A festa de noivado

A festa foi no terraço de um hotel na Faria Lima, com vista para a cidade inteira acesa. Duzentos convidados, fotógrafos de revista, champanhe que custava o aluguel de um mês da padaria. Marina usava um vestido azul-noite que uma estilista tinha ajustado nela com alfinetes às pressas naquela tarde, e sapatos que já estavam matando seus pés antes do primeiro brinde.
— Respira — disse Heitor no ouvido dela, na entrada. A mão dele pousou na base das costas de Marina, leve, precisa. — Sorri para a esquerda. É a revista que meu avô lê.
— Eu sei sorrir sozinha.
— Eu sei. Estou falando para mim.
Ela olhou para ele, surpresa. Heitor estava pálido.
— Você está nervoso?
— Eu odeio festa. Odeio gente olhando. Odeio discurso.
— E vai fazer um.
— E vou fazer um — ele suspirou. — Se eu travar, pisa no meu pé.
Ela riu, de verdade, e o flash explodiu na cara dos dois. No dia seguinte, aquela foto ia sair com a legenda “o herdeiro apaixonado”, e ninguém ia saber que eles estavam rindo de medo.
A noite correu como um filme em velocidade errada. Marina apertou mãos de diretores, de acionistas, de mulheres que perguntavam com um sorriso afiado de que família ela era. Respondia sempre a mesma coisa: da família Alves, do pão de fermentação natural. Metade achava graça. A outra metade achava ofensa.
Foi perto do bar que a loira apareceu.
Alta, cabelo liso até a cintura, vestido vermelho que não pedia licença. Ela olhou para Marina com a calma de quem já tinha ganhado aquela guerra antes.
— Bianca Toledo — apresentou-se, sem estender a mão. — Fui noiva do Heitor por três anos. Ele te contou?
— Contou — mentiu Marina.
— Contou também por que terminou? — Bianca sorriu. — Ele não sabe amar, querida. Ele sabe negociar. Quando o contrato acabar, você vai entender.
Marina sentiu o chão mexer por um segundo. Contrato. A palavra caiu entre elas como um copo quebrado.
— Que contrato? — perguntou, com a voz mais tranquila que conseguiu.
— Força de expressão. — Bianca bebeu um gole de champanhe. — Com o Heitor, tudo é contrato.
E foi embora, deixando para trás um perfume caro e uma dúvida pior ainda.
O discurso foi curto. Heitor travou duas vezes. Na segunda, Marina pisou no pé dele, de leve, e ele terminou a frase. Disse que tinha encontrado alguém que o fazia acordar mais cedo, e todo mundo riu achando que era figura de linguagem. Só Marina sabia que era verdade: ele tinha começado a aparecer na padaria às cinco da manhã para buscá-la, com dois pingados na mão, sem que ninguém pedisse.
Depois do discurso, os fotógrafos pediram o beijo.
Estava no contrato. Cláusula quatro: demonstrações de afeto em público quando necessário. Marina se preparou para um selinho rápido, profissional, de fotografia.
Heitor segurou o rosto dela com as duas mãos.
Não foi rápido. Não foi profissional. O terraço, a cidade, os duzentos convidados, tudo sumiu, e sobrou só o gosto de champanhe e a mão dele tremendo levemente no maxilar dela. Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela e falou tão baixo que só ela ouviu:
— Isso não estava no contrato.
Marina não conseguiu responder. Os aplausos vieram de todos os lados.
Uma hora depois, sozinha no banheiro do hotel, tirando os sapatos que já tinham arrancado a pele do calcanhar, ela abriu a bolsa para pegar um curativo. Junto com o celular, veio um envelope pardo que ela não tinha colocado ali.
Dentro, uma única folha. Cópia de um documento bancário. Cessão de crédito. O banco tinha vendido a dívida da Padaria Estrela para outra empresa, três semanas antes do dia em que Heitor entrou na padaria pedindo um pingado.
Marina leu o nome do novo credor e sentiu o sangue gelar.
Grupo Vasconcellos Participações S.A.
Ele não tinha salvado a padaria do pai dela. Ele era o dono da dívida.
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