O pão das cinco

A primeira fornada saía às cinco em ponto. Era assim desde que Marina tinha dezesseis anos e o pai ainda conseguia carregar os sacos de farinha sozinho. Agora ele tinha sessenta e oito, um joelho que não dobrava direito e uma pasta azul em cima da mesa da cozinha que ninguém tinha coragem de abrir.
Marina abriu.
Aviso de execução. Trinta dias. Valor atualizado da dívida: um número tão grande que ela precisou ler duas vezes para ter certeza de que não tinha contado um zero a mais.
— Não fala pra ele ainda — pediu a mãe, da porta, de camisola e avental por cima. — Deixa ele terminar o sonho de creme em paz.
Marina fechou a pasta e foi sovar a massa com tanta força que o balcão de mármore tremeu.
Às seis e meia, a padaria já estava cheia. Porteiro, enfermeira do plantão, motorista de aplicativo, a dona Lurdes que pedia sempre meia dúzia de pão e reclamava que estava pequeno. Marina conhecia todo mundo pelo nome e pelo pedido.
Por isso reparou nele.
Terno cinza-chumbo, sem gravata, relógio que custava mais que o forno novo que ela nunca ia conseguir comprar. Ficou parado na porta olhando a vitrine como quem olha uma planilha com erro. Não pediu nada. Só olhou.
— O senhor vai querer alguma coisa ou veio fiscalizar o pão? — perguntou ela, limpando as mãos no pano de prato.
Ele levantou os olhos. Eram escuros e cansados, do tipo que não dormia havia dias e fingia que não.
— Um pingado. Sem açúcar.
— Aqui o pingado já vem com açúcar.
— Então eu vou querer do jeito que vem.
Ela serviu. Ele bebeu em três goles, sem fazer careta, e deixou uma nota de cem no balcão.
— Não tenho troco pra isso a essa hora.
— Não quero troco. Quero dez minutos com a senhora.
A dona Lurdes parou de reclamar do pão. O motorista de aplicativo parou de mexer no celular. Marina sentiu o rosto esquentar e odiou a si mesma por isso.
— Moço, eu tenho quarenta pedidos para entregar até as oito.
— Heitor Vasconcellos — disse ele, como se o nome resolvesse tudo. — E eu sei que a senhora tem trinta dias para pagar o banco.
O pano de prato caiu no chão.
Eles conversaram no estoque, entre sacos de farinha e caixas de ovos, porque era o único lugar onde ninguém ia escutar. Heitor não sentou. Ficou encostado na prateleira com os braços cruzados, e Marina teve a impressão de que ele nunca na vida tinha entrado num estoque de padaria.
— Meu avô é o dono do Grupo Vasconcellos — começou ele. — Supermercados, atacado, logística. Ele tem oitenta e dois anos e uma ideia fixa: só passa a presidência para um neto casado. Diz que homem sozinho não sabe o que é responsabilidade.
— E o que eu tenho a ver com a crise de família de um bilionário?
— A senhora é a única mulher em São Paulo que eu sei que não está atrás do meu dinheiro. — Ele fez uma pausa. — Porque ontem, quando eu passei aqui, a senhora me cobrou quatro reais a mais pelo pão de queijo e ainda disse que eu tinha cara de quem aguentava.
Marina lembrou. Tinha dito mesmo.
— Seis meses — continuou Heitor. — Noivado público, casamento no cartório se for preciso, separação discreta depois. Em troca, eu quito a dívida da padaria inteira. Hoje.
Ela riu. Riu de nervoso, porque era isso ou chorar no meio dos ovos.
— O senhor está me pedindo em casamento no estoque?
— Estou oferecendo um contrato. — Ele tirou do bolso interno do paletó um envelope branco, grosso, com o timbre de um escritório de advocacia. — Leia com calma. Tem uma cláusula que eu faço questão.
— Qual?
Heitor olhou para ela pela primeira vez sem pressa, como se estivesse medindo o risco.
— Cláusula sete. É proibido se apaixonar.
Lá fora, o forno apitou. A segunda fornada estava pronta, e Marina percebeu que tinha esquecido de virar o pão.
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