Capítulo 4
DIÁRIO DE JONATHAN HARKER — continuação
Acordei em minha própria cama. Se é verdade que eu não sonhei, o conde deve ter me carregado até aqui. Tentei me certificar a respeito, mas não consegui chegar a nenhum resultado indiscutível. É verdade que havia certos pequenos indícios, como o fato de minhas roupas estarem dobradas e guardadas de um modo que não era meu costume. Meu relógio continuava sem corda, e tenho o hábito rigoroso de dar-lhe corda como última coisa antes de ir para a cama, e muitos outros detalhes assim. Mas essas coisas não são prova, pois podem ter sido indícios de que minha mente não estava como de costume e de que, por uma razão ou outra, eu certamente estivera muito perturbado. Preciso ficar atento a provas. De uma coisa estou contente: se foi o conde quem me carregou até aqui e me despiu, deve ter feito a tarefa às pressas, pois meus bolsos estão intactos. Tenho certeza de que este diário teria sido para ele um mistério que não teria tolerado. Ele o teria levado ou destruído. Quando olho em volta neste quarto, embora tenha sido para mim tão cheio de medo, ele é agora uma espécie de santuário, pois nada pode ser mais terrível do que aquelas mulheres horrendas, que estavam — que estão — esperando para sugar meu sangue.
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18 de maio. — Desci para ver aquele cômodo outra vez à luz do dia, pois eu preciso saber a verdade. Quando cheguei à porta no alto da escada, encontrei-a fechada. Fora empurrada contra o batente com tanta força que parte da madeira estava lascada. Pude ver que a lingueta da fechadura não fora corrida, mas a porta está trancada por dentro. Temo que não tenha sido sonho, e devo agir com base nessa suposição.
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19 de maio. — Estou sem dúvida preso na armadilha. Ontem à noite o conde me pediu, no tom mais suave, que escrevesse três cartas: uma dizendo que meu trabalho aqui estava quase terminado e que eu partiria para casa dentro de alguns dias; outra, que eu partiria na manhã seguinte à data da carta; e a terceira, que eu havia deixado o castelo e chegado a Bistritz. Eu bem que teria me rebelado, mas senti que, no presente estado de coisas, seria loucura brigar abertamente com o conde enquanto estou tão absolutamente em seu poder; e recusar seria despertar sua suspeita e provocar sua raiva. Ele sabe que eu sei demais e que não devo viver, para não ser perigoso para ele; minha única chance é prolongar minhas oportunidades. Pode acontecer alguma coisa que me dê uma chance de fugir. Vi em seus olhos algo daquela ira crescente que se manifestara quando ele arremessou para longe de si a mulher loura. Explicou-me que os correios eram poucos e incertos, e que, se eu escrevesse agora, garantiria a tranquilidade de meus amigos; e assegurou-me, com tanta ênfase, que cancelaria as cartas posteriores, que ficariam retidas em Bistritz até o devido tempo, caso o acaso permitisse que eu prolongasse minha estada, que contrariá-lo teria sido criar nova suspeita. Fingi, portanto, concordar com seus pontos de vista e perguntei-lhe que datas devia pôr nas cartas. Ele calculou por um minuto e então disse:
— A primeira deve ser de 12 de junho, a segunda de 19 de junho e a terceira de 29 de junho.
Sei agora quanto tempo de vida me resta. Deus me ajude!
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28 de maio. — Há uma possibilidade de fuga, ou pelo menos de poder mandar notícias para casa. Um bando de szgany chegou ao castelo e está acampado no pátio. Esses szgany são ciganos; tenho anotações sobre eles em meu caderno. São peculiares a esta parte do mundo, embora aparentados com os ciganos comuns do mundo inteiro. Há milhares deles na Hungria e na Transilvânia, vivendo quase à margem de toda lei. Em geral, ligam-se a algum grande nobre ou boiardo e adotam o nome dele. São destemidos e sem religião, a não ser a superstição, e falam apenas suas próprias variantes da língua romani.
Vou escrever algumas cartas para casa e tentar fazer com que eles as ponham no correio. Já lhes falei pela janela, para começar a travar conhecimento. Eles tiraram os chapéus, fizeram reverências e muitos sinais, que, no entanto, não pude compreender, assim como não compreendia sua língua falada…
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Escrevi as cartas. A de Mina está em taquigrafia, e ao sr. Hawkins peço simplesmente que se comunique com ela. A ela expliquei minha situação, mas sem os horrores que posso apenas supor. Eu a chocaria e a mataria de susto se lhe abrisse meu coração. Caso as cartas não cheguem, o conde ainda não saberá meu segredo nem a extensão do que sei…
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Entreguei as cartas; atirei-as pelas grades de minha janela junto com uma moeda de ouro e fiz os sinais que pude para que as pusessem no correio. O homem que as pegou apertou-as contra o coração, fez uma reverência e depois guardou-as no chapéu. Não pude fazer mais nada. Voltei sorrateiramente ao gabinete e comecei a ler. Como o conde não veio, escrevi aqui…
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O conde chegou. Sentou-se ao meu lado e disse, com sua voz mais suave, enquanto abria duas cartas:
— Os szgany me deram estas, das quais, embora eu não saiba de onde vêm, naturalmente cuidarei. Veja! — ele devia tê-la examinado. — Uma é sua, para meu amigo Peter Hawkins; a outra… — aqui ele avistou os estranhos símbolos ao abrir o envelope, e aquele olhar sombrio surgiu em seu rosto, e seus olhos chamejaram de maldade — … a outra é uma coisa vil, um ultraje à amizade e à hospitalidade! Não está assinada. Ora! Então não pode nos importar.
E calmamente segurou carta e envelope na chama do lampião até que se consumissem. Então prosseguiu:
— A carta para Hawkins… essa, naturalmente, eu enviarei, já que é sua. Suas cartas são sagradas para mim. Perdoe-me, meu amigo, por ter rompido o lacre sem saber. Não quer pô-la em outro envelope? — Estendeu-me a carta e, com uma reverência cortês, entregou-me um envelope limpo. Só pude endereçá-la de novo e devolvê-la a ele em silêncio. Quando ele saiu do quarto, ouvi a chave girar suavemente. Um minuto depois fui até a porta e a experimentei: estava trancada.
Quando, uma ou duas horas depois, o conde entrou silenciosamente no quarto, sua chegada me acordou, pois eu adormecera no sofá. Ele foi muito cortês e muito jovial em suas maneiras e, vendo que eu estivera dormindo, disse:
— Então, meu amigo, está cansado? Vá para a cama. Lá está o repouso mais seguro. Talvez eu não tenha o prazer de conversar esta noite, pois há muitos trabalhos para mim; mas o senhor dormirá, eu lhe peço.
Fui para o meu quarto e me deitei e, por estranho que pareça, dormi sem sonhar. O desespero tem suas próprias calmarias.
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31 de maio. — Esta manhã, ao acordar, pensei em me prover de papel e envelopes da minha mala e guardá-los no bolso, para poder escrever caso tivesse uma oportunidade; mas de novo uma surpresa, de novo um choque!
Todo e qualquer pedaço de papel havia sumido, e com eles todas as minhas anotações, meus apontamentos sobre ferrovias e viagens, minha carta de crédito — na verdade, tudo o que poderia me ser útil se algum dia eu estivesse fora do castelo. Fiquei sentado refletindo por algum tempo, e então me ocorreu uma ideia, e revistei minha mala e o guarda-roupa onde havia posto minhas roupas.
O terno com que eu viajara havia sumido, e também meu sobretudo e minha manta; não consegui encontrar vestígio deles em parte alguma. Aquilo parecia algum novo plano de vilania…
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17 de junho. — Esta manhã, quando estava sentado na beira da cama, quebrando a cabeça, ouvi lá fora estalos de chicote e o bater e raspar de cascos de cavalo subindo o caminho rochoso além do pátio. Corri com alegria para a janela e vi entrarem no pátio duas grandes carroças de grade, cada uma puxada por oito cavalos robustos, e à frente de cada parelha um eslovaco, com seu chapéu largo, seu grande cinto cravejado de tachas, sua pele de carneiro suja e suas botas altas. Traziam também seus longos cajados na mão. Corri para a porta, com a intenção de descer e tentar me juntar a eles pelo vestíbulo principal, pois pensei que esse caminho estaria aberto para eles. De novo um choque: minha porta estava trancada por fora.
Então corri para a janela e gritei para eles. Olharam para cima, para mim, com ar estúpido, e apontaram, mas justamente então o “hetman” dos szgany saiu e, vendo-os apontar para minha janela, disse alguma coisa, de que eles riram. Dali em diante, nenhum esforço meu, nenhum grito lastimoso ou súplica angustiada conseguiu fazer com que sequer olhassem para mim. Viravam-se resolutamente para o outro lado. As carroças continham grandes caixas quadradas, com alças de corda grossa; estavam evidentemente vazias, a julgar pela facilidade com que os eslovacos as manejavam e pela ressonância que tinham ao serem movidas com brutalidade. Quando foram todas descarregadas e empilhadas num grande monte num canto do pátio, os szgany deram algum dinheiro aos eslovacos, e estes, cuspindo nele para dar sorte, foram preguiçosamente cada um para a cabeça de seu cavalo. Pouco depois, ouvi o estalar de seus chicotes morrer ao longe.
* * * * *
24 de junho, antes do amanhecer. — Ontem à noite o conde me deixou cedo e se trancou em seu quarto. Assim que ousei, subi correndo a escada em caracol e olhei pela janela que dava para o sul. Pensei em vigiar o conde, pois há algo acontecendo. Os szgany estão alojados em algum lugar do castelo e fazem algum tipo de trabalho. Sei disso porque de vez em quando ouço um som abafado e distante, como de enxadão e pá, e, seja o que for, deve ser o desfecho de alguma vilania impiedosa.
Eu estava à janela havia pouco menos de meia hora quando vi algo saindo pela janela do conde. Recuei e observei com cuidado, e vi o homem inteiro emergir. Foi um novo choque para mim descobrir que ele vestia o terno que eu usara na viagem até aqui, e trazia pendurado no ombro o terrível saco que eu vira as mulheres levarem. Não podia haver dúvida quanto ao objetivo de sua saída — e ainda por cima com as minhas roupas! Este é, então, seu novo plano maligno: deixar que outros me vejam, ou pensem que me veem, de modo a deixar provas de que fui visto nas cidades ou aldeias pondo minhas próprias cartas no correio e de que qualquer maldade que ele venha a cometer seja atribuída a mim pela gente do lugar.
Enfurece-me pensar que isso possa continuar, enquanto estou trancado aqui, verdadeiro prisioneiro, mas sem aquela proteção da lei que é direito e consolo até de um criminoso.
Pensei em esperar a volta do conde e, por muito tempo, fiquei obstinadamente sentado à janela. Então comecei a notar que havia uns curiosos pontinhos flutuando nos raios do luar. Eram como os mais ínfimos grãos de poeira, e rodopiavam e se juntavam em aglomerados de um modo meio nebuloso. Observei-os com uma sensação de alívio, e uma espécie de calma foi tomando conta de mim. Recostei-me no vão da janela numa posição mais confortável, para poder apreciar mais plenamente aquela dança aérea.
Algo me fez sobressaltar: um uivo baixo e lastimoso de cães, em algum lugar lá embaixo no vale, que estava oculto à minha vista. O som parecia ressoar cada vez mais alto em meus ouvidos, e as partículas de poeira flutuantes pareciam assumir novas formas ao som dele, enquanto dançavam ao luar. Senti-me lutando para despertar a algum chamado de meus instintos; não, minha própria alma lutava, e minhas sensibilidades meio esquecidas se esforçavam para responder ao chamado. Eu estava ficando hipnotizado! Cada vez mais depressa dançava a poeira; os raios de luar pareciam tremer ao passar por mim rumo à massa de trevas mais além. Cada vez mais se juntavam, até parecerem assumir vagas formas fantasmagóricas. E então me sobressaltei, inteiramente desperto e em plena posse de meus sentidos, e fugi gritando daquele lugar. As formas fantasmagóricas, que gradualmente se materializavam a partir dos raios de luar, eram as das três mulheres espectrais às quais eu estava condenado. Fugi, e me senti um pouco mais seguro em meu próprio quarto, onde não havia luar e onde o lampião ardia com uma luz forte.
Passadas umas duas horas, ouvi algo se mexendo no quarto do conde, algo como um lamento agudo logo abafado; e então houve silêncio, um silêncio profundo, terrível, que me gelou. Com o coração batendo, experimentei a porta; mas eu estava trancado em minha prisão e nada podia fazer. Sentei-me e simplesmente chorei.
Enquanto estava sentado, ouvi um som no pátio lá fora — o grito angustiado de uma mulher. Corri para a janela e, abrindo-a, espiei por entre as grades. Lá estava, de fato, uma mulher de cabelos desgrenhados, com as mãos sobre o coração, como quem está ofegante de tanto correr. Estava encostada numa quina do portão. Quando viu meu rosto à janela, lançou-se para a frente e gritou numa voz carregada de ameaça:
— Monstro, devolva meu filho!
Ela se atirou de joelhos e, erguendo as mãos, gritou as mesmas palavras num tom que me partiu o coração. Então arrancou os cabelos e bateu no peito, e abandonou-se a todas as violências de uma emoção desmedida. Por fim, lançou-se para a frente e, embora eu não pudesse vê-la, ouvi o bater de suas mãos nuas contra a porta.
Em algum lugar no alto, provavelmente na torre, ouvi a voz do conde chamando em seu sussurro áspero e metálico. Seu chamado pareceu ser respondido de toda parte pelo uivo dos lobos. Não se passaram muitos minutos e uma alcateia deles irrompeu, como uma represa que se rompe, pela larga entrada do pátio.
Não houve nenhum grito da mulher, e o uivo dos lobos foi breve. Logo depois eles se afastaram em fila, um a um, lambendo os beiços.
Não pude ter pena dela, pois agora sabia o que acontecera com seu filho, e era melhor para ela estar morta.
Que farei? Que posso fazer? Como posso escapar desta coisa terrível de noite, de trevas e de medo?
* * * * *
25 de junho, de manhã. — Nenhum homem sabe, até ter sofrido com a noite, quão doce e quão querida a seu coração e a seus olhos pode ser a manhã. Quando o sol subiu tanto esta manhã que tocou o alto do grande portão em frente à minha janela, o ponto elevado que ele tocou me pareceu como se a pomba da arca tivesse pousado ali. Meu medo caiu de mim como se fosse uma veste de vapor que se dissolvesse no calor. Preciso agir de algum modo enquanto tenho a coragem do dia. Ontem à noite uma de minhas cartas pós-datadas foi para o correio, a primeira daquela série fatal que há de apagar da terra até os vestígios de minha existência.
Não quero pensar nisso. Ação!
Foi sempre à noite que fui molestado ou ameaçado, ou estive de algum modo em perigo ou com medo. Ainda não vi o conde à luz do dia. Será que ele dorme quando os outros acordam, para poder estar acordado enquanto eles dormem? Se ao menos eu pudesse entrar em seu quarto! Mas não há maneira possível. A porta está sempre trancada; não há caminho para mim.
Sim, há um caminho, se alguém ousar tomá-lo. Por onde o corpo dele passou, por que não poderia passar outro corpo? Eu mesmo o vi rastejar para fora de sua janela. Por que não haveria eu de imitá-lo e entrar por sua janela? As chances são desesperadas, mas minha necessidade é mais desesperada ainda. Vou arriscar. Na pior das hipóteses, será apenas a morte; e a morte de um homem não é a de um bezerro, e o temido Além ainda pode estar aberto para mim. Deus me ajude em minha tarefa! Adeus, Mina, se eu falhar; adeus, meu fiel amigo e segundo pai; adeus a todos, e por último a Mina!
* * * * *
Mesmo dia, mais tarde. — Fiz a tentativa e, com a ajuda de Deus, voltei são e salvo a este quarto. Preciso registrar cada detalhe em ordem. Enquanto minha coragem estava fresca, fui direto à janela do lado sul e logo saí para a estreita saliência de pedra que contorna o edifício deste lado. As pedras são grandes e toscamente talhadas, e a argamassa entre elas foi levada pelo passar do tempo. Tirei as botas e me aventurei pelo caminho desesperado. Olhei para baixo uma vez, para ter certeza de que um vislumbre súbito da profundidade terrível não me dominaria, mas depois disso mantive os olhos longe dela. Eu conhecia bastante bem a direção e a distância da janela do conde, e me dirigi a ela como pude, levando em conta as oportunidades disponíveis. Não senti vertigem — suponho que estivesse agitado demais — e o tempo pareceu ridiculamente curto até que me vi de pé no peitoril da janela, tentando levantar a vidraça. Fiquei muito agitado, porém, quando me abaixei e deslizei para dentro pela janela, com os pés na frente. Então procurei o conde com os olhos, mas, com surpresa e alegria, fiz uma descoberta. O quarto estava vazio! Era parcamente mobiliado com objetos desencontrados, que pareciam nunca ter sido usados; os móveis eram mais ou menos do mesmo estilo dos dos cômodos do lado sul e estavam cobertos de poeira. Procurei a chave, mas não estava na fechadura, e não a encontrei em lugar nenhum. A única coisa que encontrei foi um grande monte de ouro num canto — ouro de todo tipo, moedas romanas, inglesas, austríacas, húngaras, gregas e turcas, cobertas por uma camada de poeira, como se tivessem ficado muito tempo enterradas. Nenhuma das que notei tinha menos de trezentos anos. Havia também correntes e ornamentos, alguns com pedras preciosas, mas todos velhos e manchados.
Num canto do quarto havia uma porta pesada. Experimentei-a, pois, como não conseguia encontrar a chave do quarto nem a chave da porta externa, que era o principal objeto de minha busca, eu precisava fazer novos exames, ou todos os meus esforços seriam em vão. Estava aberta e levava, por um corredor de pedra, a uma escada circular que descia abruptamente. Desci, prestando muita atenção a onde pisava, pois a escada era escura, iluminada apenas por seteiras na pesada alvenaria. Embaixo havia um corredor escuro, como um túnel, de onde vinha um odor mortal, nauseabundo, o odor de terra velha recém-revolvida. À medida que eu avançava pelo corredor, o cheiro ficava mais próximo e mais pesado. Por fim, puxei uma porta pesada que estava entreaberta e me vi numa velha capela em ruínas, que evidentemente fora usada como cemitério. O teto estava quebrado, e em dois lugares havia degraus que levavam a criptas, mas o chão fora recentemente escavado, e a terra posta em grandes caixas de madeira, claramente as que os eslovacos haviam trazido. Não havia ninguém por ali, e procurei alguma outra saída, mas não havia nenhuma. Então examinei cada centímetro do chão, para não perder nenhuma chance. Desci até mesmo às criptas, onde a luz fraca mal penetrava, embora fazê-lo fosse um pavor para minha própria alma. Entrei em duas delas, mas não vi nada além de fragmentos de caixões velhos e montes de pó; na terceira, porém, fiz uma descoberta.
Ali, numa das grandes caixas, das quais havia cinquenta ao todo, sobre um monte de terra recém-cavada, jazia o conde! Estava morto ou dormindo, eu não saberia dizer — pois os olhos estavam abertos e pétreos, mas sem a vidração da morte —, e as faces tinham o calor da vida, apesar de toda a sua palidez; os lábios estavam vermelhos como sempre. Mas não havia sinal de movimento, nem pulso, nem respiração, nem batida do coração. Inclinei-me sobre ele e tentei encontrar algum sinal de vida, mas em vão. Ele não podia estar deitado ali havia muito tempo, pois o cheiro de terra teria se dissipado em poucas horas. Ao lado da caixa estava a tampa, furada aqui e ali. Pensei que ele pudesse ter as chaves consigo, mas, quando fui procurar, vi os olhos mortos, e neles, mortos como estavam, tal expressão de ódio, embora inconsciente de mim ou de minha presença, que fugi daquele lugar e, deixando o quarto do conde pela janela, rastejei de novo pela muralha do castelo. De volta a meu quarto, atirei-me ofegante na cama e tentei pensar…
* * * * *
29 de junho. — Hoje é a data de minha última carta, e o conde tomou providências para provar que era autêntica, pois de novo o vi deixar o castelo pela mesma janela, e com minhas roupas. Enquanto ele descia a muralha à maneira de um lagarto, desejei ter uma arma de fogo ou alguma arma mortal, para poder destruí-lo; mas temo que nenhuma arma forjada apenas pela mão do homem tivesse qualquer efeito sobre ele. Não ousei esperar para vê-lo voltar, pois tinha medo de ver aquelas estranhas irmãs. Voltei à biblioteca e li ali até adormecer.
Fui acordado pelo conde, que me olhou com o ar mais sinistro que um homem pode ter, enquanto dizia:
— Amanhã, meu amigo, devemos nos separar. O senhor volta para sua bela Inglaterra, eu para um trabalho que pode ter tal desfecho que talvez nunca mais nos encontremos. Sua carta para casa foi despachada; amanhã não estarei aqui, mas tudo estará pronto para sua viagem. De manhã vêm os szgany, que têm alguns trabalhos próprios aqui, e vêm também alguns eslovacos. Quando tiverem partido, minha carruagem virá buscá-lo e o levará ao passo de Borgo para encontrar a diligência que vai da Bucovina a Bistritz. Mas tenho esperança de vê-lo mais vezes no castelo de Drácula.
Desconfiei dele e decidi pôr à prova sua sinceridade. Sinceridade! Parece uma profanação da palavra escrevê-la em relação a semelhante monstro. Assim, perguntei-lhe sem rodeios:
— Por que não posso ir esta noite?
— Porque, caro senhor, meu cocheiro e meus cavalos estão fora, numa missão.
— Mas eu iria a pé com prazer. Quero partir imediatamente.
Ele sorriu, um sorriso tão suave, tão macio, tão diabólico, que eu soube que havia alguma artimanha por trás daquela suavidade. Disse:
— E sua bagagem?
— Não me importo com ela. Posso mandar buscá-la em outra ocasião.
O conde se levantou e disse, com uma cortesia tão doce que me fez esfregar os olhos, de tão verdadeira que parecia:
— Vocês, ingleses, têm um ditado que me é caro ao coração, pois seu espírito é o que rege nossos boiardos: “Acolhe o hóspede que chega; apressa o que parte.” Venha comigo, meu caro jovem amigo. Nem uma hora o senhor esperará em minha casa contra sua vontade, embora eu esteja triste com sua partida e por desejá-la tão de repente. Venha!
Com uma gravidade majestosa, ele, com o lampião, me precedeu escada abaixo e ao longo do vestíbulo. De repente parou.
— Escute!
Bem perto veio o uivo de muitos lobos. Era quase como se o som brotasse ao erguer-se de sua mão, tal como a música de uma grande orquestra parece saltar sob a batuta do regente. Após uma pausa de um momento, ele prosseguiu, com seu ar majestoso, até a porta, puxou os pesados ferrolhos, soltou as pesadas correntes e começou a abri-la.
Para meu intenso espanto, vi que estava destrancada. Desconfiado, olhei em volta, mas não vi chave de espécie alguma.
Quando a porta começou a se abrir, o uivo dos lobos lá fora ficou mais alto e mais furioso; suas mandíbulas vermelhas, com dentes rangendo, e suas patas de garras rombudas, enquanto saltavam, entravam pela abertura da porta. Soube então que lutar naquele momento contra o conde era inútil. Com aliados como aqueles sob seu comando, eu nada podia fazer. Mas a porta continuava a se abrir lentamente, e apenas o corpo do conde se interpunha na abertura. De repente me ocorreu que aquele podia ser o momento e o meio de minha perdição; eu seria entregue aos lobos, e por minha própria iniciativa. Havia na ideia uma maldade diabólica à altura do conde, e, como última chance, gritei:
— Feche a porta; esperarei até de manhã! — e cobri o rosto com as mãos para esconder minhas lágrimas de amarga decepção. Com um só movimento de seu braço poderoso, o conde fechou a porta com violência, e os grandes ferrolhos retiniram e ecoaram pelo vestíbulo ao voltarem a seus lugares.
Em silêncio, voltamos à biblioteca, e depois de um ou dois minutos fui para o meu quarto. A última coisa que vi do conde Drácula foi ele me mandando um beijo com a mão, com uma luz vermelha de triunfo nos olhos e um sorriso de que Judas no inferno poderia se orgulhar.
Quando estava em meu quarto e prestes a me deitar, pensei ter ouvido um sussurro à minha porta. Fui até ela devagar e escutei. A menos que meus ouvidos me enganassem, ouvi a voz do conde:
— Para trás, para trás, para o seu lugar! Sua hora ainda não chegou. Esperem! Tenham paciência! Esta noite é minha. Amanhã à noite é de vocês!
Houve uma ondulação de riso baixa e doce, e, enfurecido, escancarei a porta e vi lá fora as três mulheres terríveis lambendo os lábios. Quando apareci, todas elas se juntaram num riso horrível e fugiram.
Voltei para o meu quarto e me atirei de joelhos. Então o fim está tão próximo? Amanhã! Amanhã! Senhor, ajuda-me, e àqueles para quem sou querido!
* * * * *
30 de junho, de manhã. — Estas podem ser as últimas palavras que escrevo neste diário. Dormi até pouco antes da aurora e, ao acordar, atirei-me de joelhos, pois decidira que, se a Morte viesse, me encontraria preparado.
Por fim senti aquela mudança sutil no ar e soube que a manhã chegara. Então veio o bem-vindo canto do galo, e senti que estava a salvo. Com o coração alegre, abri minha porta e desci correndo até o vestíbulo. Eu vira que a porta estava destrancada, e agora a fuga estava diante de mim. Com mãos que tremiam de ansiedade, soltei as correntes e puxei os maciços ferrolhos.
Mas a porta não se movia. O desespero se apoderou de mim. Puxei e puxei a porta, e a sacudi até que, maciça como era, chacoalhou no batente. Eu podia ver a lingueta corrida. Ela fora trancada depois que deixei o conde.
Então um desejo selvagem me tomou de obter aquela chave a qualquer risco, e decidi ali mesmo escalar de novo a muralha e chegar ao quarto do conde. Ele poderia me matar, mas a morte agora parecia o mais feliz dos males a escolher. Sem hesitar, corri até a janela leste e desci pela muralha, como antes, até o quarto do conde. Estava vazio, mas era o que eu esperava. Não vi chave em lugar nenhum, mas o monte de ouro continuava lá. Atravessei a porta do canto, desci a escada em caracol e segui pelo corredor escuro até a velha capela. Agora eu sabia muito bem onde encontrar o monstro que procurava.
A grande caixa estava no mesmo lugar, encostada na parede, mas a tampa fora posta sobre ela, não pregada, mas com os pregos prontos em seus lugares para serem martelados. Eu sabia que precisava alcançar o corpo para pegar a chave, então ergui a tampa e a encostei na parede; e então vi algo que encheu minha alma de horror. Ali jazia o conde, mas parecendo como se sua juventude tivesse sido renovada pela metade, pois os cabelos e o bigode brancos haviam mudado para um grisalho escuro, cor de ferro; as faces estavam mais cheias, e a pele branca parecia vermelho-rubi por baixo; a boca estava mais vermelha do que nunca, pois nos lábios havia gotas de sangue fresco, que escorriam dos cantos da boca e corriam pelo queixo e pelo pescoço. Até os olhos fundos e ardentes pareciam engastados em carne inchada, pois as pálpebras e as bolsas embaixo delas estavam intumescidas. Parecia que toda a horrenda criatura estava simplesmente empanturrada de sangue. Jazia como uma sanguessuga imunda, exausta de saciedade. Estremeci ao me inclinar para tocá-lo, e todos os meus sentidos se revoltaram com o contato; mas eu precisava procurar, ou estaria perdido. A noite seguinte poderia ver meu próprio corpo servir de banquete, de maneira semelhante, àquelas três horrendas. Apalpei o corpo todo, mas não encontrei nenhum sinal da chave. Então parei e olhei para o conde. Havia um sorriso zombeteiro no rosto inchado que parecia me levar à loucura. Este era o ser que eu estava ajudando a transferir para Londres, onde, talvez por séculos a fio, ele poderia, entre seus milhões de habitantes, saciar sua sede de sangue e criar um círculo novo e cada vez mais amplo de semidemônios para se cevar nos indefesos. Só de pensar nisso eu enlouquecia. Um desejo terrível se apoderou de mim de livrar o mundo de tal monstro. Não havia nenhuma arma mortal à mão, mas agarrei uma pá que os trabalhadores haviam usado para encher as caixas e, erguendo-a bem alto, golpeei, com o gume para baixo, o rosto odioso. Mas, ao fazê-lo, a cabeça se virou, e os olhos caíram em cheio sobre mim, com todo o seu fulgor de horror de basilisco. Aquela visão pareceu me paralisar, e a pá girou em minha mão e resvalou do rosto, fazendo apenas um corte profundo acima da testa. A pá caiu de minha mão atravessada sobre a caixa e, quando a puxei, a borda da lâmina prendeu-se na beirada da tampa, que caiu de novo e escondeu a coisa horrenda de minha vista. O último vislumbre que tive foi do rosto inchado, manchado de sangue e fixo num esgar de malícia que não faria feio no mais profundo dos infernos.
Pensei e pensei em qual deveria ser meu próximo passo, mas meu cérebro parecia em chamas, e esperei, com um sentimento de desespero crescendo dentro de mim. Enquanto esperava, ouvi ao longe uma canção cigana, cantada por vozes alegres, que se aproximava, e, em meio à canção, o rodar de rodas pesadas e o estalar de chicotes; os szgany e os eslovacos de quem o conde falara estavam chegando. Com um último olhar em volta e para a caixa que continha o corpo vil, fugi daquele lugar e alcancei o quarto do conde, decidido a sair correndo no momento em que a porta fosse aberta. Com os ouvidos atentos, escutei, e ouvi lá embaixo o ranger da chave na grande fechadura e a pesada porta se abrindo. Devia haver algum outro meio de entrada, ou alguém tinha a chave de uma das portas trancadas. Então veio o som de muitos pés que marchavam e se perdiam em algum corredor que devolvia um eco ressoante. Virei-me para descer correndo de novo em direção à cripta, onde talvez encontrasse a nova entrada; mas naquele momento pareceu vir uma violenta lufada de vento, e a porta da escada em caracol bateu com um estrondo que fez voar a poeira das vergas. Quando corri para empurrá-la, descobri que estava irremediavelmente fechada. Eu era de novo um prisioneiro, e a rede da perdição se fechava cada vez mais à minha volta.
Enquanto escrevo, há no corredor lá embaixo um som de muitos pés marchando e o estrondo de pesos sendo depositados pesadamente, sem dúvida as caixas, com sua carga de terra. Há um som de marteladas; é a caixa sendo pregada. Agora ouço os pés pesados marchando de novo pelo vestíbulo, com muitos outros pés ociosos vindo atrás deles.
A porta se fecha, e as correntes chacoalham; há o ranger da chave na fechadura; ouço a chave ser retirada; então outra porta se abre e se fecha; ouço o rangido de fechadura e ferrolho.
Escute! No pátio e pelo caminho rochoso abaixo, o rodar de rodas pesadas, o estalar de chicotes e o coro dos szgany, que se afastam ao longe.
Estou sozinho no castelo com aquelas mulheres horrendas. Arre! Mina é uma mulher, e não há nada em comum. Elas são demônios do Abismo!
Não ficarei sozinho com elas; tentarei escalar a muralha do castelo mais longe do que já tentei até agora. Levarei um pouco do ouro comigo, caso precise dele mais tarde. Talvez eu encontre uma saída deste lugar terrível.
E então, para casa! Para o trem mais rápido e mais próximo! Para longe deste lugar maldito, desta terra maldita, onde o diabo e seus filhos ainda andam com pés terrenos!
Ao menos a misericórdia de Deus é melhor do que a destes monstros, e o precipício é íngreme e alto. Ao pé dele um homem pode dormir — como um homem. Adeus a todos! Mina!
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