essa altura já estava perto de amanhecer, e fomos dormir. (Nota: este diário parece horrivelmente com o início das Mil e uma noites, pois tudo tem de ser interrompido ao canto do galo — ou com o fantasma do pai de Hamlet.)
* * * * *
12 de maio. — Deixe-me começar pelos fatos — fatos nus e escassos, verificados por livros e números, e dos quais não pode haver dúvida. Não devo confundi-los com experiências que terão de se apoiar em minha própria observação ou em minha lembrança delas. Ontem à noite, quando o conde veio de seu quarto, começou fazendo-me perguntas sobre questões jurídicas e sobre a condução de certos tipos de negócio. Eu havia passado o dia penosamente debruçado sobre os livros e, apenas para manter a mente ocupada, revisara algumas das matérias que estudara em Lincoln’s Inn. Havia certo método nas indagações do conde, de modo que tentarei registrá-las em sequência; esse conhecimento poderá, de algum modo ou em algum momento, ser-me útil.
Primeiro, ele perguntou se um homem na Inglaterra podia ter dois advogados ou mais. Disse-lhe que podia ter uma dúzia, se quisesse, mas que não seria sensato ter mais de um advogado ocupado numa mesma transação, pois só um poderia agir de cada vez, e mudar certamente prejudicaria seus interesses. Ele pareceu compreender perfeitamente, e passou a perguntar se haveria alguma dificuldade prática em ter um homem para cuidar, digamos, de assuntos bancários e outro para tratar de transportes marítimos, caso fosse necessária ajuda local num lugar distante da residência do advogado encarregado dos assuntos bancários. Pedi-lhe que explicasse melhor, para que eu não o induzisse em erro por acaso, e então ele disse:
— Vou ilustrar. Nosso amigo, seu e meu, o sr. Peter Hawkins, lá da sombra de sua bela catedral em Exeter, que fica longe de Londres, compra para mim, por intermédio do senhor, minha propriedade em Londres. Bom! Agora permita-me dizer francamente, para que não ache estranho que eu tenha procurado os serviços de alguém tão distante de Londres em vez de alguém que lá residisse, que meu motivo foi que nenhum interesse local fosse atendido, a não ser apenas o meu desejo; e como alguém residente em Londres poderia, talvez, ter algum propósito próprio ou de um amigo a servir, fui buscar longe meu agente, cujos esforços seriam apenas em meu interesse. Agora, suponha que eu, que tenho muitos negócios, deseje despachar mercadorias, digamos, para Newcastle, ou Durham, ou Harwich, ou Dover; não seria mais fácil fazê-lo consignando-as a alguém nesses portos?
Respondi que certamente seria muito fácil, mas que nós, advogados, tínhamos um sistema de representação mútua, de modo que o trabalho local podia ser feito localmente por instrução de qualquer advogado, e assim o cliente, simplesmente pondo-se nas mãos de um só homem, podia ter seus desejos cumpridos por ele sem mais incômodo.
— Mas — disse ele — eu poderia ter a liberdade de dar as ordens eu mesmo. Não é assim?
— Claro — respondi —, e isso é feito com frequência por homens de negócios que não gostam que a totalidade de seus assuntos seja conhecida por uma única pessoa.
— Bom! — disse ele, e passou a perguntar sobre os meios de fazer consignações e os trâmites a cumprir, e sobre toda sorte de dificuldades que poderiam surgir, mas que, com previdência, poderiam ser evitadas. Expliquei-lhe todas essas coisas o melhor que pude, e ele certamente me deixou com a impressão de que teria sido um advogado admirável, pois não havia nada em que não pensasse ou que não previsse. Para um homem que nunca estivera no país e que evidentemente não se ocupava muito de negócios, seu conhecimento e sua perspicácia eram admiráveis. Quando ficou satisfeito quanto aos pontos de que falara, e eu verifiquei tudo da melhor maneira que pude nos livros disponíveis, ele de repente se levantou e disse:
— O senhor escreveu, depois de sua primeira carta, ao nosso amigo sr. Peter Hawkins, ou a qualquer outra pessoa?
Foi com certa amargura no coração que respondi que não, que até então não tivera nenhuma oportunidade de enviar cartas a ninguém.
— Então escreva agora, meu jovem amigo — disse ele, pousando a mão pesada em meu ombro. — Escreva ao nosso amigo e a quem mais quiser; e diga, se lhe agradar, que ficará comigo até daqui a um mês.
— O senhor deseja que eu fique tanto tempo? — perguntei, pois meu coração gelou com a ideia.
— Desejo muito; não, não aceitarei recusa. Quando seu patrão, empregador, como queira, se comprometeu a mandar alguém em seu nome, ficou entendido que apenas as minhas necessidades seriam consideradas. Não fui mesquinho. Não é assim?
Que podia eu fazer senão inclinar-me em aceitação? Era o interesse do sr. Hawkins, não o meu, e eu tinha de pensar nele, não em mim; além disso, enquanto o conde Drácula falava, havia algo em seus olhos e em sua postura que me fazia lembrar que eu era um prisioneiro e que, mesmo que quisesse, não teria escolha. O conde viu sua vitória em minha reverência e seu domínio na aflição de meu rosto, pois começou imediatamente a usá-los, mas à sua maneira suave e irresistível:
— Peço-lhe, meu bom jovem amigo, que não fale de outras coisas além de negócios em suas cartas. Sem dúvida agradará a seus amigos saber que o senhor está bem e que anseia por voltar para junto deles. Não é assim?
Enquanto falava, entregou-me três folhas de papel de carta e três envelopes. Eram todos do papel mais fino para correio estrangeiro, e, olhando para eles, depois para ele, e notando seu sorriso tranquilo, com os dentes caninos afiados pousados sobre o lábio inferior vermelho, compreendi, tão bem como se ele o tivesse dito, que eu devia tomar cuidado com o que escrevesse, pois ele poderia lê-lo. Assim, resolvi escrever agora apenas bilhetes formais, mas escrever em detalhes ao sr. Hawkins em segredo, e também a Mina, pois a ela eu podia escrever em taquigrafia, o que deixaria o conde perplexo, caso a visse. Depois de escrever minhas duas cartas, fiquei sentado em silêncio, lendo um livro, enquanto o conde escrevia vários bilhetes, consultando, enquanto os escrevia, alguns livros sobre sua mesa. Então ele pegou minhas duas cartas e as juntou às suas, e guardou seu material de escrita; depois disso, no instante em que a porta se fechou atrás dele, debrucei-me e olhei as cartas, que estavam viradas para baixo sobre a mesa. Não senti nenhum escrúpulo em fazê-lo, pois, naquelas circunstâncias, achei que devia me proteger de todas as maneiras possíveis.
Uma das cartas era endereçada a Samuel F. Billington, nº 7, The Crescent, Whitby; outra a Herr Leutner, Varna; a terceira era para Coutts & Co., Londres, e a quarta para Herren Klopstock & Billreuth, banqueiros, Budapeste. A segunda e a quarta não estavam lacradas. Eu estava prestes a examiná-las quando vi a maçaneta da porta se mover. Afundei de volta em minha cadeira, tendo tido tempo apenas de recolocar as cartas como estavam e de retomar meu livro antes que o conde, segurando ainda outra carta na mão, entrasse na sala. Ele pegou as cartas que estavam sobre a mesa e as selou cuidadosamente, e então, voltando-se para mim, disse:
— Espero que me perdoe, mas tenho muito trabalho a fazer em particular esta noite. Espero que encontre tudo como deseja.
À porta ele se virou e, após uma pausa, disse:
— Permita-me aconselhá-lo, meu caro jovem amigo — não, permita-me adverti-lo com toda a seriedade —, que, se deixar estes aposentos, não vá de modo algum dormir em qualquer outra parte do castelo. Ele é antigo e tem muitas lembranças, e há sonhos ruins para aqueles que dormem de modo imprudente. Esteja avisado! Se o sono o vencer agora ou em qualquer momento, ou estiver prestes a vencê-lo, apresse-se a ir para o seu quarto ou para estes aposentos, pois então seu repouso estará seguro. Mas, se não tomar cuidado quanto a isso, então…
Ele terminou sua fala de uma maneira macabra, pois fez um gesto com as mãos como se as estivesse lavando. Compreendi perfeitamente; minha única dúvida era se algum sonho poderia ser mais terrível do que a rede antinatural e horrível de trevas e mistério que parecia se fechar ao meu redor.
* * * * *
Mais tarde. — Subscrevo as últimas palavras escritas, mas desta vez não há dúvida alguma. Não terei medo de dormir em lugar nenhum onde ele não esteja. Coloquei o crucifixo sobre a cabeceira de minha cama — imagino que assim meu repouso fique mais livre de sonhos; e ali ele ficará.
Quando ele me deixou, fui para o meu quarto. Depois de algum tempo, não ouvindo nenhum ruído, saí e subi a escada de pedra até onde podia olhar na direção sul. Havia certa sensação de liberdade naquela vasta extensão, por mais inacessível que fosse para mim, em comparação com a escuridão estreita do pátio. Olhando para ela, senti que estava de fato numa prisão, e pareceu-me que precisava de um sopro de ar fresco, ainda que fosse o ar da noite. Começo a sentir os efeitos dessa existência noturna. Ela está destruindo meus nervos. Sobressalto-me com minha própria sombra e estou cheio de toda sorte de imaginações horríveis. Deus sabe que há motivo para meu medo terrível neste lugar maldito! Contemplei a bela paisagem, banhada por um suave luar amarelo até ficar quase tão clara quanto o dia. Na luz suave, as colinas distantes pareciam derreter-se, e as sombras nos vales e desfiladeiros eram de uma negrura aveludada. A simples beleza parecia me animar; havia paz e consolo em cada fôlego que eu tomava. Ao me debruçar na janela, meu olhar foi atraído por algo que se movia um andar abaixo de mim, e um pouco à minha esquerda, onde imaginei, pela disposição dos cômodos, que dariam as janelas do próprio quarto do conde. A janela em que eu estava era alta e funda, com mainéis de pedra, e, embora gasta pelo tempo, ainda estava inteira; mas era evidente que fazia muitos dias que a esquadria não estava ali. Recuei para trás da cantaria e olhei cuidadosamente para fora.
O que vi foi a cabeça do conde saindo pela janela. Não vi o rosto, mas reconheci o homem pelo pescoço e pelo movimento das costas e dos braços. Em todo caso, eu não podia me enganar quanto às mãos, que tivera tantas oportunidades de estudar. A princípio fiquei interessado e um tanto divertido, pois é admirável como uma coisa pequena pode interessar e divertir um homem quando ele é prisioneiro. Mas meus sentimentos se transformaram em repulsa e terror quando vi o homem inteiro emergir lentamente da janela e começar a rastejar pela muralha do castelo, sobre aquele abismo terrível, de cabeça para baixo, com a capa abrindo-se ao seu redor como grandes asas. A princípio não pude acreditar em meus olhos. Pensei que fosse algum truque do luar, algum efeito estranho de sombra; mas continuei olhando, e não podia ser ilusão. Vi os dedos das mãos e dos pés agarrarem as quinas das pedras, que o desgaste dos anos limpara da argamassa, e, usando assim cada saliência e irregularidade, descer com considerável rapidez, tal como um lagarto se move por uma parede.
Que espécie de homem é este, ou que espécie de criatura é esta com aparência de homem? Sinto o pavor deste lugar horrível me dominar; estou com medo — com um medo terrível — e não há escapatória para mim; estou cercado de terrores nos quais não ouso pensar…
* * * * *
15 de maio. — Mais uma vez vi o conde sair à sua maneira de lagarto. Ele desceu de lado, uns cem pés, e bastante para a esquerda. Desapareceu num buraco ou janela. Quando sua cabeça sumiu, debrucei-me para tentar ver mais, mas em vão — a distância era grande demais para permitir um ângulo de visão adequado. Sabia que agora ele havia deixado o castelo, e pensei em aproveitar a oportunidade para explorar mais do que até então ousara. Voltei ao quarto e, pegando um lampião, experimentei todas as portas. Estavam todas trancadas, como eu esperava, e as fechaduras eram relativamente novas; mas desci a escada de pedra até o vestíbulo por onde eu entrara originalmente. Descobri que podia puxar os ferrolhos com bastante facilidade e soltar as grandes correntes; mas a porta estava trancada, e a chave havia sumido! Essa chave deve estar no quarto do conde; preciso vigiar para o caso de sua porta ficar destrancada, para que eu possa pegá-la e fugir. Passei a fazer um exame minucioso das várias escadas e corredores e a experimentar as portas que davam para eles. Um ou dois quartinhos perto do vestíbulo estavam abertos, mas não havia nada para ver neles além de móveis velhos, empoeirados pela idade e roídos pelas traças. Por fim, porém, encontrei uma porta no alto da escadaria que, embora parecesse trancada, cedia um pouco sob pressão. Forcei-a com mais força e descobri que não estava de fato trancada, mas que a resistência vinha do fato de as dobradiças terem cedido um pouco, de modo que a pesada porta se apoiava no chão. Ali estava uma oportunidade que talvez eu não tivesse de novo, então me esforcei e, com muito empenho, empurrei-a para trás o suficiente para poder entrar. Eu estava agora numa ala do castelo mais à direita do que os aposentos que eu conhecia, e um andar abaixo. Pelas janelas pude ver que a série de cômodos se estendia ao longo do lado sul do castelo, e as janelas do último cômodo davam tanto para oeste quanto para o sul. Deste último lado, assim como do primeiro, havia um grande precipício. O castelo fora construído na quina de um grande rochedo, de modo que por três lados era totalmente inexpugnável, e grandes janelas haviam sido postas ali, onde nem a funda, nem o arco, nem a colubrina podiam alcançar, e assim se obtinham luz e conforto, impossíveis numa posição que precisasse ser defendida. A oeste havia um grande vale e, depois, erguendo-se ao longe, grandes fortalezas montanhosas e recortadas, elevando-se pico após pico, a rocha íngreme salpicada de sorveiras e espinheiros, cujas raízes se agarravam a rachaduras, fendas e frestas da pedra. Esta era evidentemente a parte do castelo ocupada pelas damas em tempos idos, pois a mobília tinha um ar mais confortável do que qualquer outra que eu vira. As janelas não tinham cortinas, e o luar amarelo, entrando a jorros pelas vidraças em losango, permitia ver até as cores, ao mesmo tempo que suavizava a abundância de poeira que cobria tudo e disfarçava de certo modo os estragos do tempo e das traças. Meu lampião parecia de pouco efeito sob o luar brilhante, mas fiquei contente por tê-lo comigo, pois havia no lugar uma solidão temível que me gelava o coração e fazia meus nervos tremerem. Ainda assim, era melhor do que viver sozinho nos aposentos que eu passara a odiar pela presença do conde, e, depois de tentar um pouco disciplinar meus nervos, senti uma suave tranquilidade me envolver. Aqui estou eu, sentado a uma mesinha de carvalho onde, em tempos antigos, talvez alguma bela dama se sentasse para escrever, com muita reflexão e muitos rubores, sua carta de amor mal escrita, e anotando em meu diário, em taquigrafia, tudo o que aconteceu desde que o fechei pela última vez. É o século XIX em sua versão mais moderna, e com sobras. E, no entanto, a menos que meus sentidos me enganem, os velhos séculos tinham, e têm, poderes próprios que a mera “modernidade” não pode matar.
* * * * *
Mais tarde: a manhã de 16 de maio. — Deus preserve minha sanidade, pois a isso estou reduzido. A segurança e a certeza de segurança são coisas do passado. Enquanto eu viver aqui, há apenas uma coisa pela qual esperar: que eu não enlouqueça, se é que já não estou louco. Se estou são, então certamente é enlouquecedor pensar que, de todas as coisas imundas que espreitam neste lugar odioso, o conde é a menos temível para mim; que somente nele posso buscar segurança, ainda que apenas enquanto eu puder servir a seus propósitos. Grande Deus! Deus misericordioso! Que eu fique calmo, pois por esse caminho está de fato a loucura. Começo a ter novas luzes sobre certas coisas que me intrigavam. Até agora, nunca soube bem o que Shakespeare quis dizer quando fez Hamlet dizer:
“Minhas tabuinhas! Depressa, minhas tabuinhas!
Convém que eu o anote” etc.,
pois agora, sentindo-me como se meu próprio cérebro tivesse se desequilibrado ou como se tivesse chegado o choque que há de acabar por arruiná-lo, volto-me para meu diário em busca de repouso. O hábito de registrar com exatidão há de me ajudar a acalmar.
A misteriosa advertência do conde me assustou na hora; assusta-me mais agora, quando penso nela, pois de agora em diante ele tem um domínio terrível sobre mim. Terei medo de duvidar do que ele disser!
Depois de escrever em meu diário e de, felizmente, ter guardado o caderno e a pena no bolso, senti sono. A advertência do conde me veio à mente, mas tive prazer em desobedecê-la. A sensação de sono me dominava, e com ela a obstinação que o sono traz como batedor. O luar suave acalmava, e a vasta extensão lá fora dava uma sensação de liberdade que me revigorava. Decidi não voltar esta noite aos aposentos assombrados pela escuridão, mas dormir ali, onde, outrora, damas haviam se sentado e cantado e levado vidas doces, enquanto seus peitos gentis se entristeciam por seus homens ausentes, em meio a guerras implacáveis. Puxei um grande divã de seu lugar perto do canto, de modo que, deitado, pudesse contemplar a linda vista a leste e ao sul, e, sem pensar na poeira nem me importar com ela, acomodei-me para dormir. Suponho que devo ter adormecido; espero que sim, mas temo que não, pois tudo o que se seguiu foi assombrosamente real — tão real que agora, sentado aqui sob a luz plena e ampla do sol da manhã, não consigo de modo algum acreditar que tenha sido tudo sono.
Eu não estava sozinho. O quarto era o mesmo, em nada mudado desde que eu entrara nele; eu podia ver pelo chão, sob o luar brilhante, minhas próprias pegadas marcadas onde eu perturbara o longo acúmulo de poeira. No luar, diante de mim, estavam três mulheres jovens, damas, a julgar pelas roupas e pelos modos. Pensei na hora que devia estar sonhando quando as vi, pois, embora o luar estivesse atrás delas, não projetavam nenhuma sombra no chão. Aproximaram-se de mim e me olharam por algum tempo, e então cochicharam entre si. Duas eram morenas e tinham narizes altos e aquilinos, como o conde, e grandes olhos escuros e penetrantes que pareciam quase vermelhos em contraste com a pálida lua amarela. A outra era loura, tão loura quanto é possível ser, com grandes massas onduladas de cabelos dourados e olhos como pálidas safiras. Eu tinha a impressão de conhecer de algum modo seu rosto, e de conhecê-lo em ligação com algum medo vago, como de sonho, mas não conseguia lembrar naquele momento como nem onde. As três tinham dentes de um branco brilhante que reluziam como pérolas contra o rubi de seus lábios voluptuosos. Havia algo nelas que me deixava inquieto, algum anseio e, ao mesmo tempo, algum medo mortal. Senti no coração um desejo perverso e ardente de que me beijassem com aqueles lábios vermelhos. Não é bom anotar isto, para que um dia não chegue aos olhos de Mina e lhe cause dor; mas é a verdade. Cochicharam entre si, e então as três riram — um riso tão argênteo, tão musical, mas tão duro como se o som jamais pudesse ter passado pela maciez de lábios humanos. Era como a doçura intolerável e vibrante de copos de cristal tocados por mão hábil. A moça loura balançou a cabeça com faceirice, e as outras duas a incitaram. Uma delas disse:
— Vá! Você é a primeira, e nós a seguiremos; o direito de começar é seu.
A outra acrescentou:
— Ele é jovem e forte; há beijos para todas nós.
Fiquei quieto, espiando por entre os cílios numa agonia de deliciosa expectativa. A moça loura avançou e se inclinou sobre mim até que eu pudesse sentir o movimento de sua respiração sobre mim. Era doce, num sentido, doce como mel, e enviava pelos nervos o mesmo formigamento que sua voz, mas com um amargor por baixo da doçura, um amargor repulsivo, como o que se sente no cheiro do sangue.
Tinha medo de erguer as pálpebras, mas espiei e vi perfeitamente por entre os cílios. A moça ajoelhou-se e se curvou sobre mim, simplesmente deleitando-se. Havia uma volúpia deliberada que era ao mesmo tempo excitante e repulsiva, e, ao arquear o pescoço, ela chegou a lamber os lábios como um animal, até que eu pude ver ao luar a umidade brilhando nos lábios escarlates e na língua vermelha enquanto esta lambia os dentes brancos e afiados. Sua cabeça desceu cada vez mais, enquanto os lábios passavam abaixo do alcance de minha boca e de meu queixo e pareciam prestes a se prender à minha garganta. Então ela parou, e eu pude ouvir o som agitado de sua língua lambendo os dentes e os lábios, e pude sentir o hálito quente em meu pescoço. Então a pele de minha garganta começou a formigar, como acontece com a carne quando a mão que vai fazer cócegas se aproxima mais — e mais. Pude sentir o toque macio e trêmulo dos lábios na pele hipersensível de minha garganta, e as pontas duras de dois dentes afiados, apenas tocando e detendo-se ali. Fechei os olhos num êxtase lânguido e esperei — esperei com o coração batendo.
Mas naquele instante outra sensação me percorreu, rápida como um relâmpago. Tive consciência da presença do conde, e de que ele estava como que envolto numa tempestade de fúria. Quando meus olhos se abriram involuntariamente, vi sua mão forte agarrar o pescoço delgado da mulher loura e, com força de gigante, puxá-lo para trás, os olhos azuis transformados pela fúria, os dentes brancos rangendo de raiva e as faces claras ardendo, vermelhas de paixão. Mas o conde! Jamais imaginei tal ira e tal fúria, nem mesmo nos demônios do abismo. Seus olhos chamejavam literalmente. A luz vermelha neles era sinistra, como se as chamas do fogo do inferno ardessem por trás deles. Seu rosto estava mortalmente pálido, e suas linhas eram duras como arames esticados; as sobrancelhas espessas que se encontravam sobre o nariz pareciam agora uma barra arfante de metal incandescente. Com um movimento feroz do braço, ele arremessou a mulher para longe de si e depois fez um gesto para as outras, como se as rechaçasse; era o mesmo gesto imperioso que eu o vira usar com os lobos. Numa voz que, embora baixa e quase um sussurro, parecia cortar o ar e depois ressoar pelo quarto, ele disse:
— Como ousam tocá-lo, qualquer uma de vocês? Como ousam pôr os olhos nele quando eu o proibi? Para trás, todas vocês! Este homem me pertence! Cuidado com o que fazem com ele, ou terão de se haver comigo.
A moça loura, com um riso de faceirice despudorada, virou-se para lhe responder:
— Você mesmo nunca amou; você nunca ama!
Nisso as outras mulheres se juntaram a ela, e um riso tão sem alegria, tão duro, tão sem alma ressoou pelo quarto que quase me fez desmaiar ao ouvi-lo; parecia o prazer de demônios. Então o conde se virou, depois de olhar atentamente para o meu rosto, e disse num sussurro suave:
— Sim, eu também posso amar; vocês mesmas podem dizê-lo pelo passado. Não é assim? Pois bem, agora lhes prometo que, quando eu tiver terminado com ele, vocês poderão beijá-lo à vontade. Agora vão! Vão! Preciso acordá-lo, pois há trabalho a fazer.
— Não teremos nada esta noite? — disse uma delas, com um riso baixo, apontando para o saco que ele havia jogado no chão e que se mexia como se houvesse alguma coisa viva dentro.
Como resposta, ele acenou com a cabeça. Uma das mulheres saltou para a frente e o abriu. Se meus ouvidos não me enganaram, houve um arquejo e um gemido baixo, como de uma criança meio sufocada. As mulheres se fecharam em volta, enquanto eu ficava estarrecido de horror; mas, enquanto eu olhava, elas desapareceram, e com elas o saco terrível. Não havia porta perto delas, e não poderiam ter passado por mim sem que eu notasse. Simplesmente pareceram dissolver-se nos raios do luar e sair pela janela, pois pude ver lá fora, por um momento, as formas vagas e sombrias antes que se desvanecessem por completo.
Então o horror me dominou, e caí desacordado.
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