As cláusulas

Ela leu o contrato três vezes, sentada no degrau dos fundos da padaria, com o cheiro de fermento grudado no cabelo.
Doze páginas. Quartos separados. Presença obrigatória em eventos da família e da empresa. Beijos, abraços e demonstrações de afeto apenas em público e apenas quando necessário. Sigilo absoluto. Multa pesada para quem quebrasse qualquer cláusula.
E, em negrito, a sete: “As partes declaram ciência de que o presente acordo não envolve sentimentos e se comprometem a não desenvolvê-los.”
— Que tipo de gente escreve isso num contrato? — perguntou Marina para o gato do vizinho, que não respondeu.
O pai apareceu na porta com um pão na mão e o joelho arrastando.
— Tá tudo bem, filha?
Ela olhou para ele. Para o avental manchado, para as mãos cheias de calo, para os quarenta anos de madrugada que estavam naquela padaria. Guardou o contrato no bolso do avental.
— Tá sim, pai. Vai descansar.
Naquela noite, ela ligou para o número do cartão.
— Eu aceito — disse, antes que ele falasse alô. — Mas tenho uma cláusula também.
Silêncio do outro lado. Depois, a voz grave, com um fundo de surpresa:
— Pode dizer.
— Eu não largo a padaria. Às quatro da manhã, eu estou aqui. Todo dia. Com chuva, com festa, com o que for.
— Aceito.
— E o senhor para de me chamar de senhora.
Pela primeira vez, ela ouviu Heitor Vasconcellos rir. Foi curto, quase um susto.
— Aceito também, Marina.
A cobertura nos Jardins parecia uma revista de decoração em que ninguém morava de verdade. Tudo cinza, branco e vidro. Uma cozinha enorme com um fogão que nunca tinha visto uma panela. Marina passou o dedo no balcão e não encontrou nem poeira nem vida.
— Seu quarto é o do fim do corredor — explicou Heitor, carregando a mala dela como se fosse um objeto estranho. — Tem banheiro próprio. A senha da porta é o seu aniversário.
— Como você sabe o meu aniversário?
— Eu sei tudo que está no seu cadastro do banco.
— Isso é assustador.
— Isso é eficiente.
Ela largou a mala no chão e olhou para ele.
— Vamos combinar uma coisa, Heitor. Se a gente vai passar seis meses fingindo, pelo menos finge que é gente. Ninguém se apaixona por uma planilha.
Ele abriu a boca para responder e fechou de novo. Por um segundo, Marina achou que tinha acertado alguma coisa que doía.
O jantar com o avô foi no domingo, numa mansão no Morumbi com mais empregados do que convidados. Dom Álvaro Vasconcellos era baixinho, magro, de bengala, e tinha os mesmos olhos escuros do neto. Olhou para Marina de cima a baixo como se estivesse conferindo mercadoria.
— Padeira — disse ele. Não era pergunta.
— Padeira — confirmou Marina. — Terceira geração.
— E o que uma padeira do Bixiga vê no meu neto?
A mesa inteira ficou em silêncio. Uma tia de colar de pérolas escondeu o sorriso atrás do guardanapo. Um primo de cabelo penteado para trás, que tinha se apresentado como Otávio, cruzou os braços com interesse.
Heitor ia responder. Marina foi mais rápida.
— Vejo um homem que toma pingado com açúcar sem reclamar só para não ser mal-educado — disse ela. — E que deixou cem reais numa padaria que estava quebrando, sem pedir troco. O senhor criou ele para ser duro. Mas ele não é tanto quanto pensa.
Dom Álvaro ficou olhando para ela um tempo longo demais. Depois bateu a bengala no chão, uma vez.
— Gostei dela — disse para ninguém em especial. — Sirvam a sobremesa.
No carro, na volta, Heitor dirigiu em silêncio por quase vinte minutos. No farol da Rebouças, ele finalmente falou, sem tirar os olhos da rua:
— Aquilo que você disse no jantar.
— Era teatro. Estava no contrato.
— Eu sei. — Ele apertou o volante. — Foi bem convincente.
Ela olhou pela janela para esconder o sorriso. Cláusula sete, repetiu para si mesma. Cláusula sete.
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